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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

JULIETA

Angústias, traumas, culpa, silêncio, desprezo, luto. Sentimentos que envolvem uma complexa relação entre uma mãe e sua filha única sob a genialidade e maestria de Almodóvar.


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Nesta obra, Almodóvar nos provoca indagações e inquietações, ao explorar sentimentos como a angústia, a culpa, a impotência, o desprezo e o clamor face às circunstâncias que a vida coloca entre os personagens do enredo, com destaque para a relação entre Julieta e sua filha única, Antia.

O fio condutor da trama apresenta-se no flashback de Julieta em sua fase madura que, em sua aparente serenidade, reaviva seus fantasmas ao reencontrar Beatriz – a melhor “amiga” de Antia (Priscila Delgrado) durante a adolescência, passadas quase três décadas. A obra propõe um cenário analítico ao abordar as fragilidades mais íntimas de uma mulher que convive desde a sua juventude, com a incompreensão e, doravante, culpabilização, fermentadas por vivências traumáticas.

Depois deste reencontro, Julieta se vê perturbada, o que a mobiliza na busca de caminhos para acertar as suas contas com o passado e suas mazelas. Assim, por meio de uma carta, tenta resgatar o contato com a filha. Enquanto redige a carta, a vida de Julieta (amorfa nesta fase madura – interpretada por Emma Suárez) ganha forma para o telespectador na pele de Juliana Ugarte – a jovem Julieta. Uma professora de literatura cujos poros exalam libido, mesclada a uma delicadeza ímpar, própria das personagens sui generis do diretor.

julieta jovem.jpg A narrativa inicia-se numa viagem noturna de trem, onde a jovem Julieta é abordada por um senhor desconhecido. Discretamente, ao suspeitar da conduta do senhor, Julieta deixa aquele assento, quando então conhece Xoan (Daniel Grao), o seu parceiro amoroso e futuro pai de Antia. Nesta misteriosa viagem, porém, ocorre uma tragédia: o suicídio do senhor que tentara iniciar um diálogo com Julieta. Neste ponto, o primeiro ensejo de culpa sobre a personagem vem à tona, embora não a impeça de concretizar seus mais aguçados (e recíprocos) ímpetos de desejo por Xoan. Em uma mesma noite, diferentes sentimentos se imiscuam e a viagem segue pautada por esta sedutora e dicotomica combinação entre vida e morte. A morte de alguém que, no imaginário de Julieta, poderia ter sido evitada e incita a sua ainda larval (embora proeminente) vivencia de culpa. E vida, vida de um sentimento amoroso e carnal que se materializa na vinda de Antia – sua única e preciosa filha e, na pele de seu amado, Xoan.

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Ainda na trama, são apresentados elementos no entorno de Julieta como a distância dos pais, a doença da mãe, o testemunho da traição do pai com a cuidadora da mãe, assim como a negação e/ou aceitação deste comportamento, a bonita amizade com Ava (Inma Cuesta) e a conflituosa convivência com a amarga Marian (Rossy de Palma) entre outros que parecem querer vociferar nossas almas diante da tela.

O clímax da obra se dá com a morte de Xoan, que conduz Julieta ao luto e a consequente mudança de vida e de cidade, ao agrado de sua filha Antia, muito apegada a Beatriz. Abalada pela situação e pela nova (e recorrente) sensação de culpa, tendo o sofrimento como catalisador, a maturidade vêm a fórceps para Julieta, em uma cena emblemática.

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Além de lidar com o luto da morte, a passagem dos anos e a chegada de Antia à maioridade (Blanca Parés) levam Julieta a lidar com o luto em vida. O luto em perder sua filha para a vida, sem quaisquer explicações ou elucidações. Somente o tempo pode agir sobre esta escara que parece não convalescer. O ardor das agudizações, parece cronificar-se lentamente com o decorrer dos dias... dos anos. Mas o tempo, este mesmo tempo, parece também, ser apenas um paliativo. Isto se prova quando Julieta reencontra Beatriz. Toda aquela dor que parecia estar sob analgesia eclode. Além da dor, o rubor. Rubor de um coração que sangra. Sangria que está no corpo. Está na mente. Está na alma. O mesmo rubor que a maestria de Almodóvar permite situá-lo como pano de fundo da obra, em vários contextos.

Ao retornar do flashback, pudemos vivenciar com Julieta cada angústia deste luto (forçadamente) silenciado e, ao nos conduzir para o desfecho, a obra nos guia também a um caminho de esperança. Esperança em finalmente poder suturar feridas que este cordão umbilical deixou entreabertas.

Ressalta-se ainda a elegância e a sinergia de cores, movimentos e efeitos sonoplastas que fogem ao óbvio e incrementam a cereja do bolo de Almodóvar.


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