ornitorrinco.

Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

QUERÔ

“Porra mãe, eu nunca fui nada, sempre me fudi. Vivo de favor, durmo de favor, como de esmola. Isso presta, mãe? Isso acaba com a gente, deixa a gente ruim, mãe”


querô 1.jpg

Maxwell Nascimento encarna com tenacidade o personagem Querô, protagonista da obra (com o mesmo título) baseada em fatos reais. Dirigido e roteirizado pelo cineasta brasileiro Carlos Cortez, o filme é baseado na obra literária Querô: Uma Reportagem Maldita, escrita pelo dramaturgo santista Plínio Marcos nos anos 70. Como filme, chegou às telonas em 2007.

Filho de Piedade – uma prostituta, Jerônimo (Querô) perde o vínculo materno precocemente, já no seu primeiro dia de vida. Ao dar a luz a Querô no prostíbulo em que vivia, Piedade é expulsa pela cafetina Violeta. Desnorteada, Piedade busca entorpecer o seu sofrimento. Seu jantar naquela noite: o álcool. Seu desayuno: o querosene. Ato que culminou na sua morte. Daí emerge o apelido Querô, perversamente proferido por Violeta, a “tutora” de Jerônimo durante a sua triste e decadente infância.

Querô 2.jpg

Filho de uma prostituta e de um pai desconhecido, Querô tornou-se órfão em seu primeiro dia de vida. Nas ruas de Santos, conquista a sua marginal liberdade. Trabalha “informalmente” nas proximidades do cais, lavando vidros de caminhões. Com cerca de 14 anos, comete pequenos delitos com outros garotos, que o levam conhecer alguns “prazeres”, como a possibilidade de comprar uma camiseta bacana e de frequentar o baile funk. Os delitos o levam também a conhecer uma outra realidade:a privação da liberdade. Querô é conduzido à FEBEM.

QUERÔ 3.jpg

A subjetividade do garoto transmuta ao adentrar em um ambiente carcerário. Seu cabelo foi raspado. Sua roupa agora é o uniforme. Após esta "adequação" pela instituição que pune e vigia, Querô pôde acessar o pátio. Naquele espaço, avista seus pares. Todos meninos, cada um "carregando"a sua história. Entre "os iguais", Querô parece se "enaltecer", pela sua raiva, talvez, pelos seus ataques súbitos. Logo no primeiro contato, é zombado por conta de seu apelido. Apelido que carrega como ônus de uma vivência traumática. Desde a sua vinda ao mundo, está preso e condenado pelos grilhões do passado. Neste momento, o garoto revela seu primeiro impulso de ódio. Durante uma briga, ele morde o seu colega como um animal morde a sua presa, fato que o conduz para uma cela solitária. Nesta cela, vêm à tona algumas de suas fragilidades. Fragilidades de um menino, como o medo diante de um inseto. Ali também, Querô cai em lágrimas, acompanhado de fantasmas de sua infância (como a morte da mãe e as humilhações e maus tratos que recebia na zona de meretrício onde fora [mau]criado). Estes fantasmas eram recorrentes. Apareciam com frequência em seus sonhos, onde o desejo e o imaginário eram lastreados pela realidade. Na densidade desta cena, Querô sofre. Sofre profundamente e lamuria com a sua mãe (imaginária): “Porra mãe, eu nunca fui nada, sempre me fudi. Vivo de favor, durmo de favor, como de esmola. Isso presta, mãe? Isso acaba com a gente, deixa a gente ruim, mãe”

Na penumbra da cela, aparece um interno. Veio lhe trazer a sua refeição. Aproveita o momento e o ironiza. Ironiza e deixa um recado:será punido pelo o que fez com o colega. Chega o momento de sair da solitária, entretanto, Querô não consegue lidar com ameaça do abuso sexual e teme por vir a perder a sua honra de “sujeito homem”.

Querô é conduzido à cela coletiva. Conduzido e “acalmado” pelo cuidador/carcereiro - Seu Edigar. O medo tomava conta do seu semblante. Ao apagar das luzes, apagou-se também a chama da inocência que ainda existia em Querô.

Acordou na enfermaria, agora suturado. Passa a ser chamado por alguns de “dadeiro da FEBEM”. Assim como sua inocência, sua honra fora atingida. O garoto que já revelava surtos de ódio estava sedento por vingança. Vingança não apenas àqueles que lhe abusaram, mas sobretudo, vingança contra a vida. Esta vil e degradante vida que lhe roubou e solapou qualquer possibilidade de dignidade.

