Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

O caminho para casa e nossos reencontros cotidianos

"O caminho de casa" se torna um reencontro com as pessoas que fomos em momentos da vida em que viver nos era mais leve ou mais fácil, intenso em suas emoções, mas repleto de sorrisos nos lábios; tempos anteriores às lágrimas que encobrem os dias cinzas e nebulosos. É um reencontro com um velho conhecido que se amou um dia. Perdoando-o pelas perdas.


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"O caminho para casa" me chegou como um presente em minha longa recuperação após uma fatalidade causada por um alguém sem rosto e sem nome que mudou em muito minha vida e quase pôs fim a ela. Ironicamente, como apenas os livros conseguem nos atingir, ele fala sobre luto, sobre recomeços e sobre o perdão.

De uma sensibilidade imensa, "O caminho para casa" tem o clichê norteamericano que aterroriza todos os pais de adolescentes da classe média: as festas do ensino médio. Jude e Milles não passaram inerentes a isso e pais de dois adolescentes gêmeos, Mia e Zach, viviam a difícil missão de serem pais de filhos bonitos, talentosos, enturmados e adorados pelos amigos. Populares, eram convidados para todas as festas. Porém, com o ensino médio as festas de turma passaram a ter bebidas e Kristin Hannah, autora da obra, explora essa “questão que se espalha como parasitas” entre os adolescentes: a perigosa combinação entre bebida e direção.

No ensino médio, porém, Mia e Zach apresentam aos pais a nova colega de turma, a recém chegada Lexi. Filha de uma mãe viciada em drogas, aos 16 anos Lexi conhece sua tia Eva, que a acolhe quando Lexi não era mais passível de ser adotada por ninguém. A menina que passou a vida em lares temporários e visitas em presídios finalmente tem um lar e aprende a ser amada pelos Farradays, pais de Mia e Zach, como se fosse parte da família. O que os Farradays não podia imaginar é que Lexi teria muito a lhes ensinar sobre a vida, a morte, o amor e o perdão.

No entanto, num certo dia, em uma festa que parecia ser comum, os três amigos inseparáveis beberam mais do que deviam e uma tragédia os envolveu. Foi o começo do fim e suas vidas nunca mais seriam as mesmas.

Para não dar spoilers não contarei mais sobre o livro, mas ressalto que todos temos uma lição a aprender com Jude Farraday: a de que uma pessoa é capaz de ficar cinza diante de uma perda que não é capaz de aceitar; e que a dor pode ser tão forte e machucar tanto que tempo nenhum é capaz de fazer esquecer. Mas quem sabe, um dia, será possível voltar a sorrir. “Talvez o tempo não curasse as feridas, exatamente, mas criasse uma espécie de armadura, ou uma nova perspectiva. Uma forma de lembrar com um sorriso, e não com um soluço” (p. 248).

Na sombra dessas novas perspectivas, poderia ser possível, enfim, olhar para um novo começo, um novo jardim que pudesse ser recriado, não mais parecido com o que fora outrora, mas com um novo brilho especial.

“Em um mar de lamentação, havia ilhas de bênçãos, instantes no tempo que nos lembravam do que anda tínhamos, em vez de tudo o que tínhamos perdido” (p. 351).

Por fim, encontrar "O caminho para casa" se torna um reencontro com as pessoas que fomos em momentos da vida em que viver nos era mais leve ou mais fácil, intenso em suas emoções, mas repleto de sorrisos nos lábios; tempos anteriores às lágrimas que encobrem os dias cinzas e nebulosos. É um reencontro com um velho conhecido que se amou um dia. E perdoando-o pelas perdas, fragilidades, tristezas e fraquezas.

- HANNAH, Kristin. O Caminho para Casa. São Paulo: Arqueiro, 2016.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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