olhos no mundo

Olhares que se abrem em palavras.

Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo.

Pequenos Grandes Luxos

Temos vindo, enquanto sociedade evoluída, a perseguir aquilo que brilha, o que, por vezes, ofusca, a desejar a beleza e o que, por beleza, nos parece belo. Preferimos trocar o que os nossos corações desejam, pelos deslumbres que nos encantam os olhos. Preferimos a aparência ao conteúdo.
Na verdade, creio eu, a única luxúria que nos realiza é os outros nos tenham, e nós os possamos ter também, sem posse, mas numa outra dimensão à qual chamamos alma e coração.


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Temos vindo, enquanto sociedade evoluída, a perseguir aquilo que brilha, o que, por vezes, ofusca, a desejar a beleza e o que, por beleza, nos parece belo. Focamo-nos mais em possuir, arrebatar, alcançar e devorar do que em parar, pensar e mergulhar em nós próprios e naquilo que realmente tem significado na vida e para a vida. Preferimos trocar o que os nossos corações desejam, pelos deslumbres que nos encantam os olhos. Preferimos a aparência ao conteúdo.

Sem julgar quem abraça a dança da luxúria e a ela se entrega, como se do poder utópico para uma mudança de vida instantânea se tratasse... E sem julgar porque, no decorrer da vida, a grande maioria daqueles com quem nos cruzamos, apenas anseia fugir de si e dos seus vazios, na procura por um abrigo ou distração compensatórios, sem que possuam a capacidade de perceber que essa é a sua maior falência.

Dessa necessidade, nasce uma outra, viciante e cíclica, a da procura constante da felicidade e plenitude no belo, na posse, no deslumbre, no valor da luxúria, no salto após salto e no devorar possessivamente tudo o quanto nunca lhes será suficiente, porque a desnutrição, essa, é profunda e prolifera do lado de dentro. Porém, existe alimento em quem estiver disposto a fazer esse caminho. A olhar para si e por si. Existe alimento na honestidade, na nostalgia e nos sonhos, no crer e no querer, nas coisas mais pequeninas do dia-a-dia, na música que emociona ou arrebata, na viagem que preenche, no coração dos amigos que, apesar do caminho nem sempre ser o correcto, estão lá para dar mão. Existe alimento na essência, no amor, na partilha, na lágrima e na luz do olhar quando sorri, na gentileza, no abraço, no respeito e na partilha do pouco que tanto representa.

Na verdade, creio eu, a beleza mais bonita e intensa que podemos esperar da vida é a capacidade de nos conectarmos verdadeiramente com os outros e com o ambiente em redor. De nos sentarmos lado a lado ou frente a frente e, através da nossa energia e sensibilidade, conseguimos que o outro nos fale sobre os piores momentos da sua vida e o que sentiu, dos seus erros e acertos que cumpriu, do melhor e do pior de si, dos seus sonhos e ambições, assim como dos seus medos e anseios, escutando (não só ouvindo) a sua voz ora trémula, ora empolgada... ora o silêncio.

Na verdade, creio eu, a única luxúria que nos realiza é a que nos concerne a capacidade de olhar para os outros nos olhos, de sorrir com o seu sorriso, de partilhar a euforia das suas paixões e a tristeza das lágrimas, quando caem... É tomar atenção aos detalhes, tirar dos erros as aprendizagens, é ser-se integro e enriquecer por dentro todos os dias. É permitir que os outros nos toquem, não fisicamente mas mentalmente. É deixar que os outros nos tenham, e nós os possamos ter também, sem posse, mas numa outra dimensão à qual chamamos alma e coração.

E isto sim, para mim e em mim, são os pequenos grandes luxos desta nossa estranha forma de vida.


Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo. .
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