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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

ECOS DO ESTIGMA

"Quando eu era criança não era muito ruim porque me acostumei com os meninos do quarteirão que caçoavam de mim, mas agora eu gostaria de ter namorados como as outras meninas e sair nas noites de sábado, mas nenhum rapaz sairá comigo porque nasci sem nariz - embora eu dance bem, tenha um tipo bonito e meu pai me compre lindas roupas.
Passo o dia inteiro sentada, me olhando e chorando [...]".


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Esse texto toma como base a obra Estigma – Notas Sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada de Erving Goffman.

Escreve uma aleijada:

"Quando eu caia, uma grande quantidade de mulheres corria, cacarejando e se lamentando como um grupo de galinhas-mães desoladas. Era muita gentileza, e agora eu aprecio essa solicitude mas na época, eu ficava ressentida e muito embaraçada com tal interferência. Por que elas partiam do pressuposto de que nenhum acontecimento rotineiro quando se anda de patins - um graveto ou uma pedra - teria se colocado entre as rodas dos meus. A conclusão era inevitável: Eu caia porque era uma pobre e impotente aleijada".

Uma coluna em um jornal:

"Querida Ann Landers: Sou uma menina de 12 anos que é excluída de toda atividade social porque meu pai é um ex-presidiário. Tento ser amável e simpática com todo mundo mas não adianta. Minhas colegas de escola me disseram que suas mães não querem que elas andem comigo - pois isso não seria bom para a sua reputação. Os jornais fizeram publicidade negativa de meu pai e apesar de ele ter cumprido sua pena ninguém esquecerá do fato. Há algo que eu possa fazer? Estou muito triste porque não gosto de estar sempre sozinha. Minha mãe procura fazer com que eu saia com ela, mas quero a companhia de pessoas da minha idade. Por favor, dê-me algum conselho. UMA PROSCRITA."

O relato de um garoto branco em uma turma de negros:

"Não sei se posso fazê-lo ou não, mas deixem-me contar um incidente. Certa vez fui admitido em um grupo de meninos negros que tinham aproximadamente a minha idade e com os quais eu costumava ir pescar. Quando comecei a sair com eles, o termo "negro" era cuidadosamente utilizado em minha presença. Aos poucos, na medida em que saíamos juntos para pescar com cada vez maior freqüência, eles começaram a brincar entre si e a chamar uns aos outros de "preto".A mudança real estava na utilização que eles faziam da palavra "preto" quando brincavam, palavra que anteriormente nem sequer era mencionada. Um dia, quando estávamos nadando, um menino me empurrou, fingindo .violência e eu lhe disse: 'Não me venha com essa, papo de preto.' Ele respondeu: `Filho da Mãe' com um grande sorriso. A partir desse momento, todos podíamos empregar a palavra "preto", mas as velhas categorias haviam mudado totalmente. Nunca esquecerei, enquanto viver, a sensação de meu estômago após haver usado a palavra "preto" sem qualquer restrição."

Relato de um homem que numa fase avançada da vida, necessitou submeter-se a uma condição especial:

"Antes da colostomia, todas as vezes em que eu percebia um cheiro no ônibus ou no metrô, ficava muito aborrecido. Eu achava que as pessoas eram horríveis, que não tomavam banho ou que deveriam ter ido ao banheiro antes de viajar. Costumava pensar que a causa do cheiro estava nos alimentos que elas ingeriam e me sentia profundamente enojado. Para mim elas eram pessoas sujas, imundas. É lógico que na primeira oportunidade mudava de lugar ou, se isto não era possível, mostrava toda a minha repugnância. Por isso, acredito que as pessoas mais jovens sintam em relação ao meu cheiro a mesma coisa que eu sentia."

Foram selecionados alguns relatos emblemáticos de pessoas que vivem em um contexto de estigma. O propósito destes relatos? Não há respostas prontas. Etimologicamente, estigma advém do grego stigma e se refere a uma marca no corpo. “Os gregos, que tinham bastante conhecimento de recursos visuais, criaram o termo estigma para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava. Os sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e avisavam que o portador era um escravo, um criminoso ou traidor uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que devia ser evitada; especialmente em lugares públicos” (p.5). Com o passar dos anos, o termo ganhou sentido metafórico, como uma marca negativa que distingue uma pessoa.

A depreciação cumpre bem a função do estigma. Debilidade física ou mental, cor de pele, tipo de cabelo, idade, opção sexual, gênero, religião, crenças, moléstias, hábitos, costumes, desemprego, vícios, comportamento político, ocupações, prisão, nacionalidade. Inúmeras são as variáveis.

Os relatos no texto ecoam sentimentos. Sentimentos de dor. Sentimentos de impotência. Sentimentos de angústia. Sentimentos de culpa. Culpa pela “diferença”. A despeito de quaisquer outras qualidades, a “diferença” expõem estes sujeitos. Os (des)qualificam e/ou (re)qualificam. E, sobremaneira, os machucam! Mas “diferença” pautada em que?

Pautada talvez, em alguma referência de “normalidade”. Em algum padrão. Mas e aí, o que é normal? Quem é normal? Por que, como e quando se (pré)definiu essa tal “normalidade”? Onde resvalam estas categorizações? Categorizações que permeiam as relações sociais, por meio das quais conseguimos prever outras pessoas como algo dado... imposto... heterodeterminado. Tentamos, portanto, transformar o sujeito que está a nossa frente (com alguma característica que o diferencia) em algo que nós achamos que ele deveria ser.

Enquanto tentamos refletir sobre estas questões, a vida segue. Segue para os “normais” e segue para os estigmatizados. Alguns expressam seus sentimentos. Outros não. Alguns externalizam suas dores. Outros se fecham numa concha. Há sujeitos que tentam compreender o que sentem. Outros que se recusam. Há aqueles que agridem... ou se autoagridem. E, assim como existem aqueles que buscam ajuda, existem também, os que não mais suportam viver sob tal “condição”.

Querida Senhorita Lonelyhearts, Tenho 16 anos e não sei como agir. Gostaria muito que a senhora me aconselhasse. Quando eu era criança não era muito ruim porque me acostumei com os meninos do quarteirão que caçoavam de mim, mas agora eu gostaria de ter namorados como as outras meninas e sair nas noites de sábado, mas nenhum rapaz sairá comigo porque nasci sem nariz - embora eu dance bem, tenha um tipo bonito e meu pai me compre lindas roupas. Passo o dia inteiro sentada, me olhando e chorando. Tenho um grande buraco no meio do meu rosto que: amedronta as pessoas e a mim mesma, e não posso, portanto, culpar os rapazes por não quererem sair comigo. Minha mãe me ama muito, mas chora muito quando olha para mim. Que fiz eu para merecer um destino tão terrível? Mesmo que eu tivesse feito algumas coisas ruins, não as. fiz antes de ter um ano de idade, e eu nasci assim. Perguntei a papai e ele disse que não sabe, mas que pode ser que eu tenha feito algo no outro mundo, antes de nascer, ou que eu esteja sendo punida pelos pecados dele. Não acredito nisto porque ele é um homem muito bom. Devo me suicidar? Sinceramente, Desesperada.” Extraído de Miss Lonelyhearts, de Nathanael West (1962. Apud GOFFMAN, 2004).

Erving Goffman foi um cientista social, sociólogo, antropólogo e escritor canadense, cujo legado o tornou um dos mais influentes pesquisadores do século XX. Publicação original da obra citada: 1975. Digitalizado em 2004.


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