Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

A metáfora paterna em A Morte Sem Nome

“Ele não tinha estrutura para isso. Para ser pai, é preciso de um pouco mais, aos vinte e quatro. Aos dezessete anos, ele me teve, nove meses em sua barriga. Ou assim pensava eu, sete anos depois, até minha mãe me puxar para dentro, me trancar no quarto e me privar da sobremesa".


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"A Morte Sem Nome" é um romance escrito por Santiago Nazarian (2004). Ele retrata a estória de Lorena, uma mulher que vive para se matar. Desta forma, promete um suicídio em cada capítulo. Conforme ele, “Lorena é uma suicida serial, uma mulher sem amor e se esperança, derramada por páginas e páginas de delírio e poesia” (NAZARIAN, 2004, capa). E é em meio a delírios e poesias que Lorena abre sua alma para o leitor, retratando uma vida marcada por perdas, abusos e negligências. Uma morte sem nome, essencialmente do plano do real. Esta foi a obra escolhida para a análise com os conceitos lacanianos porque traz com sensibilidade em suas entrelinhas a essência do que é humano de forma tocante: a vida – marcada por angústias, desejos, pulsões de vida e de morte e em relação ambígua.

Logo nas primeiras páginas da obra, Lorena adulta discursa sua incompreensão sob um ponto de vista que poderia ser o imaginário nomeando o real: “o que uma criança pode entender de amor? O que uma menina de sete anos pode entender?” (NAZARIAN, 2004, p. 13). Neste trecho, a Lorena adulta retoma algo que ela, quando criança, não era capaz de entender – o amor. Desta forma, transpassa pelo olhar do Outro que na alteridade construiu um símbolo singular para identificar o que para ela seria o construto amor e no presente é capaz de olhar para ele. Lacan retoma esta questão ao tratar do psiquismo semelhante a um nó borromeano, em que as três estruturas são ao mesmo tempo separadas e interligadas, uma não existindo sem a outra. Neste sentido, para efetuar a passagem do real (o sentimento trazido pelo amor sem mediação da linguagem) para o imaginário é preciso de um símbolo (amor enquanto palavra dita, Lei) centrado em uma unidade e cuja finalidade é concretizar o significante anterior (o imaginário, efetivamente).

A inserção da lei paterna é explicitada na fala da personagem do romance, embora seja a mãe quem desempenha a função paterna e o pai a função materna: “Ele não tinha estrutura para isso. Para ser pai, é preciso de um pouco mais, aos vinte e quatro. Aos dezessete anos, ele me teve, nove meses em sua barriga. Ou assim pensava eu, sete anos depois, até minha mãe me puxar para dentro, me trancar no quarto e me privar da sobremesa. Eu era doce até demais com o meu pai” (NAZARIAN, 2004, p. 13). Por meio do rompimento da fusão mãe-bebê, com a inserção da função paterna a criança adentra no mundo simbólico e constrói as relações necessárias para inserir-se no mundo imaginário. Neste sentido, Lacan (1998) apresenta que é essencial que a criança aprenda a se identificar e a identificar seu corpo no espelho, tornando o fantasma do corpo esfacelado em uma imagem enquanto unidade para ser capaz de se relacionar com o Outro.

A metáfora paterna pode ser analisada em outro fragmento do texto, no momento em que Lorena relata ter engolido uma moeda: “Ninguém se importou. O valor era baixo. Esperavam que eu não entupisse o vaso. Me arrependeria de ter quebrado o cofrinho. Minha mãe não me daria mais um tostão. (...) Como se fosse remédio, eu me sentava e fechava a boca, trancando a respiração. Até embaçar a vista levava alguns minutos, e minha mãe reclamaria do meu silêncio, como reclamaria do meu entusiasmo. (...) Absolutamente imóvel, até ser sacudida. Por minha mãe, eu seria internada. ‘Faça o favor de respirar, menina!’, até eu cair” (NAZARIAN, 2004, p. 14). E cair aos pés do pai: “Não precisava fazer mais nada a não ser derreter. Em lágrimas e soluços, eu era sua filha preferida. (...) Chorando eu o fazia mais pai. E ele contente por conseguir me fazer parar. Deitar. Dormir” (p. 14). Desta forma, a relação simbiótica que existia entre Lorena e o pai é interditada pela mãe, mas constantemente a personagem retorna para os braços paterno. Ainda, o ato de engolir a moeda e trancar a respiração pode ser visto como símbolo de engolir a mãe, rejeitando a Lei dela. Lorena não conseguia se submeter a ela, encontrava conforto no olhar do pai, que a mãe interdita ao mandar a filha morar com os tios no campo. Ela comenta: “num sítio, morava com meu tio, minha tia e três primos, meninos. Eu era apenas mais uma. (...) Representar toda a alegria, eu não conseguia. Embora meus primos comentassem que eu deveria. (...) Meus tios diziam que eu deveria me esforçar mais um pouco. Para me integrar àquela vida era um esforço terrível. Longe do meu pai” (NAZARIAN, 2004, p. 15). Em nenhum momento da obra Lorena deixa explícito ou implícito o desejo de voltar para a mãe, somente para o pai.

