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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

Money Monster (Jogo do Dinheiro)

Seria um trabalhador comum capaz de ter voz na sociedade das cifras?


Ao ler a sinopse desta obra, confesso que fiquei receoso em me deparar com um blockbuster que jorra investimentos em sua produção mas que nada agrega ao espectador. Entretanto, fui surpreendido. Imagen Thumbnail para MONEY MONSTER I.jpg

O enredo do filme revela como somos manipulados pela “indústria tecnológica financeira", que reverbera a dominação em suas nuances mais refinadas. Acredito que a reação da maioria das pessoas será a de identificação com o jovem Kyle Budwell (interpretado por Jack O’Connell) que tem o seu momento de “surto” e, em face das dificuldades que a vida lhe impõe, comete um ato de desespero. Além de Kyle, a trama envolve essencialmente Lee Gates (interpretado por George Clooney), um famoso apresentador de um Show Business de economia e mercado financeiro, a diretora de produção do programa Patty Fenn (Julia Roberts) que, no backstage alimenta e intermedeia todo o suspense com os demais personagens, representados essencialmente por integrantes da empresa que frauda o sistema financeiro. MONEY MONSTER II.jpg Kyle, um jovem trabalhador honesto, emocionalmente abalado pela morte recente da mãe, com a namorada grávida, resolve “investir” suas economias resultantes da venda de uma casa que herdou de sua mãe em um programa de TV americano que realiza negociações financeiras com a bolsa de valores, fundos de pensão e congêneres. No falacioso “jogo” televisionado, Kyle vê suas poucas, porém necessárias cifras desintegrarem ao seguir uma recomendação de Lee Gates. Perde tudo o que tinha por uma “pane” no sistema, que o conduz ao surto. Tomado pela fúria, invade o programa de TV e com uma arma e um colete carregado de bombas, torna Lee Gates seu refém. Kyle necessita compreender o que de fato ocorreu e, para isso, recorre ao extremo. Tudo isso ao vivo, revelando as reações da sociedade diante de sua agonia.

Ao refletir sobre o filme, fica a provocação: quem nunca surtou? Que atire a primeira pedra. MONEY MONSTER III.jpg

Resgatemos aqui, que um surto não precisa necessariamente se materializar em forma de uma agressão física. Há outras formas de "surtar". Quem nunca descontou a sua raiva em alguém próximo, como no seu companheiro(a), familiares ou amigos em um momento de extrema angústia? Há também, pessoas que adoecem, física ou mentalmente. Há outras que canalizam suas angústias para o vício. Vicio em trabalho, vício em sexo, vício em drogas ilícitas ou lícitas (haja vista o intenso consumo de psicotrópicos) vício em poder, vício em dinheiro. Quem se recorda de O Lobo de Wallstreet, onde Di Caprio, encarna o “pobre homem rico” – o toxicômano literal do mundo dos negócios?

Na sociedade da tecnologia e do conhecimento, principalmente em regiões capitalizadas, a vida é pautada pelo dinamismo selvagem, no qual temos que nos adaptar a situações diversas o tempo todo. Assim, momentos de fragilidade como o de Kyle, talvez não sejam tão incomuns. O ponto nevrálgico é: Em que condições a sociedade ouve as nossas angústias?

No mercado financeiro, temos uma das mais viscerais e perniciosas formas de cooptação: a psicológica. A abstração do tempo e dos lugares conduzem as cifras imateriais sem tempo para standby. Vivemos atualmente, a cultura da cifrocracia, que engendra comportamentos, dos mais impulsivos aos repulsivos. O privilégio das cifras se dá em detrimento de todas as outras esferas da vida, afinal, sem dinheiro, você não é ninguém para o sistema.

MONEY MONSTER IV.jpg Talvez, a mais interessante reflexão que esta obra pode fomentar, seja a vulnerabilidade que todos nós, enquanto humanos, nos encontramos em um ambiente repleto de incertezas e de inseguranças e que, em algum momento, podemos deixar a “resiliência” (conceito que corrobora a reificação do homem) escapar de nosso controle e, revelar ao mundo os nossos comportamentos mais selvagens e primitivos.

Em suma, a derrota de Kyle, parece ser a derrota de todos nós.

Esta sociedade que parece viver plugada ou entorpecida em uma ilha benzodiazepínica, um dia virá a compreender que o dinheiro deveria nos ajudar e não nos destruir? Conseguirá esta sociedade enferma, ouvir um pedido de socorro?


version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Thiago Loureiro
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