Marina Ferreira

Sonhadora por natureza, circense por amor e escritora por atrevimento

Sonhos clandestinos

A capacidade de sonhar sempre foi o grande segredo da humanidade. Uma crônica sobre a beleza e a magia de, nas palavras de Mário Quintana, "acordar-se para dentro".


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Estou a caminho de casa, sentada dentro de um ônibus em uma tarde comum de verão. Na realidade, estou buscando algo sobre o que escrever. A falta de inspiração me assusta, mas não sou escritora e estou sem assunto.

Lanço então um olhar para fora de mim. Passo a observar as pessoas que entram apressadas para conseguirem um assento no ônibus. Gente de todos os tipos, com todas as suas histórias e peculiaridades. Nesse momento, um homem de aparência cansada pede licença para ocupar o lugar ao meu lado. Sorrio como consentimento, ainda espantada com sua atitude - não é comum nos dias de hoje alguém pedir permissão para se sentar, ainda mais dentro de um ônibus.

Observo-o mais atentamente. É um homem de cabelos grisalhos, pele clara e olhos cansados. Sua postura refinada deixa-se acentuar pelo terno escuro que veste e pela pasta em sua mão. Ele corre os olhos ao redor e mexe a perna de forma inquieta. Vejo, porém, que se contém rapidamente, deixando apenas uma ruga se formar entre seus olhos.

Pergunto-me o que o preocupa. Talvez, algum problema com a esposa. Olho em sua mão, mas não há aliança. Ao levantar meus olhos percebo, constrangida, que ele também está olhando para mim. Sua testa relaxa e com uma voz calma e rouca o homem me diz as seguintes palavras: “O sonho é uma coisa clandestina”. Continuo imóvel, sem saber o que responder. Ele se refere ao sonho inconsciente que nos invade quando dormimos ou aos sonhos que temos ao longo das nossas vidas? Percebo que nos dois casos ele não deixa de ter razão.

Os sonhos são involuntários, eles não seguem regras, não se preocupam com a moral ou com a sua capacidade de realização. A sua beleza e magia consiste em tirar o prefixo negativo do impossível . Sonhar é não ter limites, é sair pela janela da liberdade e percorrer caminhos que nunca foram percorridos, sem se preocupar com o que os outros vão pensar. Afinal, a melhor parte dos sonhos é que eles são concebidos na clandestinidade das nossas mentes.

O ônibus para. O homem ao meu lado se levanta e com um aceno de cabeça abre um sorriso. Parte, levando consigo os seus sonhos.


Marina Ferreira

Sonhadora por natureza, circense por amor e escritora por atrevimento.
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