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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

Dia dos namorados: Em um relacionamento sério com o meu aplicativo

Quem se importa com a maneira como nos relacionamos. Talvez nós mesmos.


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O dia dos namorados se aproxima, fato que para alguns causa muita felicidade. Já, para alguns outros, esta data pode despertar outros sentimentos ou mesmo aquela “bad”. Agonia, carência, tristeza, gratidão, segurança, insegurança, liberdade, enfim, sentimentos mil. Para os que estão solteiros ou vivem alguma forma de poliamor, opções no mundo virtual não faltam: Facebook, Instagram, Badoo, DateMe, eHarmony, Tinder e inúmeros outros. São muitos os canais de interação social no mundo virtual. Difícil resistir em dar aquela sapeada pelas redes sociais nos momentos em que temos um tempinho livre. Ver o check-in da amiga naquela festa badalada, a viagem do colega de infância para o exterior, o começo de relacionamento da sua ex-namorada, a agitada vida social do seu vizinho, o novo emprego da sua colega de faculdade. Inúmeras situações podem emergir das telas dos smartphones, laptops, tablets, cada vez mais paramentados de recursos tecnológicos que agitam e causam aquele “frenesi” nas redes sociais.

Porém, destacamos aqui um recurso, de certo modo recente, que viralizou no mundo virtual: os apps de encontro.

Se desejarmos “conhecer alguém”, bastam alguns cliques e alguns segundos. Baixamos um aplicativo e sejamos bem-vindos à “vitrine de relacionamentos”. Muitos rostos, muitos corpos, muitas descrições, muitas informações. Tudo diante de nossa tela. Privada ou publicamente, aqui temos o arbítrio de interagir com quem estiver “disponível”. Aqueles que são de gerações anteriores à imersão deste mundo high tech, certamente sentiram algum estranhamento. Alguns mais reticentes, não se envolveram tanto. Outros abraçaram a causa e vivem e convivem diariamente com os posts, reposts, likes e porque não, nudes e matches. Os introvertidos, certamente ganharam um senhor aliado. Porém, torna-se necessário observar os efeitos deste novo modo de se relacionar. A propósito, não há discriminação neste mundo. Existem apps para todas as tribos: heteros, gays, lésbicas, casados, sexo pago, toda uma gama de opções, a espera de novos e ávidos usuários.

O “avanço” destas ferramentas parece não ter limites. Relacionamentos se constroem ao mesmo tempo em que se destroem, já que o acesso ao outro, fica muito mais fácil quando se necessita apenas estar diante de uma tela. Uma questão intrigante está na influência que esta vida virtual representa para a vida pessoal dos sujeitos. Comportamentos são alterados. A relação com a alteridade parece de certa forma, ampliada e, paradoxalmente, banalizada. Urge uma necessidade de acompanhar o tempo todo o que acontece com a vida do outro, seja por curiosidade, seja por interesse, seja por controle, seja por desejo, seja por carência, ou pelo o que quer que seja. Nesta trama, não podemos omitir ou negligenciar o risco de preencher a vida do outro e esvaziar a nossa.

Evidentemente, a tecnologia contribuiu e contribui para avanços importantes da sociedade. Entretanto, será que haveria limites para o seu uso? Haveria algum limiar de bom senso na sua utilização? As relações pessoais estariam se tornando superficiais em face da intensidade deste avanço tecnológico? Parece que aspectos inerentes ao humano, como os diferentes sentimentos, se imiscuam ao pragmatismo que a tecnologia deixa à nossa mercê. Naturalmente, isso pode nos deixar confusos. O interesse pela temática das relações virtuais e como estas podem moldar comportamentos atinge também as universidades em seus variados campos de pesquisa, o que justifica a complexidade da mesma.

Reflitamos sobre uma questão peculiar – aplicativos que procuram parceiros e por meio do sistema de GPS, apontam a distância entre as pessoas que o utilizam. Esta questão não deixa de ser, no mínimo curiosa. Imaginemos uma situação de várias pessoas “logadas” neste mesmo aplicativo num condomínio de uma grande cidade, interagindo entre si e conscientes de que estão a pouquíssimos metros de distância entre si, um andar apenas, ou uma parede talvez. Pessoas que pessoalmente, sequer se cumprimentariam ou se reconheceriam no elevador. E, que podem vir a se conhecer pessoalmente. Seria similar a um encontro despretensioso? E o flerte? E a sedução? E a conquista? Teriam o mesmo sabor? Ou marcar um “date” seria tão trivial quanto escovar os dentes, tomar um banho, levar o cachorro para passear? Ah, na praia tomando um sol e marquei um “date”. No trânsito, voltando do trabalho marquei outro “date”. E assim por diante. Até que, como em um indicador do Google maps, ao invés de pontos que percorremos, fossem indicados os pontos onde marcamos um “date”. A materialização do mapa das relações, sejam estas amorosas ou casuais. Esta porém, não é a chave da questão.

Enfim, não há respostas prontas para estas questões. O que não nos impede de refletir a respeito. Pessoas se conhecerem ou se relacionarem por meio de uma ferramenta pode ser muito bom. Mas também pode ser muito ruim. Assim como pode não ser bom e nem ruim. Cabe a nós, enquanto pessoas, “baixarmos o nosso aplicativo da consciência” e atentarmos para o fato de que nós controlamos a ferramenta (aplicativo) e não o inverso. Portanto, atentemos para as fragilidades que este nicho do “mercado de encontros” pode apresentar e, diante disso, utilizá-las com prudência, a nosso favor. Em tempos de “solidão na multidão” estamos todos susceptíveis. Os valores parecem estar mudando, se não, tornando-se efêmeros. Cabe a nós preservá-los ou transcendê-los e, a partir disso, lidar com seus possíveis desdobramentos.

Retomando o início do texto, o dia dos namorados se aproxima e, neste contexto, seja com o seu parceiro(a), seja com amigos, seja com a família, ou seja com o seu aplicativo e os possíveis “dates” que ele possa proporcionar, que mal há nisso? Se quisermos publicar em nosso status de relacionamento do Facebook: “em um relacionamento sério com meu aplicativo”, quem se importa?

O que importa é estar feliz e assim, peço licença para citar um emblemático trecho do Mestre Jobim: “[...] é impossível ser feliz sozinho”.

Em suma, seja real ou virtualmente, sejamos felizes. Conscientemente felizes!


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