Dia de auditoria na FEBEM. Dia dos internos simularem a prática de artes numa oficina improvisada. Dia de fingir que eram bem tratados, que poderiam ser “recuperados” por meio do sistema. Exceto Querô. O menino, tomado pelas amarguras, é sincero ao dizer que desejava uma arma e almejava a vingança. Ao ser reprimido e espoliado por Seu Edigar, sai descontrolado da sala. Nesse momento, algum colega joga uma faca improvisada ao chão. Querô esfaqueia o seu opressor e protagoniza uma rebelião. A barbárie fora instalada na FEBEM. Garotos tomados pelos instintos mais primitivos, destroem e depreciam o que aparece pela frente. Querô está liberto!

Fora do regime institucional de vigilância e punição, procura faminto, numa noite chuvosa, abrigo e alimento onde fora (mau)criado. No prostíbulo, é chantageado por Naná, um funcionário homossexual que fez parte de sua infância. Um apetitoso prato lhe seria servido, se, em troca, realizasse os desejos sexuais de Naná. Querô, em seu ímpeto, agride Naná e quebra o quarto todo. Em seguida, come a sua refeição e parte do prostíbulo.

Acolhido por Gina, Querô passa a viver num cortiço em Santos. Arruma um trabalho e começa a frequentar uma igreja, onde encontra Lica, a linda e doce garota por quem se apaixona. Pela primeira vez no filme, é possível ver o brilho nos olhos de Querô. Pela primeira vez também, o garoto está envolto por sentimentos como o amor e o afeto.

Querô 4.jpg

Seus olhos agora brilhantes, parecem vibrar quando vê uma caixinha de músicas numa loja. Queria presentear Lica, porém, seu dinheiro não era suficiente. Deste modo, busca uma aposta e, numa confusão, é visto por Sabará – o policial que lhe apresentou a FEBEM quando cometeu o delito. Sabará chantageia Querô: R$ 350,00 todos os domingos ou voltaria para a FEBEM. O garoto desesperado com a possibilidade de voltar para aquele lugar que tantos traumas lhe causou, envolve-se rapidamente no mundo das drogas.

Logo procura a jovem Lica por quem se apaixonara e diz “eu queria ser esse cara, o Jerônimo da Lica, mas Jerônimo morreu. Quem tá aqui é o Querô. Se não posso ser o Jerônimo da Lica não quero ser ninguém”. Deixa uma carta para a senhora que cuidou dele no cortiço se lamentando e dizendo: “Gina, tu foi uma mãe pra mim”.

Querô segue ao encontro de Sabará e (coincidentemente), num prostíbulo, o alveja com vários tiros. Querô também é atingido e, em meio ao encontro de seus vários fantasmas, a obra chega ao desfecho.

O filme consegue dar conta de uma diversidade de elementos que abarcam o contexto social. Destacam-se a omissão do Estado brasileiro na tutela de menores; a degradação de suas instituições; a indignação pela opressão, a violência, o sofrimento, a tristeza, a raiva, o ódio, o medo, a vulnerabilidade social. Um contexto que, escrito na década de 70, revela-se tão atual. Ao adentrar o “mundo de Querô”, sentimos que a perversidade não é intrínseca ao garoto - Jerônimo, mas o domina como uma defesa. A obra resvala numa constante inquietação: se tivéssemos nascidos ou sido criados nas mesmas condições que Querô, teríamos outras possibilidades?

Quantos Jerônimos não existem por aí? Talvez perdidos, talvez desamparados ou quiçá, perversamente (de)formados e (ex)terminados por um sistema deturpado e "falido"(embora, paradoxalmente lucrativo)?

Nota: O filme Querô já ganhou 13 prêmios em festivais pelo Brasil. No 39º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, ficou com os prêmios de melhor ator, melhor roteiro, melhor direção de arte e melhor som. No 14º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá venceu em melhor filme, melhor ator, melhor direção, melhor roteiro, melhor direção de arte e melhor produção. No 17º Cine Ceará: Festival Ibero-Americano de Cinema foi vencedor em melhor longa-metragem, melhor ator e melhor montagem.


version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Thiago Loureiro