olhos no mundo

Olhares que se abrem em palavras.

Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo.

O Dialeto Poético

Poetas. Seres que só sonham. Seres que só sentem. Essa sede que têm de amar a tudo e a todos. Até à vida.
Poetas. Esses seres que vivem do avesso. Com o coração de fora.
(Que estranha forma de vida!)


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Os Poetas de nada sabem senão da vida. E tudo o que sabem já é demais. Os Poetas usam-te. Usam-te os olhos, o nariz, os lábios, cada fio de cabelo. Até a sola dos pés. Descrevem-te os contornos, e embelezam-te a alma. Mesmo quando negra. Já os vi usar paisagens, cidades, edifícios inteiros, recantos escondidos, a terra e o mar, o céu, a lua, o grito e o silêncio, o Mundo. A guerra e a paz, o rico e o pobre, o bonito e o feio, o amor e o ódio. Os Poetas são especialistas em sentir. Experimentam as suas mais diversas formas. São seres insaciados. Por isso tantas vezes morrem novos. Overdose de sentidos.

Poetas. Esses seres obcecados com a musicalidade daquilo que dizem. De tudo o que vêm. Até do que escrevem. A teimosia que encerram em querer pintar a vida. Acham-se donos das cores do arco-íris. (E conseguem).

Poetas. Esses seres capazes de transformar o que dói num sorriso. O que fere em amor. O que mata em vida. A escuridão em luz. Nunca vi ninguém venerar tanto um sentimento agreste como a saudade, quanto um poeta. Desconfio até, que estes seres, transformem qualquer presença em ausência, só para terem mais uns versos para escrever. A verdade é que eles vivem com as entranhas de fora, e mesmo assim passam despercebidos. Não se fazem notar, nem sabem, eles próprios, se são bonitos ou feios. Repugnam o supérfluo, admiram o detalhe. Parecem alienados do mundo. Transmitem serenidade, mas se lhes abrires a cabeça protege-te do furacão de ideias e conhecimentos. Da inteligência.

Os Poetas estão-se nas tintas para o paleio e conversa fiada. Só querem escrever. Só querem sentir. Alimentam-se sobretudo de amor, e quando este lhes falta, morrem devagarinho e gritam, gritam tanto que o silêncio ensurdece. E nascem poemas. Tristes. Mas que gostas de ler. (Exceto se deles fizeres parte. Aí repugnas a poesia).

Poetas. Poetas. Ninguém se torna poeta. Ninguém almeja ser poeta. Alguns nascem poetas. E só esses morrem poetas. Porque foram poetas na vida.


Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo. .
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