Mais uma vez Lorena traz a interdição da mãe, rompendo-lhe a satisfação imediata de seus desejos: “Como nunca deu importância para meus erros, que não eram seus. Não era da família. Como sempre encheu meu prato e calou a minha boca. Tapou os ouvidos. (...) Como nunca me condenou, nem aplaudiu” (NAZARIAN, 2004, p. 161), e na sequência lamenta que “devia ter me atirado de volta para meu pai. Devia ter me jogado para fora do carro. Devia ter me cuspido” (p. 162). A relação de Lorena com a mãe é conflituosa, talvez justamente porque esta lhe tira todos os prazeres que sente estando ao lado do pai, traz-lhe para a realidade, nomeando a interdição. Lorena parece desejar que a mãe se posicionasse de outra forma frente a ela, que olhasse para ela. “Como nunca me condenou, nem aplaudiu” (p. 161)? Conforme Lacan (1998, p. 100) “a função do estádio do espelho revela-se para nós, por conseguinte, como um caso particular da imago, que é estabelecer uma relação do organismo com sua realidade” e é esta realidade que Lorena conhece, mas não suporta. Por isso procuraria tanto a morte, experiência real que não pode ser simbolizada?

Do início ao fim do romance, Lorena busca a simbolização, trazendo elementos que a colocam em contato com a realidade em alguns momentos e de repleta fantasia em outros. “Eu tentava apenas não fazer diferença, não pensar, não falar, não olhar. Nem respirar eu podia. Ser louca em movimento ou louca contemplativa. Era uma questão de escolha” (NAZARIAN, 2004, p. 14). É neste entremeio de simbólico e realidade que Lorena concentra sua existência, não sendo capaz de realizar satisfatoriamente a passagem para o plano imaginário, em que seria possível viver sem sofrer tanto. Concentrando-se no simbólico, Lorena somatiza a vida caótica e deprimida com tentativas de suicídio, cortes na pele, transtornos alimentares, cigarros, bebida, todas ações concretas – uma vez que não foram simbolizadas. A personagem realiza “uma corrida para vencer a fome” (NAZARIAN, 2004, p. 87) – de simbolização da vida? – onde os cortes são a marca principal. Literalmente, como essencialmente Lorena se comporta, os cortes são cicatrizes que caracterizam sua existência: “minhas cicatrizes, na luz do sol, parecem um pedido de desculpa” (p. 87). Desculpas para ela mesma? Desculpas para a família, com a qual vive em constante amor e ódio? Parece desculpar-se por tentar, sem, no entanto, conseguir. “Derretia, mas não desistia, do sol e do cigarro. Não desistia do verão. Não desistia do esconderijo. E da escuridão, parecia ser apenas o final inevitável de mais um dia malsucedido. Nunca descoberta, nunca descoberta. Sempre enterrada por minha família. Sob o sol, na escuridão” (p. 89).

Por fim, em sua busca incansável pela simbolização, Lorena chega àquilo que permanece no elemento real por não poder ser simbolizado, sua própria morte, o que consegue, na última página do romance: “Me derrame no chão. Entre as frestas, entre os tacos, juntos com os insetos contamos uma história que é mais nossa. Neste apartamento. Derrame com o coração, entre as frestas, no chão. E este eu não vou esfregar, ah, não, este não” (NAZARIAN, 2004, p. 205), este chão que não poderá esfregar, por não estar mais presente na mesma dimensão que o chão do apartamento. Neste fragmento, a escrita em primeira pessoa do plural (nós) remete novamente ao pai, que a chama de Letícia ao invés de Lorena, e ao qual ela se dirige integralmente no último capítulo do romance. Mais uma vez reforça a hipótese de que a personagem viva na psicose, pois não conseguiu se descolar da figura materna (o pai), logo não se constituiu como sujeito estruturado.

REFERÊNCIAS:

LACAN, J. Nomes-do-Pai. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

NAZARIAN, S. A morte sem nome. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2004.


Talita Baldin

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