olhos tortos

"Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei." (Manoel de Barros)

Rafael Prudencio

Um desinventor na faculdade de educação

Finalmente decidimos que seremos professores. Entramos na universidade conscientes de que o caminho será difícil. Mesmo assim aceitamos vestir a capa de super-herói e sair pela cidade com o sonho de resolver todos os problemas relacionados à educação. Mas ninguém nos avisa que no meio do caminho tem uma faculdade de educação cheia de pedagogos e psicólogos que vendam nossos olhos para a realidade educacional. Diante desse grande problema, há somente uma saída: tornar-se um desinventor. Um bom professor é aquele desinventa o que não deu certo no ensino.


O jovem desinventor de nome José está a alguns passos de atravessar a rua para chegar ao seu novo emprego. Enquanto o semáforo não abre, observa atentamente a movimentação dos carros. Carros velozes. Carros grandes. Carros que conduzem homens. Retira os óculos do bolso da camisa e os coloca rapidamente sob o rosto. Embora deteste ter a visão enquadrada por aquela armação, entende que as vezes é necessário ter uma visão normal. Em breve terá que lidar com uma série de burocracias do trabalho e, nesses casos, é preciso estar de óculos. Para desinventar, no entanto, ele pode (é até mais recomendado) estar sem óculos, pois um bom desinvento exige uma maior liberdade da visão. Olha novamente para os carros. Tem uma ideia para uma nova desinvenção. Retira um caderninho do bolso e anota *desinventar carros. Logo descarta a ideia e risca o que escreveu. Sabe que certas desinvenções não são possíveis, mesmo quando necessárias. Já está em frente ao prédio. O primeiro pensamento que lhe vem a cabeça é que ele não é azul como haviam lhe dito. Talvez já fora algum dia e agora esteja desbotado demais. Após receber a notícia de que havia passado no concurso para ser professor da universidade federal, ele deveria comparecer ali para assinar alguns papéis, conhecer a estrutura do local e dar sua primeira aula, por enquanto como substituto. O prédio não é azul, isso continua na sua cabeça. Chega até uma sala no primeiro andar e uma moça, como se soubesse quem ele era e estivesse o esperando, lhe entrega um papel com informações sobre seu novo local de trabalho - a faculdade de educação. Ele não dá bola e coloca no bolso. Repara bem na beleza do contraste entre o azul dos olhos da moça com os cabelos castanhos e acompanha o movimento da sua mão com a caneta para os lugares onde ele deve assinar . Assina ali no canto, por favor. Assina ali embaixo, por favor. Aqui. Ali. Lá. Aqui. Lá. Aqui. Ali. Desnecessária burocracia para ser professor universitário. Então José retira do bolso seu caderno e anota *desinventar burocracias. A moça o lembra que ele tem uma hora até a sua primeira aula. Antes que pudesse elogiar os olhos dela, ele percebe que ela já não está mais ali.

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Estava ansioso para ir até a biblioteca. Queria folhear livros, cheirar livros, levá-los para a casa, lê-los de uma assentada, lê-los de duas assentadas, lê-los de três assentadas. Não importa. Só quer ler. Surpreende-se com a ausência de luz e com o vazio do local, tanto de pessoas quanto de livros. Por um instante sente medo, pois o escuro invoca medos. Então ele eleva sua voz e pergunta se tem alguém ali - pelo amor de deus. Não há. Tenta ligar as luzes: algumas lâmpadas se acendem, outras piscam e outras estão queimadas. Não se surpreenderia se encontrasse alguns esqueletos ali e eles começassem a se mexer. Percorre as estantes e vê os livros em desordem alfabética, pega um livro qualquer e tenta fazer o que antes queria fazer. Um forte cheiro de mofo vem do livro escolhido. Na capa não há um título, mas uma tarja vermelha que diz “prêmio de melhor livro sobre educação”. Curioso, passa a folhear aquelas páginas. Que estranho: o livro está em branco. Não há palavras, não, não pode ser, não há palavras, como pode? não há palavras!!! Isso é demais pra ele. Um livro sem palavras, não!

Esse é o retrato da faculdade de educação.

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Ele sai da biblioteca com a certeza de que está em lugar muito estranho. Rapidamente saca seu caderninho e anota *desinventar livros sem palavras. Os corredores são estreitíssimos e a luz é fraca A cada passo que ele dá a impressão que se tem é que as paredes vão se fechar e comprimir seu corpo até seus ossos rasgarem o tecido epitelial. Estranha o fato de ainda não ter visto ninguém além da moça que o atendeu e pediu todas aquelas assinaturas. Olha para o relógio: faltam cinco minutos para começar a aula. Senta em uma cadeira e aguarda. Olha mais uma vez para o corredor. Como é escuro! Os cinco minutos demoram muito a passar. Algum tempo mais tarde ele saberá que o tempo, na faculdade de educação, não passa!

