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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

CIBERCONDRIA

Alergia, dor muscular, dor de cabeça, resfriado. Quem aí já recorreu ao Dr. Google? Como foi a consulta? E se além destes sinais e sintomas lhe disserem que você pode sofrer de Cibercondria?


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Tempo, um dos maiores entraves da vida contemporânea. Ou melhor, a falta de tempo. O dia passa e os ponteiros do relógio parecem travar um embate com as nossas atividades. Assim, independentemente da rotina ou dos imprevistos em nosso cotidiano, cada conquista que nos poupe algum tempo, torna-se preciosa.

Não é a toa que, no século da informação, alguns cenários têm se alterado. Há alguns anos, quem imaginaria poder trabalhar de casa? E fazer as compras de supermercado pela internet? Sim, a tecnologia têm contribuído muito neste sentido, a despeito de alguns efeitos e, de algumas precauções. O meu tempo é diferente do seu, que é diferente do outro. Porém, há situações que a impessoalidade não dá conta da nossa pressa. Destacamos o cuidado à saúde.

Evidentemente, nada impede que dicas e orientações informais auxiliem neste cuidado, embora alguns limites pareçam tênues entre os terrenos do cuidado e do prejuízo à nossa tão preciosa saúde.

Entre os que acessam a internet, reflitam: quem aí, diante de algum problema de saúde já consultou o Dr. Google?

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E como foi a consulta? Sanou o seu problema?

Se pudesse avaliar o serviço de satisfação do cliente, qual seria a sua nota para o Dr. Google?

Após sua avaliação, talvez seja interessante conhecer alguns dados.

Digitemos a palavra “dor de cabeça” no Dr. Google. Inicialmente, aparecem em nossas telas 776.000 resultados; “dor de garganta” 480.000; “dor muscular” 2.740.000. Quanta informação não? Mas qual seria a “qualidade” destas informações?

E, quais informações seriam adequadas para você, paciente virtual?

Consideremos que, algumas das fontes confiáveis sobre determinados acometimentos à saúde ou patologias, encontram-se em artigos científicos, destinados a especialistas. Isso mesmo, destinados a especialistas. Se, a mídia é deficitária na “tradução” das informações entre especialistas e leigos, principalmente, pela falta de contextualização das matérias, o que esperar das informações sem esta intermediação? Ademais, reiteramos: por mais concisa que possa ser a informação, não equivale dizer que ela é adequada para você, paciente.

Espantosamente, estudos indicam que, muitas das pessoas que buscam informações de saúde relacionadas, por exemplo, a possíveis dores de cabeça, conduzem suas buscas a prognósticos de doenças graves. Tumores cerebrais: este é um provável destino da sua busca inicial. Uma simples dor de cabeça, aliada à nossa avidez pela informação pode ter este desfecho, segundo o Dr. Google. Parece um exagero, mas infelizmente, muitos usuários alimentam estas informações com a fertilidade de suas imaginações. A pessoa com tendências hipocondríacas alimentará a sua busca até encontrar o pior dos prognósticos. Resultado: preocupações desnecessárias, ansiedade, medo, depressão, somatizações. Muitos usuários buscam estas informações com o intuito de se tranquilizarem e, o efeito, pode ser o mais antagônico. Um baita efeito colateral.

O termo designado para este tipo de comportamento é a Cibercondria. Deriva de Hipocondria que, segundo o nosso amigo Aurélio, representa o caráter triste e inquieto causado pela ideia de doenças imaginárias ou por preocupar-se com o próprio estado de saúde. Ainda, tristeza profunda. Este comportamento, quando “transita” do consultório para a “consulta virtual”, tem sido cunhado “Cibercondria”. Mas esta consulta, afinal, faz bem ou mal à sua saúde? Seria o Google um médico ou curandeiro?

Segundo uma das maiores referências no assunto - a Dra. Christiane Eishenberg da Universidade Humboldt de Berlim - na Alemanha, 2/3 dos usuários de internet utilizam este mecanismo para finalidades de saúde. Nos Estados Unidos, 86% dos usuários utilizam a web com o objetivo de sanarem suas dúvidas em saúde. Tal comportamento têm substituído as consultas médicas. Outro desdobramento da cibercondria assemelha-se àquela famosa troca de receitas entre as nossas avós, quem não se recorda? “Tome este chá que foi ótimo para a minha cólica; aquele xarope foi o único que curou a minha tosse”. Pois é, a automedicação em uma nova roupagem. Contamos ainda com a venda on-line de medicamentos, um prato cheio para os amantes de fármacos. Ademais, após consultar o Dr. Google, talvez a palavra do seu médico não lhe passe mais a credibilidade necessária, já que o “tempo” da consulta é você quem define, e não outrem. Tempo, cá estamos novamente diante do nosso melhor amigo e pior inimigo.

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Se, por ventura, você se identificar com as informações deste texto, não se aflija. Segundo Eishengerg, a principal recomendação a pacientes diagnosticados clinicamente como hipocondríacos é o tratamento psicoterapêutico. Ou seja, você tem salvação. Todos nós temos. Salvação não no sentido religioso – “a salvação eterna”, mas a “salvação psíquica”. E, por falar em “salvação eterna”, lembre-se: “Todo texto sem contexto, é pretexto para a heresia”. Assim, reflitamos sobre as nossas próximas consultas ao Dr. Google. Não sejamos temerários ao tornar uma alergia ou resfriado em uma doença terminal. A rede está aí para nos oferecer o que há de melhor e também o que há de pior. Portanto, não façamos dela, uma verdadeira panaceia.

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