Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

A história de nós dois: a relação de um casal

Em um casal em que o exercício da comunicação é retroalimentado por comportamentos desfavoráveis a uma boa relação, a manutenção do equilíbrio se dá no sentido de incansavelmente um culpabilizar o outro por ações que na verdade dizem respeito ao sistema e a algo que habitualmente o casal inseriu na dinâmica.


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O filme conta a história da vida conjugal de Ben e Katie Jordan, casados há 15 anos e pais de dois filhos, um menino com 12 anos e uma menina com 10. Durante as férias, na qual os filhos estavam fora de casa em um acampamento de verão, o casal chega ao ápice de uma crise, decidindo se separar. Durante este mês de férias Katie fica na casa da família e Ben vai para um hotel. Entre idas e vindas o casal tenta reaproximações e conversas, mas sempre acaba discutindo pela dificuldade em lidar com as diferenças existentes em seus históricos familiares individuais e que surgem na nova família formada.

A crise no casamento do casal se dá por conta de longos anos de tolerância às diferenças existentes entre ambos e que chegam ao clímax do suportável, portanto é representativa do momento conjugal em que não se pode mais tolerar aquilo que inicialmente gerou encantamento. Chama atenção como o filme deixa claro que pode acontecer que duas pessoas com vivências distintas se sintam atraídas uma pela outra, sendo que o que à primeira vista traz encantamento, a longo prazo pode trazer muito sofrimento. No caso de Katie e Ben, refere-se à excessiva organização e planejamento da esposa, em contraste com a irresponsabilidade e imprevisibilidade de Ben. Sem dúvidas, tais características foram fortemente construídas e sustentadas nas famílias de origem, embora o filme apenas muito sutilmente permita conhecer os pais do casal. Ainda assim, Ben acusa Katie de ter se tornado igual à mãe, com quem parece não manter um relacionamento muito bom e o casal não consegue, a princípio, sustentar satisfatoriamente um espaço em que se eles podem se sentir sensíveis um ao outro.

Em se tratando de casais a compreensão é de que há a existência de um microssistema familiar. Uma relação saudável, neste contexto, seria aquela que visa transformar a realidade interna do casal e introduzir perspectiva, esperança e novidade para a relação destas pessoas, pois os conflitos conjugais surgem quando há discordância entre os cônjuges com relação às regras interacionais entre ambos ou, ainda, quando as exigências simultâneas de ambos são contraditórias e divergentes. Para tal, considera-se o conceito de comunicação como extremamente importante, sendo que a “comum ação” precisa chegar a ambos os cônjuges, por meio de um processo de enviar e receber mensagens, com conteúdo verbal e não-verbal similar ou então causará divergências, por vezes intransponíveis.

Em um casal em que o exercício da comunicação é retroalimentado por comportamentos desfavoráveis a uma boa relação, a manutenção do equilíbrio se dá no sentido de incansavelmente um culpabilizar o outro por ações que na verdade dizem respeito ao sistema e a algo que habitualmente o casal inseriu na dinâmica. A exemplo, no filme, Katie acusa Ben de tê-lo posto no papel de precisar cuidar de todas as responsabilidades da casa, ao passo que ele se defende acusando Katie de ter assumido este papel sem que lhe fosse designado.

Em sua experiência clínica com casais, Minuchin (1995) atenta que em geral casais e famílias chegam ao consultório com uma definição clara sobre si mesmos: “estão esgotados depois de terem lutado com problemas, às vezes durante anos, e se definem através desses problemas” (MINUCHIN, 1995, p. 45). O casal Jordan não é exceção, sendo que a crise é marcada pela ausência de potencialidades do casal. Apenas no final do filme eles conseguem perceber o quanto são bons em fazer coisas juntos, mas na maior parte do tempo se definem por aquilo que criticam no cônjuge. Logo, por chegarem sob esta perspectiva, são capazes de elencar seus problemas, coletivos ou individuais, porém tais definições apontam sempre para o outro enquanto culpado. O fato de um membro apontar as culpas dos outros favorece um processo de enrijecimento das respostas da família e tem por consequência o reforçamento do problema, que muitas vezes é mantida por muitos anos equilibrando as relações e não permitindo qualquer tipo de mudança.

A finalização do filme permite pensar na relação do casal considerando os filhos: claramente eles protegem as crianças. Inclusive, no momento em que decide que contarão aos filhos sobre a separação, decidem que não sabem como dirão, mas que devem dizer às crianças que os amam muito e que elas são ótimas “para que nunca se sintam responsáveis por isto”, se referindo à separação do casal. Durante todo o filme eles mantêm uma postura amistosa entre si diante dos filhos, vão vê-los juntos na colônia de férias, mas no instante seguinte discutem. Evidentemente os filhos sustentam a relação e talvez o casamento só não tenha acabado antes por conta deles. No entanto, atenta-se que este é um peso muito grande para os filhos, que mais cedo ou mais tarde sentirão as dificuldades pelas quais passam seus pais, inclusive com consequências negativas para a família. No caso do casal Jordan a função de sustentação do casamento, inicialmente visualizada, é também o ponto mais forte do casal, porque se dão conta de que têm filhos maravilhosos e que eles só são assim porque fizeram isto juntos.

Referência: MINUCHIN, S. A cura da família: histórias de esperança e renovação contadas pela terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1995.


Talita Baldin

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