olhos no mundo

Olhares que se abrem em palavras.

Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo.

Um alfaiate não cose vidas

Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.


Dormíamos, a maior parte das vezes, no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos o que de mais parecido havia com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de um animal, durante o destacamento.

Embarquei, em Portugal, em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete de trinta mil toneladas, capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.

O camuflado era, também, parte integrante do nosso equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número, o nome do soldado e o tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra, para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a outra, aquela a quem chamávamos a "Fiel Companheira de Mato", a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, arma de grande porte por quem os guerrilheiros ganharam grande respeito.

20326629_uPiSN.jpeg

Durante as patrulhas, as principais funções eram de reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio, transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou em linha reta. As missões duravam até ao render do pelotão, podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos, por escassos minutos, para comer qualquer coisa ou aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.

Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha, muitas vezes, a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?

(Voltemos ao cais...) Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era. Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.

Um alfaiate não cose vidas.


Rita Palma Nascimento

Olha para o Mundo com os teus olhos e não com os olhos do mundo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Rita Palma Nascimento