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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

SÍNDROME DE PETER PAN

Olá, tenho mais de trinta anos e moro com meus pais. Não trabalho ainda, pois não encontrei nenhum emprego a minha altura. Para mim, a vida é uma festa. Me atraio por pessoas jovens e descoladas, pois o mundo já está cheio de gente chata e certinha. Prazer, meu nome é Peter Pan.


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Metáforas podem ser valiosos instrumentos para se chegar ao caminho da realidade, ou pelo menos, para se aproximar desta. Personagens de histórias infantis “ganham corpo” e tornam-se objetos passíveis de investigações científicas. Toma-se como destaque neste texto o caso investigado pelo psicólogo norte-americano Dan Kiley, autor do livro "The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up" (A Síndrome de Peter Pan: Homens que Nunca Crescem, numa tradução livre).

Em 1911, James Matthew Barrie, deu vida a Peter Pan com a criação da fábula que retrata o menino que se nega a crescer. Vive sempre na mais tenra idade, em sua fictícia ilha conhecida como Neverland – a Terra do Nunca. É curioso refletir como uma história secular pode dar conta de algo tão atual, como o conflito pela passagem do tempo, permeado por questões sociais e psicossociais e, que se apresentam na sociedade hodierna. Ao abordar a entrada na maturidade, Dan Kiley lança mão deste cenário de fábulas para elucidar este tipo de personalidade. Este quadro é mais comum em rapazes que em mulheres, o que justifica a utilização do “Homem Peter Pan” neste texto. Desde a publicação do livro de Kiley, a Síndrome de Peter Pan foi aceita na psicologia, embora não seja contemplada oficialmente pelos manuais de transtornos mentais e comportamentais.

Caras na casa dos trinta ou dos quarenta que apresentam comportamentos “juvenis”. Soa familiar?

Quem nunca conheceu um cara em idade adulta com comportamentos, de certa forma, excêntricos, para aquela idade?

Morar na casa dos pais, não assumir responsabilidades, não admitir repreensão. Em suma, recusar-se a crescer. Pois é, mudança não faz parte do vocabulário e nem das práticas de Peter Pan. Senhor da razão, não admite mudanças, já que está sempre certo e convicto de si. Não é dotado de poder de autoconsciência . Reconhecer um erro, nunca. Pedir desculpas, jamais. Não erra. Não sente culpa, já que os erros são dos outros ou das circunstâncias, porém, jamais de si. A superioridade lhe é inerente.

Entretanto, resguarda para si a insegurança. Sim, são inseguros. São também imaturos, irresponsáveis e dependentes (em geral, financeira e emocionalmente).

Quando tristes, costumam mascarar esta tristeza com atitudes jocosas ou mesmo ofensivas e depreciativas.

Quando frustrados, a raiva se sobressai e se expressa de forma externalizada.

Em Neverland, parece não haver leis, normas ou regras. Assim, Peter Pan cria suas próprias regras, pautadas em seus valores. Neste mundo paralelo, em que o seu egocentrismo é soberano, as amizades não são valorizadas, tampouco as demais relações com a alteridade. A propósito, Peter Pan é tão fiel a Neverland que costuma ser chauvinista. Adota posições tendenciosas, exacerbadas ou mesmo agressivas àqueles que “escapam” ao seu ideal, sejam regiões, grupos, pessoas ou ideias. Pois é, a pluralidade e a diversidade não chegaram a Neverland.

Diversão é uma palavra recorrente na vida de Peter Pan, aos olhos de outrem. Arroz de festas, adora badalar e agir de modo semelhante ao público jovial que costuma estar no seu entorno. O tempo corre diferente para ele. Se, por ventura, você resolver revisitar aquela balada que frequentava nos áureos tempos de juventude, provavelmente reencontrará Peter Pan. Tomando aquela mesma bebida, curtindo aquele mesmo embalo, proferindo aquelas mesmas piadas, mas, em novos círculos. Círculos momentâneos, talvez. Impelidos por hábitos notívagos ou boêmios. Afinal, as amizades são efêmeras, senão perecíveis para Peter Pan. Pois, os “antigos amigos” envelheceram. A sintonia se dissipou. Não estão na mesma “vibe”. Tornaram-se chatos, tediosos. Verdadeiros babacas responsáveis.

