olhos no mundo

Olhares que se abrem em palavras.

Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo.

A Fuga da Intimidade Lenta

. A vida já não surpreende... Queixamo-nos, mas somos nós quem não quer ser surpreendido. Queremos, apenas, em número e velocidade, as coisas a passar e a acontecer "ao longe".


Apressadamente, assim queremos que seja, assim vivemos, assim sentimentos, assim nos vamos sendo.

Já nada em nós se demora, tão pouco nós nos demoramos lá fora, nos outros, em conversas, em almoços, em trocas de ideias ou em lugares por onde passamos tão rapidamente que se esgota a paisagem em segundos. É nossa a fugacidade. É nossa a efemeridade. É nossa a pressa de não chegar a lugar algum onde possamos parar, estar, sentir, usufruir, partilhar, encontrar, conhecer, amar, dividir, somar, sonhar, viver... Tudo acontece demasiado rápido, sem tempo para ser ou cultivar recordações. Passa tudo por passar. Também nós assim passamos, sem que impere a necessidade de nos darmos a conhecer, de parar, de nos reconhermos a nós, de nos podermos encontrar sempre que, por um motivo ou por outro, nos distanciamos do caminho. Na ânsia pelo momento seguinte, quem somos agora?

Rapidamente: assim se definem as novas relações com os lugares e com os outros.

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Perdemos a intimidade da descoberta lenta, da simplicidade, do arrebatar dos sentidos, da surpresa seguinte, da nudez do momento que, imóvel, nos desnuda também. Os corpos já não se conhecem, porque é preciso partir amanhã. A alma já não amanhece, porque à luz do dia o encanto é maior. As mãos já não se entrelaçam, porque distância é segurança e o acordo não é ficar. A vida já não surpreende... Queixamo-nos, mas somos nós quem não quer ser surpreendido. Queremos, apenas, em número e velocidade, as coisas a passar e a acontecer "ao longe".

Não temos casa, nem somos casa para ninguém. Fizemo-nos apenas muros, portões fechados e fortalezas. Não somos felizes, nem aparentamos infelicidade. Na pressa do tempo que nos consome, não somos ninguém, nem para ninguém.

Sabemos que no fim, quando o tempo escassear, aquilo que nos resta será somente a capacidade de ter estado, estar e permanecer nu perante a vida, assim como o resultado da vida em nós. Porém, perdemos ou abdicamos do tal "qualquer coisa mais que nos acrescente", como seja a possibilidade da intimidade da descoberta, aquela que poderíamos ter desfrutado nela e com ela, calma e demoradamente...


Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo. .
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