Marina Ferreira

Sonhadora por natureza, circense por amor e escritora por atrevimento

Primo Levi em É isto um homem? - uma sensível leitura sobre humanidade

Em "É isto um homem?", considerado um dos mais belos livros publicado sobre o Holocausto, Primo Levi, relata de forma sensível a sua triste, dolorosa e aterradora experiência em Auschwitz, campo de concentração nazista. Não é, no entanto, um testemunho carregado de ódio e vingança, mas sim, uma profunda reflexão acerca do comportamento humano nesse contexto de caos, violência e desumanização. Trata-se de um livro que impressiona nos detalhes e na poeticidade, mostrando que a morte é, por vezes, o menor dos males.


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No clássico da literatura contemporânea, É isto um homem?, publicado em 1947, o escritor italiano Primo Levi narra sua experiência no campo de concentração nazista, como um prisioneiro judeu. A violência, um dos grandes temas do livro, manifesta-se em cada momento da narrativa, em cada descrição assustadora e revoltante, como algo constante e, muitas vezes, banalizado. O testemunho de Primo Levi, além de evidenciar as atrocidades presente na Segunda Guerra Mundial, também propõe uma discussão antropológica acerca do homem e seu caráter de humanidade. O próprio título do livro, É isto um homem?, demonstra a constante indagação do autor em relação ao que é considerado humano. Levi analisa se os prisioneiros do campo de concentração e se os carrascos, chamados de "kapos", podem ser de fato considerados homens, haja em vista o alto grau de deterioração da humanidade presente em cada um deles. Os "kapos", segundo Levi, já haviam sido destituídos de toda sua humanidade e respeito para com o próximo à medida que assimilaram as ideias nazistas. Já os prisioneiros, devido à rotina no campo de concentração, às humilhações de toda ordem, à fome, aos maus tratos, ao contínuo sofrimento, ao medo e à incerteza quanto à própria sobrevivência, foram perdendo a sua identidade, a sua dignidade e, consequentemente, a sua humanidade.

"Pois imaginem agora um homem a quem, além de suas pessoas amadas, roubem-lhe também a casa, os costumes, as roupas, tudo, literalmente tudo o que possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à necessidade, vazio de dignidade e de juízo, porque àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos [...]" (LEVI, 1988, p. 25)

O relato explicita a diferença entre a destruição física e a destruição daquilo que é intrínseco ao homem, daquilo que se parece com sonhos, com lembranças e com desejos. A pior morte durante o holocausto não era aquela que sufocava os prisioneiros dentro das câmaras de gás, mas sim, aquela que ia tirando aos poucos cada boa lembrança, cada pedaço da alma, cada ponta de esperança; a morte que ia apagando o brilho de cada sorriso, a luz de cada olhar e deixando apenas o escuro e o vazio. A obra é entremeada por ações que envolvem o leitor e, ao mesmo tempo o perturba. A força da narrativa de Levi faz do livro uma grande obra literária, que apesar de não utilizar o recurso da ficção, por se tratar de um relato histórico, parte de uma realidade tão absurda que até parece ficção. Além disso, há na obra trechos carregados de poeticidade. Esse é o caso do capítulo denominado "O canto de Ulisses", nele Primo Levi relata o episódio em que tenta ensinar italiano a um amigo, valendo-se da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Levi e seu amigo, Jean, vão buscar a sopa daquele dia. Eles teriam cerca de uma hora de caminhada e nesse curto espaço de tempo, Levi tenta transmitir a Jean um pouco de sua língua. Durante todo o capítulo fica clara a urgência daquele momento e a dificuldade de traduzir para o francês certas palavras sem perder a expressividade do italiano. Fora isso, existe ainda a inevitável dificuldade enfrentada por Levi para recordar o canto na forma integral. Desse modo, o canto de Ulisses chega a Jean de maneira apressada, entrecortada e com falhas. Insiste-se, ainda assim, na urgência da poesia, pois "amanhã, ou ele ou eu poderemos estar mortos ou não nos rever nunca mais" (LEVI, 1988, p.117). Dessarte, fica claro que o livro não é apenas um documento histórico e antropológico, é mais do que isso, é uma obra literária de fato, que tem como objetivo principal contar uma história real revestida pelos véus da literatura, seja no que diz respeito à linguagem utilizada, seja no que concerne à própria narrativa. É isto um homem? reflete, acima de tudo, sobre o próprio homem, sobre sua incoerente e frágil existência, sobre seu egoísmo e sua soberba, sobre sua humilhação e miséria. É uma reflexão, talvez até pessimista, do quanto o homem pode se degenerar, restando somente loucura e dor.

"Então pela primeira vez nos demos conta de que nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a destruição de um homem. Em um instante, com intuição quase profética, a realidade nos é revelada: chegamos ao fundo. Mais fundo que isso não se pode chegar: uma condição humana mais miserável não existe tampouco se pode imaginar." (LEVI, 1988, p. 24-25).


Marina Ferreira

Sonhadora por natureza, circense por amor e escritora por atrevimento.
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