Os pais de Peter Pan costumam prover um ambiente amistoso demais para este menino, ao ponto de cultivá-lo numa bolha, (hiper)protegido de qualquer ameaça. Uma criação quase que “in vitro”. Assim, Peter Pan não vivencia suas angústias, seus medos, suas frustrações. O crescimento e a maturidade são procrastinados. O cordão umbilical não é cortado e, Peter Pan, parece não conseguir romper este elo.

No âmbito da aparência, Peter Pan teme a senilidade. Ainda neste âmbito, a mídia corrobora e fertiliza este insidioso comportamento.

Do mesmo modo que uma criança vê a casa, a segurança ou o alimento como um direito, Peter Pan, sob a ótica infantilizada de suas lentes, compartilha a mesma percepção. Não reconhece a necessidade de esforços para alcançar as suas próprias conquistas. Toma tudo como pronto ou como dado. Toma como direito. Mas e os deveres? Bem, os deveres não lhe apetecem.

E no amor? Ah, geralmente Peter Pan não assume relacionamentos “amorosos”. Mas se rolar química, a mulher também adentrará ao fabuloso enredo. Assim como na fábula, na vida real, duas mulheres podem vir a dar conta de Peter Pan: Wendy e Sininho. Curiosamente, também abordadas como “personagens da vida real”.

Wendy é a personificação da mulher carente, insegura e submissa. Peter Pan dita as regras e Wendy as obedece. Todavia, Wendy mesmo que inconscientemente, acredita que é indispensável para Peter Pan e, neste contexto, aceita o seu amante do jeito que é, sem esperanças de que um dia, ele venha a mudar. Wendy chega ao ponto de ascender profissionalmente, comprar o seu carro, morar no seu apartamento e, omitir de Peter Pan para não “entristecê-lo” ou “rebaixá-lo”. Prisioneira do medo e da rejeição do abandono, Wendy encontra em Peter Pan um “par ideal”. A tampa da laranja que se retroalimenta.

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Já com Sininho, o buraco é mais embaixo. Mesmo disposta a encarar uma relação com o fantasioso garoto, Sininho é uma mulher segura de si, com vida própria e autoestima elevada. Embora atraída e cercada de desejos por Peter Pan, Sininho não se anulará e, aos poucos, tentará acordá-lo desta fábula. O futuro de ambos? Quem disse que Peter Pan pensa no futuro? O futuro a Deus pertence!

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Apesar da aparente firmeza, Peter Pan têm suas fragilidades e, não raramente, encontra como fuga, meios como o cigarro, o álcool ou as drogas, para assim entorpecer os sofrimentos que lhe acometem. Medo, dependência, insegurança, insatisfação, solidão ansiedade, são alguns exemplos. Família e sociedade parecem ser determinantes para a existência e para a sobrevivência de Peter Pan. Como nos disse o psiquiatra Paulo Gaudêncio, “ninguém fica neurótico por elegância”.

Ainda, vivendo em Neverland, Peter Pan, mesmo acreditando ser soberano aos olhos do outro, pode neste narcisismo, engolfar-se e mutilar-se, ao ponto de chegar ao mais radical dos atos: o suicídio!

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Já dizia o ditado “idade é estado de espírito”. Quando tratamos de Peter Pan, entretanto, este ditado não parece ser o mais adequado. Embora tenham a aparência de pessoas despreocupadas e felizes, a aparência, no caso destes sujeitos, pode ser apenas um invólucro, cujo conteúdo contenha sentimentos e comportamentos dos mais perniciosos. O “culto ao eu” e a postura juvenil representam a alegoria que estes homens manifestam face à entrada na vida adulta. Para libertar-se das amarras desta vida superficial e fantasiosa, este sujeito pode hesitar ou sequer saber como pedir socorro. Atentemos, portanto, para os possíveis sinais que este “menino em corpo de homem” pode nos revelar. Os personagens de Neverland, revelam-se, indubitavelmente, como “fabulosos” arquétipos desta nossa perturbada realidade pós-moderna.


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