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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

Brazil e Racismo: Os XXI(s) são os novos XVI(s).

O ano é 2020. Este texto poderia tratar assuntos de inteligência artificial, tratamentos para doenças incuráveis ou até mesmo sobre vidas em outros planetas. Poderia. Mas, optamos por falar sobre racismo. Racismo no Brasil. A mais nova vedete entre os cidadãos de bem: Os XXIs são os novos XVIs. Helo Brazil, ai que loucura!


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O ano é 2020. Este texto poderia tratar assuntos de inteligência artificial, tratamentos para doenças incuráveis ou até mesmo sobre vidas em outros planetas. Poderia. Mas, como tratar destes assuntos, se nem o mais elementar nível no âmbito das relações sociais, superamos na sociedade em que vivemos? Pois é, vivemos no período moderno. Ainda, há aqueles que denominam de período da pós-modernidade. Pouco importa. Somos uma sociedade arcaica e retrógrada, no sentido vulgar dos termos. Somos uma sociedade que trata pessoas de modo desigual, pautados na cor de suas peles. Em pleno século XXI, agimos como bárbaros, também no sentido vulgar do termo. Agimos como povos que não passaram por um processo civilizatório. Ou, melhor, vivemos uma civilidade parcial, uma civilidade seletiva.

Este texto toma como base, o recente caso de humilhação e de racismo que envolve a discussão de dois homens. De um lado, um homem branco, residente de um bairro de alto padrão em um município paulista. De outro, a um homem negro, que trabalha como entregador de aplicativos. Como bem sabemos, esta ocupação, a entrega por meio de aplicativos, é uma atividade recente. Trata-se de uma atividade decorrente do atual momento do capitalismo em nossa sociedade, o que alguns autores denominam de trabalho plataformizado, o que, em síntese, nada mais é do que uma atividade de trabalho mediada por plataformas digitais. Até aqui, bacana, a tecnologia do nosso século chegou para propiciar algumas facilidades e confortos. O que ninguém costuma contar, no entanto, é que as empresas que utilizam deste sistema, não garantem o que seria essencial em uma relação de trabalho que preze pela justiça social e pela dignidade humana. São condições de trabalho aviltantes, espoliativas, quando não, degradantes à dignidade humana. Tomemos como exemplo, o caso recente do entregador que, em sua moto, realizava entregas com pinos de um processo cirúrgico expostos em sua perna. Ainda, o entregador que, em tempos de COVID 19, atravessou uma região de inundação com sua bicicleta para atender com eficiência e eficácia, a sua meta. A comida deve ter chegado organizada e quentinha ao cliente. Quantas estrelinhas será que o entregador recebeu por seu empenho na plataforma? Certamente, não o suficiente para atender as suas garantias sociais mais básicas. Doze horas por dia. Sete dias por semana. Todo este pedal para garantir uma renda mensal inferior a R$ 1000,00. Nem pense em adoecer. Nem cogite. Carteira de trabalho, férias, 13º salário, afastamento por acidente de trabalho são termos desconhecidos por estes trabalhadores. Em tempo, colaboradores. O mundo corporativo tem seus jargões. Na contramão, os índices das empresas de aplicativos disparam nas principais bolsas de valor mundo afora. Não desanimem, isso é um time. Somos uma equipe. Embora o jogo não tenha regras. Nem regulamentos. O que conta é a sua vontade de vencer. Este é tônica do trabalho plataformizado.

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A maior parte dos sujeitos que realizam este trabalho residem nas chamadas áreas periféricas das grandes cidades. Trata-se de regiões ocupadas majoritariamente pela população negra. Seria uma espécie de “apartheid” contemporâneo. Ou seria natural considerar que em alguns bairros como o Leblon no Rio de Janeiro e o Alphaville em São Paulo sejam constituídos por moradores brancos e abastados e, que populações negras vivam em regiões periféricas como a Rocinha ou Heliópolis? A propósito, não vivem. Sobrevivem. São os também chamados “sem CEP” ou sem endereço fixo. Um verdadeiro contraste de cores, que oscilam, de acordo com as 24 horas do dia e os 7 dias da semana. Os marginalizados deslocam-se aos centros urbanos para seus postos de trabalho, formais e informais. No caso das plataformas, este deslocamento é quase que ininterrupto. Se estas condições são naturais para quem lê, realmente, algo está errado.

