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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

Sexta feira

Preciso ir pra casa. Terminou a sexta-feira. O cheiro de ontem já não está mais no meu corpo, mas apenas naquele frasco de perfume, hermeticamente isolado. A felicidade está isolada. Quando percebo, meus olhos estão irritados. Não. Estão molhados. O sabor do gin permanece. Permanece apenas na garganta e, agora, com teor amargo. Uma amargura que me faz encolher em posição fetal sob o linho do lençol.


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Mais uma semana chegando ao fim. A sexta feira se aproxima. Vozes alvissareiras a anunciam. Com ela, as lembranças. Do aconchego do edredom. Do aroma de alecrim que, do forno, tomava conta da casa. Do chocolate dividido. Dos dedos entrelaçados. Da mancha de vinho na taça. Lembranças do âmbar nas páginas do livro. No ruído do vinil. Da marca d’água na janela translúcida. Lembrança do cheiro, do gosto, do toque, da voz. Lembrança do que ficou no passado. Que habita o presente. Inquieta o futuro.

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Necessito evitá-la. Mas, não consigo. É mais forte que meu desejo momentâneo. Sentimentos recalcados em meu âmago. Com um verniz, entretanto, que suaviza a aparência.

Acomodo-me na cadeira em frente ao monitor. Ensaio as primeiras palavras. Escrever, talvez seja minha melhor fuga. Os caracteres se perdem. Criam sentidos que talvez somente minha mente atormentada consiga interpretar. Apago. Reescrevo. Apago novamente. O sentido se interpela em minha razão.

Tento me aquietar sob a manta do sofá. Com minha caneca de chá, já enxergo o sachê ao fundo. O chá me aquece. Mas não o suficiente. A pupilas procuram um norte. Até que se paralisam diante de uma luz. É a luz que sai do celular. Vejo a mensagem de uma amiga com um endereço para curtirmos a noite seguinte, afinal, amanhã é sexta-feira.

Com o aparelho em mãos, procuro me distrair na galeria de imagens. Esboço um sorriso. Relembro alguns de meus momentos. Ah, como fui feliz! Pretérito? Já não sei. Revivo as lembranças do que já vivi. Lembranças também, do que deixei de viver. O nuance do sorriso se dissipa no semblante. Mas a sexta feira está a chegar. Posso me divertir. Livre dos compromissos que me tomam a semana. Uma longa e fria semana. Buscarei me ocupar. Tentarei descontrair.Tomo algo para relaxar e, quando abrir os olhos novamente, saberei que já é sexta feira.

Amanhece. Como a semana já anunciara, o clima permanece bucólico. Matizes acinzentados tomam conta do céu. Sobretudo, do meu céu. Do meu olhar. O cinza me é recreativo. Tudo bem, hoje é sexta feira. Finalmente é sexta feira. Tenho poucos, porém, bons amigos. Me apego a isso. Estarei rodeado deles logo mais. Estarei bem. Ah, estarei muito bem.

O cinza se escurece em meio às nuvens. A fricção do meu tênis no assoalho emite o som de minha chegada. Sim, cá estou sob minhas prateleiras ocupadas por porta-retratos vazios. Respiro. A água morna do chuveiro cai sob meus ombros e suaviza minha pele. Acalenta minha agonia. Meus poros se perdem em meio ao vapor. Borrifo o perfume que mais gosto, imbuído de uma fragrância ímpar. Tem como notas de cabeça a felicidade. Lembranças e costumes compõem as notas de coração. E, como notas de fundo, certo teor de melancolia. Essa fragrância é especial. Carrega o cheiro dos dias em que em fui feliz. Resgata memórias daquilo que foi bom. E me situa no interior de minha ilha.

Sigo ao encontro de meus amigos. O barista me serve um Gin. O ambiente é escuro. Cede uma parte da penumbra para algumas luzes, junto de um mezanino. O gin e as luzes me tonificam. Me estimulam. Harmonizam com algumas batidas sonoras que me fazem mexer os pés, quase que num movimento involuntário. Sob o efeito deste blend, me deixo levar. O sabor do Gin toma meus lábios, meu palato, minha garganta. Quando percebo, não vejo mais meus amigos. Estou sorrindo entre anônimos. Mas me sinto bem. O anonimato me conduz e me acompanha na multidão. Estou imerso no engodo da multidão. Talvez solitário. Mas naquele momento não. Estou tomado pela energia. Prefiro pensar assim. Necessito pensar assim.

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Quando me dou conta, uma amiga me abraça. Diz que já é dia. E me acorda do sonho profundo que estava vivendo acordado. Sinto uma mão escapando às minhas. Os dedos entrelaçados, porém, não eram os mesmos das minhas lembranças. Não tinham a mesma textura, nem o mesmo calor. Calor que me fazia transpirar. Não é o caso agora.

Preciso ir pra casa. Terminou a sexta-feira. O cheiro de ontem já não está mais no meu corpo, mas apenas naquele frasco de perfume, hermeticamente isolado. A felicidade está isolada. Quando percebo, meus olhos estão irritados. Não. Estão molhados. O sabor do gin permanece. Permanece apenas na garganta e, agora, com teor amargo. Uma amargura que me faz encolher em posição fetal sob o linho do lençol. Sim, em posição fetal. E, ao invés da relação edênica com o corpo materno, tenho em mim a relação entre minha mente e meu corpo, mascarada por benzodiazepínicos, mas, nem por isso, leve. Uma relação que, paulatinamente, me dilacera.

Olho para o celular. Busco uma luz que venha dali. Uma luz que resignifique a minha vida. Continua apagado, inerte. Como na noite anterior, tomo algo para relaxar e assim tentar adormecer. No pensamento, apenas as lembranças. Lembranças da sexta feira. Da sexta feira de hoje. De ontem. Das sextas-feiras do amanhã. Espero por um dia. Um dia. Estarei liberto das amarras de sexta feira e, distante da abstração de quaisquer tempos ou lugares, não mais contarei os dias. Passarei a vivê-los. E, quando este dia chegar, estas palavras também serão lembranças. Lembranças encorpadas de um novo sentido. Talvez, o sentido heurístico da minha essência humana. dias da semana.jpg


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