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A porta da sala em que dará sua primeira aula se abre e ele tenta mas sem sucesso ver o rosto do professor que sai cabisbaixo e com pressa onde será que ele vai assim e José entra na sala coloca seu nome no quadro e tenta falar com seus alunos se apresentem por favor alguns estão quietos parecem até zumbis sou um desinventor e o novo professor da faculdade de educação outros estão no celular talvez jogando um daqueles joguinhos toscos em que são fazendeiros é preciso não se irritar mas o garoto jogou um aviãozinho de papel para o outro talvez não estejam gostando da aula o ronco daquele gordinho é tão forte parem de rir por favor decide chegar mais perto para mostrar que é um professor disposto a ser amigo dos alunos o gordinho continua rocando é preciso não se irritar mais uma aviãozinho voa fala mas ninguém escuta ah ainda bem que sempre tem os mais nerds cheios de livros não acredita conhece aqueles livros são iguais ao que viu na biblioteca não é possível é preciso ter pulso firme mais um aviazinho e a luz não funciona alguém pode ligar a luz sim são livros sem palavras arranca do rosto os óculos e joga eles no chão o vidro se quebra José grita alunos acordam aviãozinhos caem no chão menina se assusta gordinho não ronca mais.

Agora todos prestam atenção nele. Seus óculos continuam no chão e continuarão até a faxineira, após a aula, recolher os cacos de vidro e a haste quebrada e colocar no lixo. Nunca mais usará óculos. Naquele instante desinventa oficialmente sua visão normal para o mundo. Abre todas as janelas da sala e o sol desescurece o lugar. Retira de uma pasta um pequeno livro de poesia. Abre, levanta o livro e mostra para todos verem. Então José passa a ler em voz alta um dos poemas e até o gordinho, que antes roncava, está de olhos bem abertos e atento a aquelas palavras. Palavras não pertencem somente aos livros, mas também ao mundo. A partir daí José começa a ler poema por poema. Poemas que trazem imagens e ritmo à sala. Poesias que abrem os olhos daqueles que estavam dormindo. De repente as palavras saem dos livros e desrespeitando qualquer norma de métrica passam a caminhar pela sala. Os alunos se levantam com os rostos incrédulos. Em um ato deliberado uma das palavras quebra uma das janelas. Esse ato é repetido pelas outras. O professor olha para o relógio: está na hora de encerrar a aula. Hesita um pouco esperando que alguém fale algo. Ninguém fala. Não com palavras, mas com olhares.É um começo, pensa. Mesmo assim pega seu caderninho e anota *desinventar silêncios para a próxima aula.

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José está indo para casa satisfeito com o seu primeiro dia de trabalho. Faz o mesmo caminho que fizera para chegar à universidade. Antes de atravessar a rua olha para trás e vê o prédio sem cor que acabara de sair. Talvez algum dia ele tenha cor novamente. Talvez os corredores voltem a ter luz, as salas de aula vozes, os livros palavras e a universidade mais desinventores. Dessa vez não presta atenção na movimentação dos carros, pois está ausente do mundo real. De repente sente uma mão cutucar seu ombro: é a moça das assinaturas. Ambos caminham juntos até a parada do ônibus conversando sobre o primeiro dia de José como professor. Ele sente uma súbita vontade de elogiar os olhos dela, mas tem vergonha. Anota mentalmente *desinventar timidez. Sobe no ônibus. Vai tirar o dinheiro da passagem do bolso e agarra aquele papel que recebeu assim que chegou na universidade. É uma espécie de panfleto que tem no título “A invenção da faculdade de educação”. Lê a pequena história: é uma escrita bobinha em tom de fábula, mas reconhece um caráter histórico importante, pois mostra por que a faculdade de educação é da maneira que ele conheceu hoje: sem cor,sem vozes, sem luz, sem palavras.Pega sua caneta e insere o prefixo -des antes da palavra invenção. --> “A desinvenção da faced”. Agora é preciso que alguém reescreva essa história.

Um faxineiro

Um faxineiro faz o que de mais nobre alguém pode fazer pelo mundo: limpa a sujeira dele. Gruda a mão nos papeis de bala, ai, se corta com o anel da latinha de refrigerante. Não é nada! Continua esvaziando as lixeiras de todos os ônibus daquela frota de forma atenta. Um dia até encontrou uma nota de cinco reais. Dia de sorte. De longe vê um papel amassado e, na esperança que aquilo seja dinheiro, coloca a mão e o agarra. Lê: “A desinvenção da faculdade de educação”. Não é dinheiro. É lixo. Deve ser coisa de igreja. Amassa novamente e coloca com os outros lixos.

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A DESinvenção da faculdade de educação

"Era uma vez uma menina que gostava de ver o mundo com os olhos fechados. fazia isso por que achava o mundo feio demais para ser visto. também lia sem abrir os olhos, por que detestava as palavras escritas, preferia as palavras imaginadas. de um excesso de imaginação ela esqueceu-se da realidade. ela poderia dedicar-se à literatura, mas resolveu que seria professora. e fez uma especialização em “didática de fechamento de olhos”.também escreveu um livro sem palavras muito despremiado sobre métodos práticos para fechar os olhos para a realidade educacional. o governo investiu muito dinheiro em seu projeto que se chamava “mais olhos fechados”. no campo da educação, pedagogos discorriam sobre o benefício de fechar os olhos para o aprendizado da criança. no campo da psicologia, estudos mostravam que fechar os olhos ajudava a reconhecer seu eu interior. visando cada vez mais contagiar as pessoas com suas ideias, a professora criou uma escola em que, ao invés de ensinar conteúdos,ensinava a fechar os olhos para eles. a escola recebeu o nome de faculdade de educação e até hoje os professores e alunos estão lá estudando. num completo escuro." Reescrever a história aqui_________


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