olhos tortos

"Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei." (Manoel de Barros)

Rafael Prudencio

A estante que guardava histórias

As leituras que realizei em casa foram decisivas para minha formação como leitor.


Uma criança muita pequena está sobre a cama. Ao lado dela, a mãe segura um livro que não se pode saber qual é. Pelo formato e pelas cores, deduz-se que é infantil. Desloca-se o olhar para o canto da imagem, muitas vezes despercebido por um observador menos atento. Há uma pequena estante vazia. Pelo brilho do móvel e ausência de marcas do tempo, percebe-se que é nova. Ela se encontra em diagonal à cama. Anos mais tarde, quando a criança não precisar da ajuda de seus pais para caminhar, ela fará o caminho cama/estante e estante/cama muitas e muitas vezes. Várias pessoas definiriam esse móvel como uma simples estante, construída como tantas ao longo do tempo para guardar objetos. Mas para criança da imagem, que anos mais tarde estará na posição de observador e conhece como ninguém aquele quarto, aquela estante é especial, afinal, ela guarda histórias.

Foi meu pai que construiu a minha primeira estante para guardar histórias. Foi daquele móvel que saíram as histórias que me formaram com leitor e como pessoa. Quando eu era muito pequeno e ainda não conseguia ler, meus pais liam em voz alta pra mim. E é daquelas vozes que me lembro quando estou sozinho com um livro aberto. Escutar as palavras fez com que eu apreciasse tanto os sons delas a ponto de aplicar até os dias de hoje o método de me escutar em minhas próprias leituras. Em casa, eu lia histórias em quadrinhos, livros de ficção científica; na escola, somente livros que eu não entendia e que não me interessavam. Em casa, após terminar uma história, eu deitava na cama pensando no que leria após. Na escola, não queria ler aqueles livros com personagens que falavam um português tão diferente do meu.

De repente lá estou eu: sentado em minha cadeira, olhando para uma folha. É uma ficha de leitura. Nela, algumas perguntas que, embora tratem do mesmo livro, não trazem nada do que li. Aos poucos percebo que estudar literatura na escola é responder o que os professores querem que respondêssemos.

Aquela ficha de leitura algemou minha imaginação.

Quando saia da escola e chegava em casa encontrava em meus livros a chave para me soltar daquelas algemas.

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Lembro das tarde que matava aula para percorrer as Terras-Médias de Tolkien. Era necessário tempo para ir num lugar tão longe, conhecer tantos personagens, desfrutar daquela exuberante paisagem. O Tolkien foi o primeiro pintor de palavras que conheci.

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Lembro que um dia meu pai me presenteou com o livro "Vinte Mil Léguas Submarinas", do Júlio Verne. Esse autor francês me ensinou que era possível inventar o que ainda não havia sido inventado.

Pouco a pouco percebia que não lia somente pelo prazer. Lia para fugir viver outras histórias. Lia para aproveitar o som das palavras. Li para ser menos solitário.

Uma vez vivi uma paixão que não deu certo. Encontrei em um livro a proteção necessária.

Meu grande problema, no entanto, era com as leituras feitas na escola. Os professores de português e literatura que tive durante esse período foram desformadores de leitores. Não fosse a minha estante para guardar histórias, eu teria essa desformação em minha vida. Tive amigos que não tiveram uma estante para guardar histórias. Esses nunca gostaram de ler.

Anos mais tarde, deitado sob uma cama, que não é a mesma da foto, eu vejo de olhos fechados aquela estante tão importante para minha formação como leitor. Assim, de olhos fechados eu pegos os livros e revisito aquelas histórias. Sem a nitidez que eu teria se realmente estivesse lendo, aqueles livros se tornam mágicos.

Essa magia me impediu que, anos mais tarde, eu os relesse.

Agora estou de olhos abertos. No canto da cena onde estou, vejo uma nova estante.Não construída pelo meu pai, mas por mim. Não com a organização impecável de minha mãe, mas com a minha bagunça.

Vejo Saramago ao lado de Kafka tendo ideias fantásticas para novos romances.Enquanto isso Cecília Meirelles e Virginia Woolf caminham no parque e discutem sobre pintura. Roland Barthes elogia a poesia de Manoel de barros. Clarice Lispector e James Joyce conversam como se não fosse preciso respirar....

Subitamente estou em uma sala de aula. Sou o professor. Olho para os alunos. Eles também me olham. Eu ainda não os conheço, eles tampouco.É uma relação nova. Será difícil no começo, como todas as relações. Olho a disposição dos móveis daquela sala e vejo o trivial: mesa, cadeiras, ventilador, quadro negro, janelas. Mas não há uma estante para guardar histórias. Após a aula, vou conversar com o diretor e digo que gostaria de uma para as minhas aulas. Ele diz que é um gasto desnecessário, principalmente em tempos de cortes de verbas. Caminho pela rua e entro em um marcenaria para comprar as ferramentas necessárias para a construção de uma estante. Mais difícil que construir sua própria estante, é construir uma estante para outras pessoas.

Lembro de meu pai. Ele conseguiu. Talvez eu consiga.


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