Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

7 minutos depois da meia-noite

“Histórias são criaturas selvagens. Quando são soltas, quem sabe o mal que podem causar?”


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De titulo original “A monster calls” (Bayona, 2016), esse filme é de uma sutileza sem tamanho. Surpreende por ser uma produção infantil para adultos e, portanto, ter aquela coisa mágica que poucas produções conseguem fazer, que é levar pessoas adultas, que às vezes já se esqueceram da honestidade que é ser criança, a um reencontro consigo mesmas.

A história conta a vida Connor, um menino de 13 anos cuja mãe está morrendo. Não bastasse isso, o pai mora longe com outra família, a avó parece uma mulher difícil e inacessível, e a escola é angustiante.

Mas Connor, embora pareça, não está sozinho. Ele tem a companhia de uma árvore gigante que lhe aparece para contar três histórias, sempre sete minutos após a meia noite, sob o acordo de que haveria uma quarta, esta a ser contada por Connor – o seu maior pesadelo. Um pouco relutante, o menino aceita a proposta e ouve as três histórias da árvore: uma sobre um príncipe que parecia bonzinho e uma bruxa que parecia má; a segunda sobre o Teixo, uma árvore com o poder da cura que, ele quer acreditar, salvará sua mãe; e a terceira sobre um homem invisível que estava cansado de não ser visto.

Chegado ao fim da terceira história da árvore, é a vez de Connor contar seu pesadelo, aquele que ele sempre acorda antes de terminar. Sua história é ele segurando a mão de sua mãe, para que ela não caia de um precipício. Ele não pode contar como esse pesadelo termina. Seria a coisa mais difícil a se fazer. Ele “preferiria morrer a dizer o que queria que acontecesse”. Na verdade, Connor queria soltar a mão de sua mãe, por mais que aquilo lhe doesse. Ele queria deixa-la ir, sem poder suportar esse alívio dentro de si. Então, Connor descobre que o Teixo gigante não estava ali para salvar sua mãe, mas sim para salva-lo. Para fazê-lo entender que há coisas pelas quais é preciso passar. Que há coisas que simplesmente precisam ser ditas, e depois irem embora, para não precisarem mais serem pesadelos que lhes acordam no meio da noite, assustados, suados, preocupados.

“Connor: Eu vou morrer se falar.

Árvore: Você vai morrer se não falar. Fale a verdade, garoto!

Eu queria que acabasse. Não saber que ela ia embora. Eu queria não saber. Que eu deixei ela cair, que eu deixei ela morrer.

Muito corajoso, Connor. Você finalmente disse.

Por que não me matou? Eu mereço ser punido. Mereço o pior. Eu sempre soube que ela não ia conseguir e ela disse o tempo todo que ia melhorar. Porque era o que eu queria ouvir. Eu acreditei nela, só que não. Eu comecei a pensar como eu queria que tudo acabasse.

Uma parte de você queria o fim, mesmo que você a perdesse.

Eu soltei ela. Eu podia ter segurado. Mas eu sempre solto.

E essa é a sua verdade.

Mas eu não queria que fosse. Agora é real. Agora ela vai morrer e a culpa é minha.

Isso não é verdade, mesmo. Você queria que a dor cessasse, a sua dor. E isso é o desejo mais humano que existe.

Mas não era sério.

Ah, era. Mas também não era.

Como pode ser os dois?

Como um príncipe pode matar e ser amado pelo seu povo? Como um homem pode se sentir mais sozinho quando é visto? (...) Porque os humanos são coisas complicadas. Acreditou em mentiras confortáveis mesmo sabendo a verdade dolorida que fez essas mentiras serem necessárias. E no fim, Connor, não importa o que você pensa. O que importa é o que você faz.”

No fim das contas, “Sete minutos depois da meia-noite” é um desses filmes elaborativos que vêm para salvar adultos cansados, que precisam reconhecer seus monstros de vez em quando, entender que dá para ser o homem ignorado que chama um monstro, ou a bruxa que todos acham que é má, mas que não é culpada; ou o príncipe bonzinho e traidor; ou mesmo o boticário mau humorado, mas detentor da cura pela fé. É desses filmes que nos levam de uma ponta a outra de uma mesma história, essa que a gente tenta o tempo todo esconder de nós mesmos, cobrir com paninhos quentes, quando não podemos admitir que nossas histórias estão mais pesadas do que podemos dar conta. E então nos protegermos sob mentiras confortáveis que encobrem culpa, medo e resignação. A vida é dura. “Porque seres humanos são coisas complicadas”. Ambíguos. Sensíveis. Errados. E muito carentes de um consolo.

E então, seguimos pela vida tentando.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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