Nunca é demais refrescar a memória de que o nosso Brasil é um país com tradição escravocrata. Éramos uma colônia. Não sei se o tempo verbal está correto, embora não afete o contexto da mensagem. Enfim, conhecer a nossa história é essencial para tentar compreender algumas de nossas realidades. Realidades da atualidade. A escravidão no país, na real, iniciou com a chegada (e não descobrimento) dos europeus ao Brasil. Indígenas foram escravizados (e não somente catequizados). Assim, desde 1500 e bolinhas, nossa terrinha convive com o fenômeno da escravidão. Contudo, como os indígenas eram considerados “preguiçosos” por nossos refinados colonizadores, estes resolveram então, focar no africano, como objeto de realização de suas vontades e de seus desejos. Quando nossa fofíssima princesa sancionou a Lei Áurea, em 1888, os então escravos, não receberam um flat para morar, tampouco vouchers que dessem acesso a saúde, educação, alimentação ou quaisquer outras dessas bobagens que a Casa Grande tanto se fartou e ainda se farta. Então, como diriam os brasileiros, esse pessoal teve que “se virar nos trinta”. Daí, advém toda a beleza arquitetônica e cultural dos morros e das favelas, tão atrativos naquele combo turístico ofertado aos gringos quando vem para o rolê na terrinha. Sem mencionar a sexualização dos corpos negros e toda a relação comercial que este contexto engendra. Deixemos esse assunto para outra oportunidade.

Tivemos, portanto, um enorme contingente de pessoas que, em um determinado período histórico, ficaram nas franjas de um sistema voltado para atender as necessidades de determinadas classes sociais. E, pasmém, muitos de nossos professores de História do Brasil não nos contaram alguns destes “detalhes”. Este contexto engendrou em nossa sociedade certa naturalização de algumas condições sociais. Não se costuma questionar porque algo é assim ou assado. Se aceita e ponto. Peço licença para exercitar meu hábito digressivo e trazer dois autores para a discussão. Estas naturalizações, estão mais ou menos próximas do que Hannah Arendt, uma relevante filósofa e teórica política alemã, compreendeu sobre o nazismo e que, entre outras coisas, denominou de Banalidade do Mal. Mais recentemente, outro teórico, desta vez, de naturalidade francesa e estudioso das ciências do trabalho, Christophe Dejours, “reeditou” as compreensões e considerações de Hanna Arendt e nos brindou com uma obra que intitulou de A Banalização da Injustiça Social. Já no século XXI, Dejours descortina alguns enredos das cúpulas corporativas, que, sem qualquer culpa brindam e comemoram resultados, mesmo que isso custe a desgraça e o mais intenso sofrimento alheios. Assim, para ambos os autores, nem sempre há perversidade ou sadismo nas ações humanas, mas, uma assustadora normalidade. Uma normalidade que permite tolerar o intolerável. O sofrimento individual é livremente consentido em nome de um bem maior: o modo operatório. Fica entreaberto o convite para as leituras.

No caso do Brasil, lideranças emblemáticas despertaram vozes que estavam caladas e adormecidas. Desde então, tem se tornado habitual no país, situações como a de empregadas domésticas que “vivem” na região do alto dos Pinheiros sem receber salário há 9 anos. Ou, empregadas que transitam 120 km diariamente para chegar ao trabalho e, ali, ter que tolerar o que deveria ser intolerável. Neste sentido, um caso na área nobre em Recife foi emblemático, no qual uma empregada doméstica, enquanto satisfazia as necessidades do cão (com pedigree) da patroa, ao retornar do “passeio”, encontrou seu filho de 5 anos de idade sem vida. Uma mulher, mãe e trabalhadora que, como muitas outras (mães, mulheres e trabalhadoras), levou sua criança consigo no trabalho. Não por opção. Mas por condição. Encontrou seu filho morto por um “descuido” da patroa que o colocou sozinho em um elevador, enquanto cuidava de suas cutículas com outras serviçais. Ah, um “detalhe”, a patroa é branca e a empregada é negra. E a justiça? Ah, a justiça caracterizou a conduta como culposa (quando não prevê a intenção de lesão). Ainda, sua liberdade, por hora, teve um custo de 20 mil reais. Assim, a patroa cumpre a pena prevista em liberdade. A questão que vale levantar é: e se fosse o contrário? E se a empregada negra pobre, por um “descuido”, matasse o filho da patroa branca? Será que o julgamento seria o mesmo? Será que o desfecho seria o mesmo? Valeria tentar compreender características, nuances e o histórico que compõem a justiça brasileira. Valeria, contudo, isso não cabe nestes parágrafos.

