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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

MERLÍ

O que esperar de um professor que rompe com o status quo e por meio de métodos pouco ortodoxos acende a chama do conhecimento em seus alunos? Este é Merlí.


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“Rebeldia, hormônios à flor da pele e questões familiares. Este professor tem mais em comum com os alunos do que imagina”: Este é o enunciado da série fornecido pela Netflix.

Aos meus olhos, vejo a série como algo muito maior. A série catalã criada e escrita por Héctor Lozano e dirigida por Eduard Cortés explora questões contemporâneas, cujo enredo abarca uma turma de um colégio em Barcelona. São abordadas vivências individuais, relações interpessoais entre os jovens e alguns de seus núcleos familiares, além do contexto escolar.

Francesc Orella encarna Merlí Bergeron – o professor de filosofia que utiliza métodos peculiares e pouco ortodoxos na condução desta especial turma, carinhosamente apelidada de “Peripatéticos” (os itinerantes; aqueles que caminham ou passeiam enquanto estudam e refletem) – tema da primeira aula do professor, que intitula também o primeiro episódio da série.

Um ponto que chama muito a atenção na série trata da realidade do protagonista. Merlí revela-se como um ser humano comum, com suas qualidades e defeitos. Em seu primeiro dia no Instituto Àngel Guimerà, Merlí conta a seus alunos que acabara de ser despejado de seu apartamento e que está vivendo com a sua mãe – a divertidíssima Carmina (interpretada por Anna M. Barbany) – uma talentosa atriz que embora seja lembrada e reconhecida por uma atuação em um irrelevante comercial de patês (fato que a irrita profundamente), já atuou em peças de autores consagrados, como Shakeaspeare.

Na mesma época do despejo de Merlí, a sua ex-mulher muda-se para Roma. Assim, Bruno (David Solans), seu filho único que vivera até os dezesseis anos com a mãe passa também a viver no apartamento da avó Carmina. A relação de Bruno e Merlí passa por ressignificações, como pai e filho, morando juntos e, como professor e aluno, agora que Merlí passa a lecionar no mesmo instituto em que seu filho estuda. A propósito, Bruno também contempla os "Peripatéticos".

Merlí vivencia o dia a dia como todos os outros e não omite isso de seus pupilos. Não cria barreiras. Este talvez seja o seu maior trunfo – revela-se como um homem comum. Neste ato, transcende a hierarquia professor – aluno, despertando o encantamento em sua turma e a repulsa por parte de alguns colegas, sobretudo de Eugení, um conservador e arrivista professor de literatura. Este paradoxo – fio condutor da série – permeia também o entorno familiar de seus alunos: Alguns o admiram, outros reprovam-no . Alguns o amam (no sentido literal, inclusive, como demonstra a mãe de um de seus alunos); outros o odeiam. Extremos perpassam a realidade deste nosso protagonista - deste ser social.

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O contexto da série abarca temas nevrálgicos da vida contemporânea como a dificuldade financeira, a timidez, a opressão, o doutrinamento, a infidelidade, o desejo, a iniciação sexual, a paixão, a manipulação, o assédio, a inveja, a competição, a homossexualidade, a maturidade precoce, a educação familiar ríspida, os transtornos psíquicos, a carência, a morte, a ética, o sofrimento, as alegrias, entre tantos outros, com destaque, sobretudo, para as superações. Superações das adversidades, seja pelo enfrentamento, seja pela compreensão, sob o viés filosófico.

Os disparadores utilizados por Merlí fomentam ricas discussões e reflexões situacionais, que levam seus jovens ao encontro de caminhos. Caminhos para tomadas de decisão. Ao invés de encher baldes, Merlí acende a chama do conhecimento em sua turma de efebos. Ao invés da tergiversação, a reflexão e, consequentemente, a ação. Não produz beócios, tampouco sujeitos passivos. Pelo caminho da erudição, Merlí capitaneia a práxis. Segundo os "seus jovens", palavras edificam um poderoso efeito simbólico no seio escolar. Registraram:"Merlí ens fots trempar" (Merlí nos faz ter tesão).

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A despeito de sua personalidade “sui generis”, Merlí é um maestro que consegue afinar com precisão os acordes de sua orquestra. Como instrumento, utiliza a filosofia. Na primeira temporada, dividida em 13 episódios, lança mão de seus ilustres “interlocutores”: Platão, Maquiavel, Aristóteles, Sócrates, Schopenhauer, Foucault, Debord, Epícuro, Hume, Nietzche. Somam-se ainda, céticos e sofistas. Somado ao enredo, o deleite a cada abertura da série que mescla imagens eruditas ao som de “El vol del borinot”.

Acompanhar o dia a dia dos personagens, com realidades tão comuns às nossas, tendo os pensadores citados como pano de fundo, parece nos conduzir a uma sensação de empatia e encantamento. Somado a isso, a temática vai ao encontro (infeliz) de uma realidade concreta que vivenciamos atualmente no cenário político educacional brasileiro – a alteração na Lei de Diretrizes e Bases nos diferentes níveis de ensino, que isenta as instituições públicas de educação do ensino das disciplinas de Sociologia, Filosofia, Artes, Educação Física, Música e Cultura Afro-brasileira. Como argumento, a falácia da “não obrigatoriedade”.

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Merlí é uma série ímpar e provocativa. Neste sentido, este texto aproveita o ensejo e, na toada da série chega ao seu desfecho deixando uma provocação: A quem e para quem interessa uma educação no atual molde tupiniquim?


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