olhos no mundo

Olhares que se abrem em palavras.

Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo.

Sobre o amor

Já quase ninguém quer amar. Quer-se apenas estar, conhecer melhor alguém ou conhecer alguém melhor; quer-se explorar algo que nos desperta interesse ou quer-se somente companhia...
Quer-se, mas não se quer... Porque amar se tornou um exercício demasiado complexo e rebuscado, exigente e sujeito a regras utópicas, regulamentado por um código de ética e etiqueta social que nem sempre se encontra ao nosso alcance.
Porque o amor não está no que se mostra ou possui, no estatuto social, num acto de conveniência ou na necessidade momentânea. O amor está no que se sente e se faz sentir.


... nos dias de hoje.

Já quase ninguém quer amar. Quer-se apenas estar, conhecer melhor alguém ou conhecer alguém melhor; quer-se explorar algo que nos desperta interesse ou quer-se somente companhia; quer-se a aparência de não se estar só, alguma partilha (mas não uma partilha por inteiro) ; querem-se sorrisos, mas sem despertar sentimentos; quer-se conforto e segurança, mas sem se estar realmente lá. Querem-se domingos aconchegados, ou fins de semana bem passados, mas sem exceder o convívio semanal (ou vice-versa) . Querem-se palavras de carinho por mensagem, mas nunca os telefonemas sem motivo a meio da noite, quando o pensamento desperta e não adormece sem matar a vontade de ouvir a voz do outro lado: - Estavas a dormir? - Estava... - Liguei apenas para te deixar um beijo. Dorme bem.

Quer-se, mas não se quer... Porque amar se tornou um exercício demasiado complexo e rebuscado, exigente e sujeito a regras utópicas, regulamentado por um código de ética e etiqueta social que nem sempre se encontra ao nosso alcance.

Lê-se aqui e ali que o amor é cor-de-rosa, mágico e perfeito. Que os casais deverão comportar-se como principes e princesas, roçando a perfeição enquanto individualidades e enquanto casal. Retratam-se as relações como tamanho brio, que qualquer discórdia de ideias deverá ser confitada para não azedar. O amor, nos dias que correm, transformou-se num prato gourmet (não sendo, por isso, servido em todas as mesas, tão pouco acessível a todos).

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Mas a magia não é nem está no amor. Está naquilo que se faz do amor, com o amor e pelo amor. Porque o amor não está no que se mostra ou possui, no estatuto social, num acto de conveniência ou na necessidade momentânea. O amor está no que se sente e se faz sentir. O amor está em se acordar despenteado e não existir preocupação em que nos vejam ao natural, está nas olheiras das noites mal dormidas, está nas preocupações diárias, ou no beijo de bom dia antes de se lavar os dentes. Está no abrigo do abraço roubado. Está em não se ter vergonha do outro, nem de parecer tolo aos seus olhos... Está na indiferença após um dia conturbado, na discórdia e na discussão, em chorar ou chamar a atenção, em enraivecer ou pedir mimo, em conversar sobre tudo e nada, ou no acto de ficar em silêncio. Está no endoidecer, no entristecer, no desencanto e desalento, na desilusão... Em todas as cedências e pedidos de desculpa (com ou sem motivo ou razão). O amor está no café e no filme de sexta-feira à noite, no presente sem motivo, numa festa ou nas loucuras conjuntas de uma noite de copos entre amigos.

O amor está no olhar disfarçado, no sorriso rasgado, no beijo roubado, na presença que nos fascina ou incomoda. Está na falta de coragem para arriscar ou seguir em frente. Está no cheiro da almofada, na camisola emprestada, na carta rasgada... Está nos segredos da madrugada... Está no negar que em nós ele existe... e no outro também. Está na simplicidade e é imperfeito, chegando, quantas vezes, disfarçado e sem aviso: - Quando chegares avisa-me. - Vai com cuidado. - Agasalha-te. - Estás bem? - Gosto de te ver sorrir. - Lembrei-me de ti. - Como correu o teu dia? (ou no simples acto de fazer o outro sorrir em dias difíceis).

Hoje em dia temos à disposição uma multiplicidade de opções e tentações que nos conferem vastas experiências relacionais no curriculum. Tudo se tornou demasiado fácil, fútil, efémero e igual e, por isso, pouco interessante. Mas, por maior e mais variada que seja a oferta que a vida nos apresenta, não sei se existirá algo melhor do que adormecer nos braços (figurados ou não) do amor. E com o amor a morar em nós...


Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo. .
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