olhos no mundo

Olhares que se abrem em palavras.

Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo.

A guerra não cabe numa caixa de sapatos

Um regime, cujos passos eram incontestáveis, mas que não mostrava as solas. Um regime, cujos sapatos, à medida que pisavam terreno pantanoso, eram de imediato substituídos. Um regime que fechava em caixas as vidas que, pela pátria, eram dadas. Muitas delas detonadas, por minas, num passo em frente – alguns dirão em falso - por aqueles que em nome de Portugal combateram.


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A guerra nunca foi restrita a quem nela combateu. Não foi, nem será, uma realidade menor, dobrável e condenada ao esquecimento, se arrumada numa caixa de sapatos antiga. Há, nos pés dos homens, calçado cujo desgaste das solas é indissociável do desgaste da vida.

Diz-me meu neto, quantos sapatos tens e quantos trilhos traçaste? Não mo digas, acaso sejam mais os sapatos guardados do que os quilómetros de vida por ti percorridos. Nunca o conforto dos pés – em caminhos que não são os nossos - deverá suplantar o conforto da vida. É no desgaste das solas que o Homem se vê.

Desde o começo que a guerra afetou a sociedade – mesmo que o sistema o negasse. Primeiro, com o sofrimento da despedida daqueles que, como eu, partiam para África. Depois, com as notícias das primeiras mortes e feridos, que foram uma constante durante os anos que se seguiram. Na frente de combate não era frequente privarem-nos de ração – que combinava com a nossa nova face primária - armas, munições e fardamento. Contudo, na retaguarda, subia o número de feridos, que se amontoavam nos pequenos hospitais militares, inadaptados e incapazes de suprir as necessidades e os cuidados de que aqueles homens careciam. Nascia assim, aquilo a que no seio das Forças Armadas se chamou Exército de Deficientes, que eu suavizo e apelido de Cagulo Bolorento do Exército.

Na verdade, esta linha do exército não parou de aumentar, eram cada vez mais os jovens soldados que, na flor da idade, ficavam cegos, contraíam doenças graves – algumas incuráveis - viam os seus membros amputados, ou que desenvolviam distúrbios psicológicos. Jovens, cuja flor, nem tempo teve para murchar, tamanha foi a violência com que viram as suas pétalas arrancadas - Tu não sabes, não tens como saber o que é sofrer uma poda definitiva na vida, meu neto. Mas sabem-no eles, esses, aqueles para quem jamais a vida se renovou. Tão pouco com a chegada da primavera.

Durante a guerra, foi notório o crescedum do número de caixões transladados, privilégio daqueles cujas famílias podiam pagar, posto que os custos da morte não eram suportados pelo regime, nem pelas Forças Armadas Portuguesas. Os outros, aqueles cujas posses familiares não podiam fazer face às despezas de transladação, ou eram enterrados nas zonas de combate, (dada a falta de meios de transporte) ou, com maior sorte, viam a sua última morada gravada numa chapa, nos cemitérios erigidos pelas forças militares, junto às suas bases operacionais.

Sorte? - Questionarás tu - Sim, essa força sem propósito, imprevisível e incontornável que desencadeia acontecimentos mais ou menos favoráveis para o indivíduo. Entre morrer vivo e assim continuar - apenas existindo - até ao derradeiro fechar de olhos, e entre ser enterrado no mato, que se morra definitivamente - e de uma só vez - e se seja enterrado com dignidade.

Os deficientes da guerra, a face mais visível e transparente dos confrontos, aquela que, ainda hoje, a sociedade mais dificuldade tem em encarar, foram, na época, considerados “inválidos”. Homens que representavam um verdadeiro e pesado fardo para as famílias, que se viram - por parte do Estado - obrigadas a esconde-los, como se de impostores se tratasse, caso não lhes fosse atríbuida morada nos hospitais militares. Isto porque, oficialmente, Portugal não se encontrava em guerra e a aparição em praça pública de corpos amputados, homens em cadeiras de rodas, cegos ou transparecendo distúrbios vários, poderiam levantar interrogações incómodas para o regime, a respeito do que que era, afinal, a realidade vivida nas colónias de África.

Um regime, cujos passos eram incontestáveis, mas que não mostrava as solas. Um regime, cujos sapatos, à medida que pisavam terreno pantanoso, eram de imediato substituídos. Um regime que fechava em caixas as vidas que, pela pátria, eram dadas. Muitas delas detonadas, por minas, num passo em frente – alguns dirão em falso - por aqueles que em nome de Portugal combateram.

Pensa agora meu neto, quantos são os sapatos que tens e quantos trilhos, com História, tens vindo a percorrer.


Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo. .
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