Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Da banalização da injustiça social

Sabe o que eu penso mesmo que tá errado nessa história toda? É que a gente só se comove porque é incapaz de tirar a casca e ver que a vida de NENHUM de nós vale qualquer coisa.


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Eu vi a notícia de terça. Tentaram evitar que eu visse, outros amigos ligaram e escrevendo, como quem não quer nada, perguntando como eu estava. Mas eu vi, era inevitável. Niterói se comove, mobiliza, mais uma vez, diante de algo tão difícil de entender e aceitar como foi: mais uma mulher, branca, classe média, na zona nobre de Niterói. Comove como se não acontecesse todos os dias nos morros, no subúrbio, na periferia. Inevitável também foi eu ver aquela notícia, da senhora que foi “assassinada com uma facada nas costas na zona nobre de Niterói” (conforme descreve notícias de jornais), e não me ver naquele lugar, porque no feriado de Carnaval eu fui essa mulher também. A diferença, e é a única coisa que me fez diferente dela, é que eu tive um pouco mais de sorte. Eu levei uma facada que provocou uma perfuração de 0,05cm no arco aórtico e por uma soma de fatores que ninguém explica, eu sobrevivi.

Antes mesmo de chegar no hospital, enquanto eu era levada de ambulância para lá, eu já tinha ouvido algumas pessoas, inconformadas e perturbadas pelo fato, dizerem coisas horríveis sobre aquela pessoa que ninguém sabia quem era, mas que tinha feito aquilo com uma moça jovem, bonita, branca, evidentemente de classe média.

Nos dias que se sucederam eu fiquei conhecida como “a menina do milagre”. As pessoas iam me ver, queriam me conhecer, ver a marca da faca, das cirurgias, os pontos, me ver. Queriam saber quem eu era e como eu tinha sobrevivido, quando ninguém acreditava nisso.

Sabem quem eu era?

Era uma jovem, sim, 25 anos, com mestrado pela UFF, militante dos Direitos Humanos e, por acaso, funcionária da Prefeitura de Niterói justamente na Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos. Esse fato, em especial, levantava questionamentos sobre o que eu sentia pelo meu agressor. Muita gente perguntou isso mesmo: o que você sente pelo seu agressor? Outros diziam “depois me vêm defendendo essa galera”, “eu tenho vontade de pegar esses caras e [complete com o que de pior passar pela sua cabeça]”. Foi assim. Eu ficava quieta. Não respondia. Deixava que respondessem por mim. Permaneci quieta por uns três meses. Até que consegui dizer que eu não sentia nada. Que eu era indiferente por aquele rapaz tão jovem quanto eu, que passou pelo meu caminho e só ele sabe porquê, achou que precisava enfiar uma faca no meu peito porque eu gritei. Porque ele queria, de algum jeito, ter uma coisa que talvez ele nunca tivesse tido acesso – e que eu arrisco dizer que não vai ter.

Óbvio que deixei a militância por um tempo. Deixei meu trabalho na SASDH. Precisei dar um tempo para o Rio, uma pausa no doutorado. Fiquei com um medo desproporcional de desconhecidos. De rua escura. De rua vazia. Fiquei com marcas que nunca vão sair do meu corpo e que eu lembro todo dia porque todo dia eu as vejo no espelho. Fiquei com uma família assustada e com medo da morte. De ser assaltada de novo. De ser ferida de novo. Fiquei com medo da banalização da vida. Sim, da minha, que eu vi que não valia mais que um celular usado. E da dele, que também não valia mais que um celular usado. Eu fui vítima naquela noite, fui sim. Tanto quanto ele. A diferença é que eu fui vítima naquela noite. Ele é vítima e agressor há uma vida inteira. Ele é vítima de outras vítimas e vai continuar sendo. Ele é “marginal” e permanece na marginal – das ruas, da cidade, da vida.

Eu fiquei 20 dias entre CTI e internação, tomei um monte de remédios, fiquei meses afastada de todas as minhas atividades. Seis meses depois e eu ainda preciso de fisioterapia. Aquele menino não faz ideia da vida que eu levei nesses últimos seis meses e da vida que eu to levando hoje. Mas eu também não faço ideia da vida que ele teve até aqui e do que ele ainda vai precisar fazer para viver e para sobreviver – para comer, para beber, para usar drogas, para circular pela cidade. E acho que é da minha conta sim. É da conta de todos nós, que vivemos em uma sociedade que rouba milhões da saúde e da educação de jovens que NUNCA vão ter qualquer oportunidade de ter o que eu tenho na vida. Da indústria que sustenta e mantêm em pé o narcotráfico. Essa mesma que nos exige escolher quem é que a gente vai obedecer a partir da próxima eleição.

Sabe o que eu penso mesmo que tá errado nessa história toda? É que a gente só se comove quando os casos são com pessoas como eu e como aquela mulher, minha “vizinha” em Icaraí. Que a gente só se comove porque é incapaz de tirar a casca e ver que a vida de NENHUM de nós vale qualquer coisa.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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