A propósito, a “justiça” tupiniquim é composta também, por aqueles que se fazem valer de suas profissões para aplicar, sem qualquer hesitação, uma hierarquia social explícita, mesmo que esteja do lado “transgressor” da “lei”. Essa é uma idiossincrasia da justiça brasileira. A idiossincrasia do “cidadão de bem”. No atual contexto da sociedade brasileira, seria o tal “cidadão de bem”, equivalente ao “cidadão do bem”? Uma vogal pode fazer tanta diferença, não? E aquele ditado do “bandido bom é bandido morto”. Valeria para todos? Ou tão somente para os sem CEP? E, vejam só, este texto foi escrito durante a Pandemia de COVID19. Vírus que dizem não ter qualquer tropismo por uma ou outra classe social. Pois é. Que bom que este vírus não é socialmente seletivo. Que bom que tantos podem gerir suas empesas ou dar continuidade aos seus negócios por homme office, enquanto outros necessitam deixar seus lares e deslocar 120km para realizar um trabalho braçal e exposto. Uma exposição literal ao vírus. Que bom que a Educação a Distância pulsa nas telas de tablets, notebooks e smartphones para os filhos de uns, enquanto para outros, o acesso à merenda é objeto de restrição. Merenda que pode vir a contribuir com a mais elementar necessidade nutricional. Que bom! Em tempo, o mesmo governo do estado mais rico do país, aquele que já forneceu farinácea aos alunos de escolas municipais da rede pública de educação básica, neste momento de pandemia, joga à própria sorte, 4 mil merendeiras. O mesmo estado que tem na figura de sua primeira dama, cenas de lacração na web, figurando ao lado de alpinistas sociais, das mais caricatas. Uma colorida caricatura do desdém, que, para quem vive o real, ganha matizes acinzentados. Uma verdadeira caricatura do horror. E tem gente que ri. E, tem gente que gosta. Hey Brazil, Helo. E assim, se perpetua o ciclo da ciranda da estupidez humana.

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Neste contexto de exposição a um vírus letal, o caso mais recente que nos chamou a atenção, foi o do entregador de aplicativos que, ao realizar a entrega de um pedido de restaurante a um morador de classe alta em um município paulista, deparou-se com uma cena terrível. Em uma discussão, o residente, um homem branco com avantajado porte físico, bem nutrido e parrudo que, no conforto de seu lar, profere palavras odiosas àquele que o veio servir – um motoboy franzino, negro, que necessita “se virar nos trinta” para (sobre)viver. Sobreviver com ou sem vírus no ar. Segundo algumas reportagens, as quais não temos qualquer competência ou pretensão de analisar, há indícios de que o residente da elitizada região do município paulista, sofre de esquizofrenia. O Esquizofrênico, contudo, é sócio em 3 empresas com o pai em São Paulo, a capital daquele estado mais rico do país, lembram?

Esquizofrenia, pela etimologia, é uma palavra de origem grega, composta de dois termos: skhizein que significa fender, rasgar, dividir, separar e phrên, phrênios que é pensamento. É um conceito complexo das ciências médicas e da psicologia e pode estar ligada a distúrbios da psicomotricidade, de alucinações, delírios, entre outros sinais e sintomas com potencial caráter demencial progressivo. De uma forma sucinta e simplista e, para fins didáticos, a grosso modo, arrisca-se considerar que a esquizofrenia representaria a incapacidade de separar o real do imaginário. Poderíamos aplicar este conceito no sentido social, já que a esquizofrenia é notória no país. No país laico que tem uma bancada da bíblia. No país em que ator do segmento pornográfico é eleito em partido conservador. No país em que primeira dama de estado debocha dos desvalidos e desafortunados. No país que, em pleno século XXI, utilizam-se pronomes de tratamento inadequados para uma ou outra profissão como sinal de subserviência. Um país republicano que resgata tempos ditatoriais com o mais alusivo saudosismo. Ainda, no país em que o trabalho escravo sempre existiu, mas, que se a pauta não der aquela impulsionada nos algoritmos, cai em esquecimento. Então, conforme já foi dito por líderes do estado tupiniquim, “pra que mexer no passado?” O que interessa e importa é pensar no presente e no futuro. E, também, porque falar em escravidão no Brasil, já que se trata de um fenômeno do continente africano. Afinal, para alguns camaradas, a culpa da escravidão deve ser dos africanos, já que comercializaram os seus para outros continentes. Então, meus caros, a escravidão e, por conseguinte, o racismo, não é um problema nosso. Deixemos pra lá.

