ornitorrinco.

Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

SEXOGRAFIAS

Conviver em um lar cujos moradores vivenciam um relacionamento poliamoroso. Adentrar no mundo dos swingers. Acompanhar a rotina de um pornstar. “Doar” óvulos. Curtir uma “viagem” química transcendental. Conhecer a vida amorosa e profissional de uma transexual. Desvendar segredos, até então, privados dos homens que vivem em cárcere. Sentir prazer por meio da dor e da dominação. Este é o enredo de SEXOGRAFIAS.


SEXOGRAFIAS.jpg

Conviver em um lar cujos moradores vivenciam um relacionamento poliamoroso. Adentrar no mundo dos swingers. Acompanhar a rotina de um pornstar. “Doar” óvulos. Curtir uma “viagem” química transcendental. Conhecer a vida amorosa e profissional de uma transexual. Desvendar segredos, até então, privados dos homens que vivem em cárcere. Sentir prazer por meio da dor e da dominação.

Estas são algumas das experiências reveladas por Gabriela Wiener em seu livro Sexografias. A princípio, talvez o livro passe despercebido nas prateleiras mais distantes das livrarias, ocultando suas porosas páginas, portadoras de um instigante e lascivo conteúdo. Sobretudo, isento de vulgaridade.

A grande sacada do livro, talvez, seja revelar aspectos de um tema que ainda é tabu. Tabu exponencialmente acentuado ao ser narrado por uma mulher – o “sexo frágil”, na visão (ainda) de muitos. Gabriela é uma mulher peruana, cuja identidade perpassou uma cultura opressora e de objetivifação à figura feminina. Formou-se como jornalista, foi viver um tempo em Barcelona. Por meio do “jornalismo gonzo” – aquele cujo repórter participa ativamente das matérias, Gabriela ao mesmo tempo, nos seduz e nos provoca com suas histórias.

Ao tratar de um tema como o comportamento sexual, um exemplo “corriqueiro” pode despertar a reflexão acerca da subsunção da mulher em relação ao homem: o homem é “educado” para liberar seu comportamento. Como revelado pelo ilustre professor Karnal, culturalmente, o pai tem orgulho do filho que inicia sua vida sexual. Se este tiver uma vida sexual ativa, melhor ainda: temos um “garanhão”, um “tigrão” (animais cuja conotação é positiva – associados à ideia de beleza, de força, de virilidade). Em contrapartida, a mulher, não raramente, procrastina a sua vida sexual em função da repressão que a cerceia. Ao contrário do homem, se esta optar pela vida sexual ativa, é posta como frívola. Apelidada de galinha, cadela ou piranha (animais com conotação negativa, senão, pejorativas). Assim, a linguagem parece reiterar aquilo que é justaposto: o prazer é digno do homem; à mulher, resta a submissão. O livro nos convida a refletir sobre o comportamento sexual e, paralelamente, sobre a repressão e a misoginia em diferentes matizes.

Abaixo, uma prévia do que encontrar em Sexografias.

- Guru e família: o capítulo põe em xeque todo e qualquer (pré)conceito acerca de uma relação poliamorosa entre um guru do sexo e suas seis companheiras. A despeito da aparente impressão de subsunção destas mulheres ao seu homem, conhecê-los em suas intimidades, revela que a primeira impressão não é a que fica.

- O planeta dos swingers: tire a venda de sua timidez, assim como Gabriela que, ao adentrar neste mundo, percebeu que ali também existem regras (mesmo que implícitas) e que a liberdade não se confunde com libertinagem. Sim, há relações matrimoniais que completam bodas neste planeta e, segundo a escritora, mais fiéis (“ipesis literis”) que os tradicionais matrimônios ocidentais.

