ornamento das massas

Cultura, espetáculo, ideologia e modernidade.

Francisco Malê

Marxista descarado, procurando respostas concretas para problemas concretos

Em Defesa do Belo (Um outro)

A estética do Belo sempre se colocou como um elogio ao presente objetivo, a aquilo que já é. Contestar o presente objetivo deveria estar na ordem do dia para o pensamento progressista, mas a crítica pela crítica nem sempre é a melhor alternativa. Quais são, portanto, as outras alternativas de contestação que o pensamento progressista em a seu favor?


Creación_de_Adán_(Miguel_Ángel).jpg

Historicamente, a esquerda sempre esteve em pé de guerra com a estética do belo e o conceito clássico de beleza, o que é de acordo com o papel contestador e crítico que a esquerda deve exercer em todos os âmbitos. Entretanto, uma breve reflexão nos permite apontar algumas falhas estratégicas e problemas teóricos na luta da esquerda contra o Belo e a Beleza e ponderar uma mudança nessa estratégia: Uma defesa do belo, mas um outro.

Para que se articule tal defesa é necessário traçar uma pequena (bem pequena mesmo) genealogia do Belo. Podemos situar o inicio da conceituação e pensamento do Belo na Grécia antiga, onde Platão e Aristóteles discordavam e debatiam de onde vinha e o que era o Belo. Platão afirmava que o Belo reside no plano das idéias, da metafísica, à parte do mundo sensível. Já Aristóteles acreditava que o Belo era inerente ao homem e sua sensibilidade, às artes, criadas pelo homem e etc. Já na idade média o Belo era identificado com Deus e a moral cristã - a representação de tudo que é bom e correto. Posteriormente, o antropocentrismo filosófico e os filósofos burgueses (Kant, Hume, Hegel) voltam a atribuir o Belo ao homem e sua subjetividade. O mais importante, entretanto, é sublinhar o conceito do Belo sempre como uma reiteração do que já é, da realidade objetiva e do presente contínuo, o Belo nunca é o que está por vir (mas pode ser o que já foi). Não é nem necessário reiterar (mas faço mesmo assim) que o Belo hoje é o que é ditado pela sociedade de consumo e pela industria cultural e espetáculo, é o que vende ou é rentável, é o que reitera os melhores valores da sociedade burguesa, é o que é elogiado pela “crítica especializada”, é a usurpação da representação, é o que é aceito, por fim, é o que já é.

É com a esquerda que se propõe uma crítica ao Belo, uma crítica ao presente e ao que já é. Traçar as genealogias da crítica do Belo é uma tarefa mais espinhosa. Marx e Engels já semeavam os germes da crítica do Belo em seus escritos sobre literatura e arte, colhidos e maturados pelos pensadores marxistas posteriores (como a escola de Frankfurt ou a escola da Materialismo Histórico, etc). Com do marxismo e da crítica a partir da perspectiva da totalidade, surge (ou ressurge) a crítica ao Belo e a crítica ao Belo é, por si só (ou deveria ser), revolucionária. Muitas estratégias de crítica ao Belo foram aplicadas ao longo do tempo, falaremos (muito pouco) de algumas delas mais adiante, porém, interessa agora apontar as estratégias contemporâneas de crítica ao Belo (ou pelo menos a mais difundida no presente). Tal estratégia se condensa em uma oposição radical ao Belo, uma contra-estética, uma exaltação do Feio e do Grotesco, do socialmente inaceitável, do Ridículo e de tudo aquilo que é rejeitado pela cultura do Belo.

school-of-athens-detail-from-right-hand-side-showing-diogenes-on-the-steps-and-euclid-1511.jpg

Essa estratégia, apesar de ter seu valor, é, entretanto, essencialmente falha. Ora, como já nos foi apontado por Adorno e Horkheimer n’A Dialética do Esclarecimento (muito pessimistas) e Herbert Marcuse n’A Arte na Sociedade Unidimensional (menos pessimista), o capital e a industria cultural (a Kulturindustrie de Adorno) já reservam um espaço para tais para-artes e para-culturas, um espaço de coexistência e de domesticação da crítica ao establishment. Peguemos por exemplo categorias reservadas a esse tipo de contestação pela exaltação do que não é Belo, as artes underground: O gênero do cinema Trash ou para-cinema, as artes Grotescas, Noise music, a poesia de escárnio, o romance Erótico e etc. Por terem seu espaço reservado e garantido pela industria cultural, ao assumirem o seu papel periférico dentro do que é socialmente e culturalmente aceito como Belo, tais expressões críticas se tornam, por conseguinte, elogiosos àquilo que é socialmente aceito, ao que já é. Não obstante, aquilo que é Feio ou Grotesco é definido a partir de valores e morais burguesas. O Feio só existe em oposição ao Belo e quando reservado e garantido seu espaço de coexistência o Feio reitera a beleza do Belo. Outra solução encontrada pela sociedade burguesa de anular a crítica e a contestação é a domesticação das mesmas, tal domesticação se dá por uma apropriação de seus valores: ao serem elevados das periferias do Belo para o nível do consumo elitizado, elevados à alta cultura, como aconteceu com os dadaístas e os surrealistas (que não foram domesticados pela coexistência, pois sua própria conceituação negava tanto Feio quanto Belo, era a falta de sentido ou categorização sua crítica), que tiveram suas críticas diluídas e tornaram-se artigos de luxo intelectual, apenas reconhecidos puramente por suas qualidades formais.

É, portanto, necessário que a esquerda não se oponha tão ferreamente ao conceito do Belo, mas tente, por sua vez, construir o seu próprio conceito de Belo, que se diferencie do que já é, mas que não o elogia através da oposição e comparação (O filme-favela e a fetichização da pobreza, por exemplo). O elogio ao periférico e àquilo que não é socialmente aceito ainda é importante, claro, mas é também importante o nascimento de um novo conceito de Belo. Ora, nenhum marxista ou esquerdista (odeio esse termo) vai negar que a Utopia, a superação do presente opressor, é talvez o que há de mais Belo. A Utopia deve ser bela e a revolução deve ser sublime. Deve-se porém tomar cuidado ao se “pintar" um mundo Belo e progressista mas que muito se assemelhe ao que já é, pois isso, novamente, se tornaria, por apropriação, um elogio à realidade objetiva. Não à toa Fredric Jameson apontou a ficção científica como o mais revolucionário dos gêneros literários, por sua capacidade de mostrar uma realidade diferente do presente, por elogiar a beleza da Utopia.

Se a industria cultural burguesa se apropria da nossa revolta e da nossa crítica para maquiar a realidade sem alterar suas estruturas essenciais, se o capital se apropria das nossas pautas progressistas para transformá-las em mercadoria e valorizar o valor, que a esquerda se aproprie do Belo e o transforme naquilo que acreditamos: Utopia, Revolução, justiça social. Lutemos, portanto, por uma ideia de Beleza que seja incompatível com as limitações e contradições do capitalismo.


Francisco Malê

Marxista descarado, procurando respostas concretas para problemas concretos.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes e ideias// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Francisco Malê