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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

Os estímulos podem dizer muito sobre nós

A infância e os estímulos recebidos nesta época podem ser determinantes na vida adulta. Uma criança envolta de cultura e atenção está sendo estimulada a desenvolver-se intelectualmente. E a criança que brinca com o carrinho de obras do pai que realiza biscates como pedreiro, o que se espera?


Imagem Estimulos 2.jpg No decorrer de nossa vida cronológica, estamos expostos aos mais diversos aspectos, que influenciam e moldam aquilo que conhecemos como identidade. A identidade revela-se assim, metamórfica. Diferentes são os espaços de socialização: a família, a escola, a religião, a política, o trabalho, dentre tantos outros seios, onde convivemos com diferentes pessoas, diferentes normas, diferentes símbolos, diferentes culturas.

A infância, período por excelência de socialização primária, pode dizer muito a respeito de nossa identidade. Um sujeito nasce com um prenome, que o diferencia de seus familiares e com um sobrenome, que o iguala a estes. Desde o início da vida já entramos em contato com as igualdades e com as diferenças. O nosso primeiro contato com o mundo se dá, portanto, em meio a determinações exteriores. Nasce-se, por exemplo, homem ou mulher; brasileiro ou francês ou argelino; preto ou branco; em um momento somos netos, filhos, noutros, pais ou avôs. Nesta perspectiva, não há regras, mas condições.

O local (onde) e a época (quando) nascemos carreiam consigo elementos relevantes. O tipo de sociedade, a cultura, os hábitos, as condições sócio econômicas. Ao refletir sobre estas questões, inquietações eclodem e surge uma indagação: Os estímulos aos quais somos expostos na infância podem orientar a nossa identidade atual?

Tomemos como exemplo duas famílias com alguns aspectos em comum: pai, mãe, dois filhos, brasileiros, brancos. Uma das famílias é financeiramente estruturada, reside em moradia própria em um condomínio fechado, os pais possuem nível superior de escolaridade e exercem profissões congruentes com as suas formações. Na outra, o pai e a mãe trabalham no mercado informal, moram em região suburbana, pagam aluguel e não concluíram o nível fundamental de escolaridade.

E as crianças? Bem, os irmãos da primeira família, frequentam um renomado colégio (cujo projeto pedagógico contempla artes, idiomas e até robótica), tem aulas de tênis, fazem ainda piano e natação. Nas horas vagas brincam com suas coleções de lego ou no playground do condomínio onde residem. Além disso, passeiam com os pais que adoram participar de programas culturais como teatro, cinema, livrarias ou viagens. Costumam dormir as 21h:00 e entram no colégio as 7h:00. Os pais têm uma relação harmônica entre si e com os filhos.

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Enquanto os irmãos da segunda família revezam o tempo entre uma creche municipal e a escola do violento bairro suburbano em que residem, exceto quando chove, pois as ruas sem pavimento ficam praticamente intransitáveis. No tempo livre, adoram brincar com o carrinho de obras do pai, que faz alguns biscates como pedreiro ou com os objetos domésticos da mãe. Quando possível, costumam ficar em casa com uma vizinha do bairro. Quando não, apenas os irmãos se fazem companhia em casa. Também costumam dormir as 21h:00, para entrarem na creche às 7h:00, embora nem sempre consigam uma noite de sono tranquila, tendo em vista a “agitada vida noturna” do bairro. Música alta nos bares, motocicletas acelerando, discussões de vizinhos e sirenes compõem o enredo noturno do bairro. Além do ambiente externo, também não é incomum o pai, com hábitos etilistas, discutir com a mãe, ou mesmo agredi-la fisicamente de modo insensível até mesmo às crianças.

Antes de prosseguir, não devemos tomar este exemplo como absoluto e invariante. Evidentemente há outros condicionantes, sejam inatos ou adquiridos, que podem mudar o contexto exemplificado, tanto de um lado, como de outro.

Retomemos os estímulos da infância. Quais estímulos recebem todas estas crianças? Com o que cada uma delas se identifica? E, que chances cada uma delas possui de ascender socialmente ou de tornar-se um adulto “socialmente aceitável”?

Parece que estamos diante de um paradoxo. Cobra-se que sejamos adultos socialmente aceitáveis, porém, ignora-se os pressupostos para isso. Pressupostos sociais e psicossociais.

Enquanto as crianças que brincam de lego e participam de atividades culturais (estímulos intelectuais), costumam progredir intelectualmente, as crianças que brincam com o carrinho de obras do pai costumam beirar a inércia, já que, não raramente, a regressão nem é possível. Aliás, progridem muscularmente, no sentido da brincadeira (que vislumbra o futuro trabalho braçal).

Outro paradoxo. Pode ser comum que as crianças criadas em condições aviltantes e de subnutrição venham a se tornar adultos com a autoestima reduzida ou, que vejam na malandragem (e, futura criminalidade), um dos possíveis caminhos para “se dar bem”. Assim, podem vir a “elevar a autoestima” e até, ascender socialmente. E, as crianças criadas a Nutella e Ovomaltine, provavelmente tornar-se-ão adultos profissionalmente e socialmente exitosos. Mas onde está o paradoxo?

Então, quando estas crianças, agora adultas encontrarem-se no infortúnio da vida, com sorte, as negligenciadas pela sociedade podem vir a executar algum tipo de trabalho subserviente àquelas socialmente privilegiadas. Na ausência da sorte, talvez o destino as apresente de outro modo. Um furto, um roubo, um assalto, em suma, um ato socialmente inaceitável. E o paradoxo, o mais pernicioso paradoxo, é que os “socialmente aceitáveis” acharão simplesmente “legal” quando a polícia prende ou mata os “socialmente inaceitáveis”.

Lembremos, entretanto, que o “socialmente aceitável” é determinado por valores, leis, normas, regras, imputadas pelas mesmas pessoas, socialmente privilegiadas. Sejam nos tribunais, seja na política, seja na mídia ou onde quer que seja. Afundamos assim no limbo social. Oras, mas isso pouco importa. Continuemos ostentando a nossa identidade (inautêntica) e junto dela, nossa pseudofelicidade nos feudos pós-modernos em que vivemos, intramuros.

E a ralé?

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A ralé está destinada à sua própria sorte (ou azar).


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