- Trans: perceber que o sonho de emigrar de um país conservador para outro liberal e vislumbrar uma vida “digna”, para uma trans, neste caso não passou de romantizar uma realidade que se concretiza como miserável e aviltante. Na vida notívaga de Bois de Boulogne, a jornalista tem a oportunidade sentir como vive o lumpem parisiense no submundo da prostituição.

- Nacho transa com quinze: como se dá a vida de um profissional da pornografia que angariou o status de “estrela” nesta constelação - nada brilhante.

- Bem vindos à minha webcama: abraçar com a proximidade sem cheiro, a suavidade sem tato e a nudez sem corpo. Nesta tarefa, Gabriela parece descobrir desejos e predicados que estavam ocultos e, que depois de polinizados, parecem eclodir em seu alter. A arte do sexo virtual envolta porém, por um plus – as cifras.

- Adeus ovozinho. Adeus: pasmem com a mercantilização que abarca reprodução assistida. Descobrir que a sua ascendência ameríndia, por si, faz o seu valor despencar na Nasdaq dos embriões. Nesta dicotômia entre o in-vivo e o in-vitro, perpassam também, verdadeiras agressões endocrinofisiológicas .

- Viagem com ayahuasca: a viagem transcedental monitorada que pode lhe fazer sentir prazeres inimagináveis. É bom saber porém, que às vezes pode rolar uma depuração biológica ou até uma bad trip.

- Duas formas de (não) ser puta em Lima: Gabriela revela – “e que mulher não sonhou em ser puta pelo menos uma vez na vida, alucinando os homens, com vestidos cheios de luz”. Pois é, o sonho passou e ela ficou petrificada.

Outros capítulos ainda, enriquecem Sexografias que, certamente, induzirá o leitor a pensar sobre o comportamento sexual contemporâneo. Talvez lhe cause espanto. Talvez risos. Talvez curiosidades. Talvez repulsas. Talvez desejos. De qualquer modo, o tema que se coloca permeia a nossa vida, aceitemos ou não. Ninguém é obrigado a aceitar nada. Nem nós, tampouco a garota que nasceu em Lima cerceada por tantos fardos sociais, culturais e pessoais. O que não nos dá o direito de desrespeitá-la, de agredi-la. Vale ressaltar que, do ponto de vista psicanalítico, as agressões andam de mãos dadas com o desejo.

E por falar em ponto de vista, Leonardo Boff nos esclarece: “todo ponto de vista é a vista de um ponto”. Respeitar a visão e as vivências da mulher que, através da grafia e na armadura de jornalista, parece se empoderar e transgredir aquilo que lhe fora imposto no pretérito. Sem a intenção de soar arrogância, sequer ser auspicioso, se essa ideia parece lhe incomodar demais, ao ponto de ser perturbador, trocar umas ideias com os intermediários de Freud seria, eufemisticamente, interessante. A propósito, Gabriela é “casada”. Casamento não circunscrito aos enquadramentos sociais formais. Mas sim, é “casada”. Vive em Madri, com Jaime, seu marido, Rocío, namorada de ambos, e Lena, filha do “tricasal”, na definição da própria filha.

Quem sabe o que virá a germinar das narrativas de Gabriela? Não sabemos. Mas podemos fazer um esforço para imaginar. Na fertilidade imaginária, pensar que este tema – o comportamento sexual – esteja cada vez mais em pauta nas discussões. Entre provocações, debates e reflexões, germina a esperança de que o assunto se prolongue e ultrapasse os perímetros dos botecos, dos chats virtuais ou mesmo dos feudos universitários e que avancem para diferentes espaços de socialização. Lima, Barcelona e Paris foram alguns dos cenários de Gabriela, que agora, chegam a tantos outros lugares.

A peruana Gabriela Wiener (1975) é jornalista e autora de livros de contos, poesia e reportagem. Atualmente é colunista no El País. Seu trabalho costuma ser autobiográfico. Sexografias foi um dos destaques da FLIP em 2016.

SEXOGRAFIAS 2.jpg


version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Thiago Loureiro