Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Solidão, lutos difíceis e institucionalização

É inegável o papel dos laços sociais na vida das pessoas, destacando a sua necessidade para superação de lutos difíceis e de situações que evidenciam a precariedade da condição humana diante da inevitável vivência de solidão.


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Vivemos em tempos de crise. Não apenas esta econômica, de que tanto se fala por aí, mas uma crise de outra ordem, que tem levado o sujeito à vivência de uma solidão que lhe impossibilita a vida.

Ângela Mucida diz que “o homem moderno parece ter cada dia menos condições para estar só e encontrar uma boa solidão”. Em muito isso tem a ver com o discurso em torno do rechaço de relações amorosas e do contato mais íntimo com os outros. Estar só torna-se também sinônimo de abandono e de falta de amor.

Se todas as pessoas, em maior ou menor grau, passam por tais vivências, quem dirá o idoso, e ainda mais quando vive processos de institucionalização, como no caso de idosos em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), momento em que acontece uma ruptura muitas vezes brusca com a realidade anterior à instituição.

É inegável o papel dos laços sociais na vida das pessoas, especialmente do idoso, destacando a sua necessidade para superação de lutos difíceis e de situações que evidenciam a precariedade da condição humana diante da, inevitável, vivência de solidão. Especialmente no idoso, é comum sentimentos de abando e solidão, trazidos com a experiência de “não ser mais útil”, quando o idoso começa a dizer que “não faz falta”.

Freud também aborda a questão da solidão humana, diferenciando-a de solidão. Enquanto esta é inerente à existência humana, o isolamento, por sua vez, resigna o sujeito a uma vida fechada e cuja inexistência de laços causa dor e sofrimento. Lacan também traz suas contribuições à temática, apontando para a possibilidade da formação de laços significativos para o sujeito mesmo nas fases mais avançadas da vida. Quanto à institucionalização, pode favorecer a experiência do isolamento, uma vez que é inerente a todo sujeito ao longo de sua existência.

E o que muda nesse contexto, com relação às demais fases da vida e diversas vivências? Talvez a noção de sujeito do desejo. Enquanto houver desejo há possibilidade de intervenção e, por consequência, possibilidade de abertura de novos laços sociais, de encontro com a solidão, mas não com o isolamento. Ou seja, há pulsão de vida. No entanto, na sociedade atual, parece ser cada vez mais difícil vivenciar a solidão de forma positiva. Tantas vezes ela está ligada ao rótulo da depressão e do Alzheimer, termos que permeiam diagnósticos, especialmente na velhice. Muitas vezes a solidão vem como consequência da vivência de lutos, mas não há permissão para vivê-los já que representa tristeza e a tristeza não é bem aceita. O paradoxo de tal situação é que atualmente a solidão é algo comum, marca da expansão populacional, tecnológica e científica, que oferta inúmeras formas de satisfação e conforto.

Mas então, como é possível estados depressivos e queixas de solidão se tudo convida o sujeito ao gozo sem limites? Que promessa de felicidade é esta que nos é imposta? Com relação a isso, Mucida nos convida a pensar que se de um lado encontram-se as queixas frequentes de solidão e isolamento, de outro há o anseio pelos retiros, SPAs, casas de repousos e hotéis-fazenda, formas modernas de isolar-se do outro. Isso não quer dizer que refugiar-se nesses espaços sempre está atrelado a uma fuga de si, pois quando a solidão se torna uma escolha, sendo desejada, torna-se propícia à reflexão, à criação ou associada a outros estados de espírito como a meditação e a oração. Assim, difere-se da solidão que tantas vezes está presente na velhice, aquela na qual o isolamento e a carência de laços afetivos e sociais levam a um estar só penoso e dolorido. “Aprender a estar só e bem consigo não é uma tarefa fácil”, nos aponta Mucida.

Então, o que dizer de quem se encontra institucionalizado? Lidar com a solidão, tantas vezes presentes nas ILPIs, só é possível quando o sujeito pode viver a perda de objetos significativos e, assim, elaborar seus lutos. Por isso, mesmo em instituições em que o idoso é privado de sua liberdade e da vivência de relacionamentos que há algum tempo lhe são significativas, é possível construir novos laços e sustentar a posição de um sujeito do desejo. Quanto a isso, aponto os benefícios que a participação de grupos e o convívio social têm trazido para os idosos, no sentido de sublimar e elaborar os lutos, ao mesmo tempo em que possibilita o encontro com si mesmo, em uma visão mais introspectiva da vida.


Talita Baldin

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