olhos no mundo

Olhares que se abrem em palavras.

Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo.

Chegados a este ponto, extraditemo-nos

Chegados a este ponto, talvez importe questionar e/ou reflectir sobre que sociedade e cidadania queremos ter e sobre aquela que efectivamente se nos apresenta (e que integramos).
Ouso dizer que, quando só se vê bem ao perto, se perdem as perspectivas e a capacidade de ampliar o campo de visão. Não se sai da ilha para que a ilha se veja, como diria Saramago. Ao invés, segue-se a direito, contra tudo e todos, incluindo o próprio, sem que seja sua a verdadeira noção de assim o ser, de assim proceder.


A propósito de um tema inflamável, e em debate público nos últimos dias, dizia Luís Pedro Nunes, no programa "Eixo do Mal" na Sic Notícias, que vivemos tempos onde o "ódio de trincheiras" é alimento das redes sociais.

E se, por um lado, é verdade que confinados a quatro paredes, com demasiado tempo livre, nos é praticamente impossível ficar indiferente aos acontecimentos que marcam a agenda mediática nacional, também é verdade que nos remetemos, nós próprios, à condição limite de permanecermos "fechados em casa a olhar para o Facebook a destilar ódio de pouca razoabilidade". Chegados a este ponto, talvez importe questionar e/ou reflectir sobre que sociedade e cidadania queremos ter e sobre aquela que efectivamente se nos apresenta (e que integramos).

Um dos pontos críticos da democracia portuguesa, sabemos, é a falta de sociedade civil ou, mais recentemente, da sua aparição (ou deverei dizer destruição?) nos espaços "livres" de discussão, como o são as redes sociais, elevando-as a um falso estatuto de espaço de intervenção social e político.

Numa esfera impessoal, será, todavia, mais fácil dizer-se qualquer coisa, inclusivamente "coisas" que jamais se diriam noutras circunstâncias, ou no exercício de uma cidadania activa, em verdadeiro espaço público de discussão e de intervenção para o efeito. Isto acontece porque, o que realmente ali se passa, não é um diálogo presencial entre dois ou mais seres humanos, não são pessoas quem ali se apresenta, não verdadeiramente. Na realidade, há também lugar a falsas identidades.

Nesta perspectiva, engane-se quem, adoptando semelhantes posturas, considera ser um cidadão activo no exercício dos seus direitos. Nunca as redes trouxeram à tona o melhor das pessoas, mas sim o seu pior, sem que as próprias tenham a capacidade de o avaliar e perceber. Falta empatia, igualmente necessária à democracia.

151954121_10218092876690338_434938909052936465_n.jpg

Sob o olhar atento das "almas vigilantes", rara será a notícia ou a partilha noticiosa, onde não se encontre desde o mais estapafúrdio comentário, à ofença gratuita, à difusão do ódio, passando pela mais orgulhosa opinião descabida de razão ou conhecimento (não contendo, por isso, nada de construtivo, tão pouco uma aparente solução). O ataque a tudo e a todos ganhou terreno e claro, sabemos todos, onde isto irá parar. Certo é que quanto mais tensão ideológoca se propaga nas redes, mais pessoas nelas circulam. Assiste-se, portanto, a uma polarização da sociedade, à produção e imposição de visões vada vez mais extremistas e à difusão de fake news, bastante convenientes àqueles que têm neste campo de batalha o seu espaço e voz política.

Mas o que mais me intriga, porque me é impossível passar ao lado de um fenómeno que a todos nos arrasta para onde, na verdade, não queremos assim tanto ir, não é constatar que quem mais dispara são aqueles que mais se rebelam contra as políticas de cancelamento que lhes possam limitar a liberdade de expressão, o chamado políticamente correcto que, tantas vezes, impede que se diga tudo aquilo que se pensa (ou que nem se pensa), e ainda bem. O que mais me intriga é assistir à contradição de posturas, conforme o tema ou situação, mais ou menos favorável aos ideais com que os atacantes se apresentam em palco público. Se por um lado se defende de forma acérrima a liberdade de expressão, por outro (e não quero aqui entrar em debate sobre o tema) condena-se à extradição um cidadão português que ousa dizer aquilo que pensa, independentemente de qual seja a sua visão/posição/razão/opinião. Que coerência?

Ouso dizer que, quando só se vê bem ao perto, se perdem as perspectivas e a capacidade de ampliar o campo de visão. Não se sai da ilha para que a ilha se veja, como diria Saramago. Ao invés, segue-se a direito, contra tudo e todos, incluindo o próprio, sem que seja sua a verdadeira noção de assim o ser, de assim proceder.

Citando o jornalista Daniel Olivera numa frase que muito gostei, "Liberdade sem solidariedade é egoísmo".


Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Rita Palma Nascimento