Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

O ato criador na dramaturgia contemporânea

O teatro se faz sempre para um público? E quando o público “não entende nada”?


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Em "O ato criador", escrito em 1957, Marcel Duchamp aborda o fazer artístico e a relação que se estabelece entre artista e público. Duchamp contava com a desaprovação de muitos artistas ao afirmar que não se faz arte sem o público, pois o ato criador seria fruto de “uma transferência do artista para o público”, na qual, portanto, o artista é o analisado e o público o analista. Sem, a princípio, entrar no mérito de afirmar ou tentar refutar essa ideia, pensemos a dramaturgia contemporânea.

Na dramaturgia contemporânea visamos trabalhar com uma escrita teatral fragmentada, que reconhece que os moldes do teatro moderno e tradicional não nos fazem mais sentido. Assim, arrebentamos com as fronteiras no conceito tradicional de dramaturgia, tal como define o teatrólogo Patrick Pavis em, "A encenação contemporânea", como um “conjunto de escolhas estéticas e ideológicas que a equipe de realização, desde o encenador até o ator, foi levada a fazer. [...] A dramaturgia, em seu sentido recente, tende, portanto, a ultrapassar o âmbito de um estudo do texto dramático para englobar texto e realização cênica”. Se pensarmos na dramaturgia pautado no ator (a dramaturgia do ator), este torna-se um ator-criador em um espetáculo que não se pode dizer outra coisa senão colaborativo.

Porém, nesse sentido, quem se torna elemento central para a criação do espetáculo é o ator enquanto se relaciona a sua escritura poética e os outros elementos teatrais (texto, adereços, referências, etc), e não o produto artístico, ou as possibilidades de intercâmbio deste produto com um público.

O teatro se faria sempre para um público? E quando, fala comum em espetáculos contemporâneos, o público “não entende nada”? Pois, na dramaturgia contemporânea, por exemplo, a ideia de texto e encenação realísticos, baseados na máxima de que “a arte imita a vida”, originalmente atribuída a Aristóteles, são deixados de lado a partir do momento em que novos teóricos trazem experiências voltadas para a produção coletiva e mais complexa do papel da arte na existência humana. O precursor deste estilo, mesmo que na época possa não ter tido essa pretensão, foi Sammuel Beckett. Referências mais atuais são a inglesa Sarah Kane, autora de 4.48 Psicose, e Roberto Alvim, da companhia paulista Club Noir.

Como se falar desse “não entendi nada” pelo viés da produção artística contemporânea reconhecendo-nos em uma cultura cuja população não é orientada a frequentar museus, teatros, exposições; cuja preocupação central da grande maioria do povo ainda é a fome e a pobreza, resquícios do tardio processo brasileiro de “desescravização”, que sequer podemos afirmar que acabou, pois o povo que mais morre ainda é o da tríade preto-pobre-favelado?

Assim, me pego questionando se e como será possível pensar em uma dramaturgia tendo como objeto do ato criador o espectador?! Da mesma forma, que dramaturgia seria permitida, caso assumíssemos que o centro de todo fazer artístico, no teatro, volta-se para o ator?! Afinal, diversos artistas, das mais diversas linguagens, como o próprio Duchamp faz referência, só tiveram reconhecimento artístico posterior ao seu falecimento. Van Gogh, Goethe, Melville (Mobi Dick), Oswald de Andrade, Antonin Artaud, para citar apenas alguns, viveram na pobreza, sem reconhecimento artístico e tantas vezes sequer pessoal, e ainda assim produziram obras belíssimas, valorizadas na posterioridade.

Questiono o papel da transferência do artista para o público nesses casos, se seriam exceções, ou se no lugar de “público” não haveria um outro objeto a que puderam direcionar seu investimento libidinal.


Talita Baldin

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