Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

A potência da palavra muda na dramaturgia contemporânea

A linguagem só se faz presente quando não se fala, caso contrário estaria morta, e as palavras estariam presas nos verbetes de um dicionário (Sartre).


mask-1636121_1920.jpg A noção de dramaturgia está vinculada ao processo criativo que envolve desenvolvimento e encenação de um texto. Logo, não diz respeito apenas ao teatro, mas também ao cinema (curtas e longametragens, videoclipes) e telenovelas, séries e minisséries em geral. Em suas versões mais clássicas, desde as tragédias gregas até o final do século XX aproximadamente, o texto teatral foi demarcado pela presença de um conflito bem delineado, do qual toda a cena é dependente, inclusive, os personagens circundam essa temática principal. A encenação seguiu a mesma linha de raciocínio, mantendo compromisso ativo com a representação naturalista da realidade.

Porém, a emergência do sujeito moderno traz à pauta das discussões, nas mais diversas áreas do conhecimento, a necessidade de se falar desse sujeito como um ser idiossincrático e de abordar com ele a noção de subjetividade, inclusive no campo artístico e teatral. Há diversos modos e correntes de pensamento que tratam do tema. Posicionamo-nos pela via da Psicanálise lacaniana, para a qual a emergência do sujeito moderno se concentra no conceito de angústia, ou seja, o sujeito é marcado e inscrito enquanto sujeito por vivenciar as incertezas do mundo, por experienciar situações que é incapaz de compreender, ou, de certa forma, se deparar com um certo desencanto pela vida.

A dramaturgia também sofre influências desse processo, sendo alvo de pesquisas sobre sujeito e subjetividade, bem como, ao considerar as particularidades e individualidades, se abre para a necessidade de repensar a atividade humana nos mais diversos contextos sociais, suas relações, modos de aprendizagem e formas de se expressar no mundo. Assim, falar em uma dramaturgia contemporânea significa reconhecer que os moldes do teatro moderno e tradicional deixam de fazer sentido. A ideia de texto e encenação realísticos, baseados na máxima aristotélica de que “a arte imita a vida”, são deixados de lado a partir do momento em que novos teóricos trazem experiências voltadas para a produção coletiva e mais complexa do papel da arte na existência humana.

Rancière considera três formas de pensar a arte, pela ética, pela poética e pela estética. De forma sintetizada, a ética faz referência à lógica aristotélica de que a arte seria uma imitação da realidade; a poética remete à arte erudita, a arte da representação; e a estética promove um rompimento com a lógica da representação e valoriza a abertura para um campo literário.

Haveria duas formas de se imitar a vida pela via da literatura, se forem considerados o pensamento ético e poético: pela tragédia e pela comédia. Ou seja, sob esses pontos de vista, se visa manter certa coerência interna por parte da escrita, no sentido de que o poema teria um gênero. Por outro lado, com a estética, Rancière propõe relevar a potência performática das palavras, sua capacidade de ser ato. Em suas palavras, “identifica a representação ficcional de ações com uma encenação do ato que fala”. Logo, a palavra muda é a palavra da poesia, esta que se faz por imagens. Na poética e na ética, em si, que visam a representação, a palavra não pode ser muda, portanto permanece limitada.

Para que possa tomar uma amplitude de palavra-performance é necessário que haja a emergência de uma nova poesia, a expressiva, que se faz por meio de palavras-imagens. Nesse sentido, há um rompimento com a coerência simétrica da obra literária, aceitando suas contradições poéticas.

Rancière cita Sarte para ressaltar que a linguagem só se faz presente quando não se fala, caso contrário estaria morta, e as palavras estariam presas nos verbetes de um dicionário. Com isso evidencia o papel do solilóquio de silêncio, da não-interpretação das palavras, pois há necessidade de ouvi-las por si só.

Assim, trazemos à tona a noção de um “não-pensamento”, que não é a negação do pensamento, mas uma outra forma de compô-lo. Pela via da palavra muda, palavra viva que se transforma em ato, conforme apontamos, há algo de potente na escrita a partir do momento em que ela consegue romper com a necessidade de ser interpretada, e que flui por meio da oralidade ao ouvinte e lhe indaga acerca de sua experiência com ela, uma experiência que se dá somente pelo contato, quando a singularidade da palavra colada com a imagem se choca com o corpo-ouvinte. Logo, conforme Rancière, o artista seria responsável por se apropriar dos vestígios das palavras e transcrever “os hieróglifos pintados na configuração mesma das coisas obscuras e triviais. Devolve aos detalhes insignificantes da prosa do mundo sua dupla potência poética e significante”. Tudo nesse contexto importa, logo não há conteúdos mais ou menos importantes, mas pequenos vestígios de linguagem a ser dita, de modo a respeitar o olhar do sujeito, protagonista ativo e subjetivo.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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