Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

As múltiplas faces da velhice no Brasil

Que cara tem o velho brasileiro?


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A população brasileira envelhece a ritmo acelerado. Basta um passeio rápido pelas cidades, em locais abertos ou fechados, luxuosos ou populares, para conseguirmos visualizar a grande quantidade de pessoas mais envelhecidas circulando, comprando, consumindo. Para trazer alguns dados estatísticos, o IBGE apontou no último Censo que os velhos já representam mais de 12% da população total. Obviamente essa situação traz consequências não apenas em termos populacionais, de um povo que envelhece mais e nasce menos, mas também no sentido econômico, social e cultural. Como dar conta dessa realidade?

O Governo brasileiro tem apostado no estímulo e desenvolvimento de programas e projetos em comunidade como grupos para idosos, também conhecidos por de convivência, as Universidades Abertas para a Terceira Idade (UATI/UNATI/UNITI) e as Instituições de Longa Permanência ILPs. Enquanto as duas primeiras atingem principalmente os idosos que vivem em comunidade, as últimas servem de moradia àqueles que não possuem condições de se manterem inseridos na comunidade e/ou com seus familiares.

Embora essas modalidades de atendimento se destinem à mesma faixa etária populacional, os grupos para Terceira Idade, tanto as Universidades Abertas quanto os grupos de convivência, se diferenciam da situação de idosos moradores de ILPIs pela maior autonomia na escolha de participar ou não de dada atividade ou de determinado grupo, uma vez que são constituídos por pessoas ativas e independentes. A contrário, os idosos que por algum motivo não conseguem se manter vivendo sozinhos ou com sua família, ou ainda que sofrem algum tipo de violência, geralmente são encaminhados a uma ILP (historicamente criadas no Brasil como modelo mais comum de atenção).

Em minha experiência profissional com idosos desde 2009 percebemos a diversidade de velhices que existem no Brasil. Mais claramente podemos indicar um certo “perfil” para o idoso da ILP e das outras instituições, muito diferente, pois enquanto esses são os idosos considerados ativos, que dançam, viajam, participam de atividades físicas e jogos; o velho da ILP está lá, em sua maioria, abandonado, dependente, fragilizado. Além disso, a própria estrutura institucionalizada é conhecida por favorecer o empobrecimento dos idosos, físico (claramente identificado pelos agravos de saúde comuns à entrada na ILP) e subjetivo (marcado pelo afastamento dos demais). Seus sintomas, em geral, são sentimentos relacionados a solidão, abandono e rejeição.

Uma pesquisa que desenvolvemos em 2012 sobre Representações Sociais (RS) de idosos que vivem em comunidade e participam de grupos, sendo que as RS são consideradas como um conjunto de conceitos, afirmações e explicações que se dão no cotidiano, conforme os indivíduos se inter-relacionam nos grupos de que participam. Com relação a isso, mesmo que de forma indireta, o universo que circunda uma ILP é acessível a toda a população, mesmo que seja apenas da ordem do imaginário. Ou seja, todas as pessoas pensam algo acerca da ILPI de acordo com uma experiência direta em visitas, por exemplo, ou indireta, quando ouviram falar, sabem de sua existência e/ou a visualizam no espaço em que vivem.

Estar presente, ouvir e dialogar com idosos em seus grupos de pertença permitiu compreender que a ideia central compartilhada por eles é a de que o asilo é um local em que vivem idosos abandonados por seus familiares, onde prolifera a tristeza, a solidão e o abandono em um espaço que é triste e abandonado, um idoso que espera o fim da vida de forma solitária. Por outro lado, acreditam que o idoso dos grupos de convivência são alegres, ativos, saudáveis. Embora essa crença compartilhada pelas RS apresentem dois polos completamente opostos de uma mesma etapa da vida, há outras tantas formas de se envelhecer diversas desses extremos. Nas palavras de Ana Amélia Camarano, epidemiologista, estudiosa do envelhecimento humano, “a velhice chega para todos, mas ela não é democrática”, e assim como há idosos muito ativos e saudáveis habitando muros institucionais, há idosos pobres de saúde, vivências e oportunidades vivendo em contextos sociais mais ricos. Não podemos comparar a velhice do morador da cobertura em Copacabana com o velho da Rocinha, embora possam ser vizinhos.

Tais disparidades acontecem porque viver dentro ou fora de uma instituição não é garantia de vida alguma, nem em sentido positivo, nem negativo. Mas é preciso levar em conta outros tantos contextos em que cada sujeito está inserido, como história de vida, situação socioeconômica, acesso à saúde, educação, saneamento básico; condições de trabalho ao longo da vida, estado de saúde geral, manutenção de vínculos afetivos, indicadores genéticos etc.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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