olhos no mundo

Olhares que se abrem em palavras.

Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo.

Nas Valas da Guerra Colonial

Com a noite, descemos às valas, que era onde se dormia em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem e quatro vozes não responderam.


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Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da companhia que vinha ao nosso encontro solicitava ajuda à aviação. Haviam caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo IN. Foi o apelo mais dramático de que me recordo, durante toda uma Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação para que bombardeasse tudo. Incluindo toda a companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável, o IN avançava sobre eles em número bastante superior.

Quis deus, que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de outros tantos obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não deveria passar de uma miragem. Seguimos. Quem seguia nas viaturas saltou para o chão. A coluna avança a bom ritmo , queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.

Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos, mortos e menos trinta e uma vidas, das nossas.

À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos… gritos e mais gritos… mas estes de alegria. Disseram-me, porque eu já nem os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia. Ali, o sangue das nossas colónias cheirava a perecimento e as lágrimas, mais pesadas que todo o nosso armamento, sabiam a luto, ódio e potrefação.

Com a noite, descemos às valas, que era onde se dormia em Guidaje. E depois da morte, também. Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem e quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo. O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir. Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.

Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.

(Baseado em factos verídicos e em 3 testemunhos reais que me foram relatados na primeira pessoa.)


Rita Palma Nascimento

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