Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Pulsão de vida e A montanha entre nós

Sobreviver a uma tragédia individual exige a busca e manutenção de uma energia psíquica imensa, estrutural da vida. A gente volta meio quebrado e é preciso calma para poder voltar, um dia, a ser inteiro.


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Assisti a "The Mountain Between Us" (Depois daquela montanha) essa semana. Minha expectativa sobre o filme era muito alta, a julgar pela dupla fantástica no protagonismo do longa, Kate Wislet e Idris Elba (estão entre meus atores favoritos de Hollywood) e pela sinopse que, em si, já me parecia muito bonita. Sem spoillers, porque realmente é um filme que vale a pena ser visto, me tocou a sutileza com que é retratada a busca pela manutenção da vida, no filme.

Alex e Ben estão perdidos no topo de uma montanha congelada, sem água e sem comida e com a companhia de Dog, o cachorro sem nome do piloto do jato que eles haviam alugado, e que morreu enquanto sobrevoavam algum lugar deserto dos EUA. Sob improváveis condições, eles sobreviveram mais de três semanas bebendo água derretida e gelo, o qual poderia muito bem se transformar em rosquinhas, desde que você soubesse aproveitar bem a imaginação; carne de um puma morto com um sinalizador, e algumas amêndoas e balas. Andando na neve, salvando suas vidas mutua e alternadamente, Alex e Ben têm uma valiosa lição a nos ensinar: não é possível sobreviver às nossas pequenas (ou grandes) batalhas pela sobrevivência e sair delas totalmente ilesos. Não é possível seguir a vida após as situações de quase morte, sejam elas simbólicas ou bem concretas e reais, quando a gente sente e pode ver a morte de perto, bem dentro dos olhos, como no caso dos protagonistas do filme e desta que vos escreve. Ao menos, não sem que a gente se sinta meio quebrado e pela metade. Aliás, o noivo de Alex sabia disso. A questão é que nem todos são capazes se compreender.

Sobreviver a uma tragédia individual exige a busca e manutenção de uma energia psíquica imensa, que Freud chamou de pulsão de vida. A pulsão de vida é estrutural da vida e fica mais claramente evidenciada quando nos negamos a desistir, quando mesmo podendo dizer que sabemos que não vamos sobreviver, sabemos também que ainda estamos vivos. A pulsão de vida é aquele fiapo de desejo que nos permite respirar quando os pulmões não respondem mais, que faz as veias e artérias continuarem bombeando o sangue quando o coração está enfraquecido, porque ele não “é apenas um músculo”. A pulsão de vida é a compensação que os braços fazem quando as pernas perdem a tonicidade e os dedos das mãos congelam. Pulsão de vida é uma energia psíquica imensa que não sabe o que é desistência, que não pode ser vencida desde que a alma saiba que ainda há coisas por se fazer lá fora, do outro lado da montanha, fora dos CTIs e das camas de hospitais.

A gente volta meio quebrado, é verdade. E mesmo depois da recuperação física faltam as palavras e sobram lágrimas demais, suspiros demais, pesadelos demais. E compreensões de menos.

Os outros não entendem os seus medos, não entendem as suas inseguranças, os seus mil e um rituais e manias para a preservação da vida. Mas é porque eles ainda não entenderam que muita pulsão de vida foi investida para manter a vida e que agora o psiquismo precisa de um tempo. Precisa de calma para poder voltar, um dia, a ser inteiro.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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