olhos no mundo

Olhares que se abrem em palavras.

Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo.

O livro do tempo

Estendeu lentamente o braço e concentrou-se na abertura dos dedos da mão. Agarrou no livro pousado na pequena mesa de apoio, à sua direita, e levou-o até si. Exatamente até si - escrito pelo filho Duarte, mal Domingos sabia que a história nele contada era também a sua.


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Do presente, não conhecia mais do que o momento exato. Nem uma hora para trás, nem cinco minutos adiante. Vivia entre o agarrar tremulamente o copo de água, o espaço que o separava dos lábios e entre a demora do vazio, desse mesmo copo, a ecoar novamente na bancada.

Persistia nos vinte passos arrastados que o separavam do sofá onde o seu corpo, vago, caía e se deixava ficar. Diante dele, ocupando todo e qualquer espaço vazio, o presente. A incapacidade de acompanhar o tempo, havia ao longo dos últimos anos, imposto uma longa distância entre Domingos e o filho, sentado um metro à sua esquerda.

«Ontem a tua mãe estava muito bonita. Mas hoje ainda não a vi. Que será dela?»

Madalena morrera durante o parto, quarenta anos antes; Duarte não chegara a conhecer a mãe.

«Ó pai, lá está você, a mãe já não se encontra entre nós.»

«Disparates. Só dizes disparates. Pensei eu que te fazias um homem, continuas igual. És tu e o Tó Zé do Edgar, ainda a semana passada lá estive na tasca, só disparates, um cachopo daqueles filho de boa gente. E tu vais pelo mesmo caminho.»

Tó Zé tinha agora 58 anos. E Domingos 83 a avaliar pelas muitas histórias contadas pelas rugas das suas mãos. Noutros tempos, era certo, quando a destreza era outra. Agora, já nem história tinha. Vivia a uma distância de 40 anos dos vinte passos arrastados que o separavam da realidade. Estendeu lentamente o braço e concentrou-se na abertura dos dedos da mão. Agarrou no livro pousado na pequena mesa de apoio, à sua direita, e levou-o até si. Exatamente até si - escrito pelo filho Duarte, mal Domingos sabia que a história nele contada era também a sua.

«Gosta do livro pai?»

«Tem bom ar. Eu é que não tenho aqui os meus óculos, para ler qualquer coisinha.»

Aos olhos de Domingos, com ou sem a precisão das lentes, as letras nada mais eram do que aglomerados de linhas em páginas, todas elas iguais, sem sentido algum - assim lhe pesavam os dias.

“E sem conhecer as histórias que o livro contava, voltou a esticar o braço, a concentrar-se na abertura dos dedos da mão e a pousá-lo na mesa de apoio, à sua direita. Também o presente havia por ele sido deixado num qualquer recanto da sala, que julgo não saber precisar e que tão pouco voltará a viver." - Findos, o livro e mais um serão de domingo.


Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo. .
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