olhos tortos

"Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei." (Manoel de Barros)

Rafael Prudencio

A perda do olhar

Pesquisas não apontam, mas corrigir o olhar pode ser prejudicial à saúde. Há pessoas que sugerem outras formas de olhar o mundo, porém elas são classificadas como deficientes visuais e acabam ocupando um lugar de descrédito na sociedade.


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Em casa, uma família se reúne em frente à TV; na escola, uma turma de ensino médio presta atenção no professor explicando o conteúdo; no metrô, uma adolescente folheia uma revista de moda; na festa, duas pessoas inciam um diálogo. O que elas têm em comum? Todas estão usando a visão. Porém, nenhuma delas está usando seus próprios olhos.

Crescemos com a ideia de que somos superiores. Tudo começa pelos nossos olhos. Supostamente, há algo neles que contribui para que sejamos melhores. Olhamos para a natureza e a modificamos. Isso nos faz melhores? A verdade é que “melhor” é apenas um conceito que nos é imposto. Somos, ao nascer, submetidos a um treinamento para olharmos com os olhos dos outros. Quando crianças, ainda podemos usar nossos olhos, mas, aos poucos, vamos perdemos nossa liberdade visual. Dizem os médicos que, nessa época, nosso olhar é bobo, ingênuo, de quem nada sabe sobre o mundo. Conservá-lo seria um erro. O problema em não utilizarmos nossos olhos é que não somos o outro. Às vezes queremos ser. Às vezes aparentamos ser. Porém, nunca o somos por completo. Ser o outro implica não sermos nós. E se não somos nós, não existimos. O que existirá é apenas um corpo. Nas cidades, há muitos corpos tentando ser outros. Nos postos de saúde, nas clínicas particulares, nos hospitais, há filas de espera para uma consulta: - as crianças não enxergam bem! Os pais querem que elas vejam o mundo com a nitidez que eles o veem. De repente elas são atendidas. - Os olhos estão consertados, diz o doutor.

As crianças, antes de irem ao médico, enxergam o que não se pode enxergar. No entanto, esses olhos, após o reparo, são como janelas pequenas enquadradas por uma moldura de madeira muito grossa. Deste modo, fica quase impossível olhar para além da janela. Limitar o olhar acarreta reduzir as formas de perceber o mundo e as formas de pensar sobre ele. O conceito de belo, por exemplo, está relacionado ao que apreendemos ser o belo através do olhar do outro. Um prego enferrujado geralmente será considerado feio. Pouquíssimos verão beleza no prego enferrujado. Muitos não sabem, mas é no escuro que mais aproximamos nossa visão do real. O processo é o inverso: ao invés de olharmos para fora, olhamos para dentro. Para esse tipo de olhar, é simples: basta fecharmos os olhos. É num silêncio de luzes que os sonhos aparecem e o real se aproxima. O nosso próprio real, e não o compartilhado por todos. Muitas vezes demonstramos insatisfação com o que nossos olhos nos mostram. Então por que não os fechamos com mais frequência? Às vezes desconhecemos outras formas de olhar. Às vezes nos falta vontade.

Uma vez um homem de antigamente descobriu que preferia olhar para dentro. Com isso, descobriu uma aptidão para a poesia. Trancou-se no seu quarto e, quando as pálpebras cobriram seus olhos, ele passou a escrever. Certo dia fez um poema sobre um belo prego enferrujado. Seu poema agradou tanto que foi recitado inúmeras vezes pelos loucos das praças. Porém, pessoas como o homem dessa história geralmente são classificadas como deficientes visuais, tendo, inclusive, um lugar desprestigiado na sociedade. Há quem diga que elas tenham um daqueles problemas que a medicina ainda não encontrou a solução. Mas talvez elas tenham encontrado a cura que tanto necessitamos.


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