É por conta deste tipo de discurso que hoje, o racismo tem saído do armário. Desde a criminalização do racismo, há pouco mais de 30 anos, esse assunto não tem sido escancarado. É algo que se dá mais no âmbito privado. Algo mais velado, mais sutil. Para alguns, sequer existiu.

Acredita-se que aspectos alinhados com o autoritarismo, com o totalitarismo e com a propagação da intolerância seriam contornos que dariam forma a uma sociedade que, provavelmente, não tem consciência de sua história. Neste sentido, um líder de estado, ou um governante, não dá voz a ninguém. Todos temos vozes. Sempre tivemos. Na emergência explícita de condições inaceitáveis em uma república democrática, as vozes apenas ganharam ressonância. Saíram do âmbito do privado e ganharam o grande público. O racismo saiu do armário. Saiu do armário e muitos optaram pelo silêncio. Alguns, ainda optam. O silêncio, contudo, é uma forma de comunicação. Se ao conviver com todo este contexto, nossa sociedade perdeu a capacidade de se indignar, é porque o racismo não carece entrar ou sair do armário. Já o assumimos. Já está escancarado.

Mas também, que grande bobagem estudar história. Consciência histórica, que grande baboseira. Quem vive de passado é museu. O homem moderno vive de informação atual, de tecnologia, de esforço e de meritocracia. Assim como o caso do entregador de aplicativos que foi depreciado, humilhado pelo meritocrático morador do condomínio do município paulista. O mérito da herança. O mérito da arrogância. O mérito do ódio. O mérito da decadência. E ainda, disseram que a discussão é porque o trabalhador sentia inveja. Inveja. Inveja!

E, já que viver de passado é para museus, talvez seja de bom tom ou até mesmo oportuno, resgatar parte de sua função. Ainda que, na esquizofrenia de um país que pouco se importa com essas instituições. O brasileiro médio, se abala quando a Notre Dame incendeia, posta em rede social e tudo. Já, presenciar um museu nacional carbonizar frente aos seus olhos nos noticiários, talvez o mobilize a mudar de canal. A arte, contudo, vive. Tem vida longa e interage com o social. Embora alguns pensem e digam que “tudo é arte”, e que “plástico virou arte também, então tudo é arte, entendeu, plástico, cerâmica, loucura, surreal, whatever”. Ainda bem que nem todos pensam isso. Ainda bem. Assim, peço licença para trazer duas artes de Debret - um pintor da corte portuguesa no Brasil Império.

Debret representa um olhar crítico do início do império no Brasil. Autor de Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, a obra foi publicada em três volumes na França entre 1834 e 1839 e, pasmém, foi recusada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1840. O apagamento da escravidão não é nada casual em nosso país. Nunca foi. A primeira imagem, representa o cortejo de uma família brasileira no século XIX. Embora o texto desconheça possíveis conexões com as formas corpóreas dos personagens, gostaria de chamar a atenção para as diferenças dos corpos entre senhores e escravos. Corpos franzinos. Corpos parrudos. Quaisquer conexões com outros trechos deste texto, ficam a critério do leitor.

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Na segunda obra, intitulada – Um jantar brasileiro, Debret esboça uma cena típica do império brasileiro por meio da qual é possível verificar a interação de alguns personagens, cada qual com seus signos e significados no contexto da obra. Entre os elementos representados, destacamos a invisibilidade, a fome, a gula, a subserviência, a soberba, a infância e, os contrastes étnicos e sociais. Mais uma vez, cabe ao leitor identificar ou não, contrastes entre o passado e o presente em nossa história.

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A partir destas imagens, este texto convoca os leitores a uma urgente reflexão: seria o silêncio, um ato neutro? Refletimos em que medida, perder a capacidade de se indignar frente a dor do outro está associada a uma forma de silêncio. Um silêncio habitado por dor. Um silêncio permeado por mortes. Um silêncio que faz muito barulho. Um silêncio ensurdecedor.

Ao retomar as palavras que iniciaram esse texto, o ano é 2020 e, assim, o trend do momento, não é mais “os 40 são os novos 30” ou “green is the new black. A mais nova vedete do atual momento e, que pode vir para grudar como chiclete em sola de sapato, talvez seja: “Os XXIs são os novos XVIs”. Do “ai que loucura” no Rio de Janeiro, ao “helo” em São Paulo, hashtags vem para atestar todo um frenesi tropical. Helo Brazil, ai que loucura!


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