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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

Susys: o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço.

A vida de Mulheres Trans em uma prisão. Bastou a exibição da curta reportagem para que mensagens e manifestações eclodissem país afora. Um verdadeiro convite para o exercício do afeto. Lembrem-se: "O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço".


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Uma recente reportagem sobre a vida de Mulheres Trans nas penitenciárias tem comovido milhares de brasileiros. A matéria, conduzida pelo reconhecido médico e apresentador Dráuzio Varella, em um dos programas de maior audiência da televisão brasileira, emocionou milhares de espectadores e, rapidamente reverberou em manifestações nas redes sociais e outros lugares mundo afora. Tamanho foi o impacto da reportagem que, tão logo, grupos virtuais organizaram-se com o propósito de enviar mensagens para as entrevistadas e, particularmente, com certo apelo especial para Susy de Oliveira, uma Mulher Trans que não recebia o contato de alguém de fora do espaço prisional há mais de oito anos. Oito longos anos. A partir daqui, peço licença para utilizar o nome de Susy na forma plural.

Mas, o que esta reportagem tem de tão especial a ponto de gerar tamanha mobilização?

Talvez, tenha despertado a nossa compaixão. Compaixão por uma pessoa que foi isolada social e afetivamente. Por maior que seja o esforço, é muito penoso se imaginar nesta situação. Até porque, se você está lendo este texto, provavelmente tenha uma realidade muito distante do centro da nossa discussão: As Susys. No entanto, fica o convite para que tentemos refletir e aprender algo a respeito.

Não é de hoje que Dráuzio inquieta nossos sentimentos com suas abordagens. Quem acompanha um pouco de sua trajetória sabe disso. Nesta reportagem, em especial, nos convidou a acessar (ainda que por alguns minutos) a realidade de uma parcela da população que vive à margem. Ou melhor, à margem da margem. Desculpe a redundância, mas ela se faz necessária. Problematizá-la, também.

O que significa ser pobre no Brasil? Significa ser maioria. E ter a cor da pele preta? Também significa maioria. Nisso acho que todos estamos de acordo. No entanto, não se trata aqui, de maiorias fortalecidas, mas, o contrário. E o que significa ser pobre, preta e mulher? Talvez, signifique estar nas franjas de uma sociedade que tem uma herança cultural patriarcal, elitista e escravagista. Pelo menos é o que a nossa história revela e, a partir dela, a consciência de que as oportunidades não são iguais para todos os cidadãos brasileiros. Pois é, ordem e progresso nunca foram tão dicotômicos. Progresso para uns. Ordem para outros. E por falar em “outros”, já imaginou se este outro for pobre, preta e “mulher em um corpo masculino”? Até podemos imaginar. Contudo, somente as Susys vivenciam esta realidade e, a partir de suas vozes, muito podem nos ensinar.

Que oportunidades teriam elas? Estariam, seus núcleos familiares, preparados para acolhê-las e orientá-las para a vida em sociedade?

E o sistema escolar, daria conta de abordar esta questão com a importância e complexidade necessárias? Se tomarmos como base o desinvestimento progressivo na educação pública e “polêmicas” como a deturpação da educação sexual nas escolas, já temos indícios de algumas respostas.

E a religião? Ah, quando o assunto são as Susys, talvez não seja prudente delongar qualquer discussão a respeito. Basta tomar como base que, as religiões predominantes no país as recusam. Porque cá entre nós, aceitá-las, não se resume a permitir que frequentem seus espaços ou seus eventos, mas, que seja uma aceitação legítima, genuína. Em outras palavras, aceitar as Susys implica em respeitá-las exatamente como são. Respeitá-las sem tentar transmutá-las. No entanto, respeito nunca foi algo habitual em suas vidas, sem novidades, portanto.

E o mercado de trabalho, como seria para as Susys? Peço licença ao leitor para exercer meu hábito digressivo e me perguntar: “como um headhunter analisaria seu perfil no Linkedin?” Calma aí, mas que viagem. Pois é, uma baita viagem. Uma bad trip pra ser sincero, das mais pesadas!

Família, escola e trabalho são três eixos fundantes da nossa vida social que, sejamos sinceros, no caso das Susys, são fortuitos. Melhor, não são fortuitos. São excepcionais. A realidade da vida particular destas mulheres é a rejeição. São desvalidas de quaisquer possibilidades de humanização. A familiaridade se dá com o (pré)conceito. Com a discriminação. Com o abandono. E, por conseguinte, com prostituição. O uni(verso) das Susys é a prostituição, não como opção, mas como condição. O mesmo corpo (socialmente incompreendido) que as condena, é aquele que as sustenta. As sustenta, embora não as imunize das consequências. Seja na violência. Seja na saúde. Seja no crime. Seja no cárcere.

Quando não exterminadas no mundo das ruas, lhes restam o cárcere. Quando não espancadas até a morte. Quando não estupradas. Quando não entorpecidas. Quando, ainda resistentes aos descompassos entre CD4 e CD8 e a toda a vulnerabilidade que as perseguem, talvez ainda lhes restem o cárcere. “Vitoriosas” da vida, para o cárcere. Sobre(viventes). Re(existentes).

Mas, o que seria o cárcere para pessoas que passaram a vida toda isoladas? Desprezadas. Ignoradas. Violadas. Estigmatizadas. Julgadas. Criminalizadas. A justiça que as julga, bem sabemos, não é composta por Susys. Nunca foi. Embora também existam hierarquias e regras de conduta informais em seus grupos. Na justiça formal, no entanto, o único lugar que ocupam, é o banco dos réus, quando sobreviventes.

Ah, que bom seria se um dia as Susys também pudessem participar da composição das leis. Das leis formais. Poder vislumbrar um dia em que Susys pudessem ser advogadas, médicas. Susys mestras e doutoras. Susys cientistas, professoras. Susys políticas. Susys formuladoras de políticas públicas. Ah, que bom seria. Dá pra imaginar as Susys no local mais alto do magistrado, olhando verticalmente, de cima para baixo para os demais. Embora, o que mais desejem, talvez, seja um olhar horizontal. Um simples e sincero olhar horizontal. De igual pra igual. Relações horizontais. Neste momento, resgatamos a infeliz realidade do cárcere. A realidade das grades. Sempre foi assim, cercadas por grades. Grades dos portões na vizinhança. Grades das instituições. E, mesmo que ignoradas, são constantemente vigiadas. Vigiadas e punidas. Entre grades objetivas e subjetivas.

Das grades sociais para as grades prisionais, continuam a con(viver) com a vigilância e com a punição. E, tamanho é o fardo que carregaram em seus corpos (incompreendidos) e em suas vidas que, mesmo sob a privação formal de suas liberdades, ali, entre grades, algumas conseguem encontrar alguma forma de afeto. Afeto que lhes tem sido negado permanentemente fora dali. Entrementes, quando somos convidados a acessar este (uni)verso tão particular e recluso das Susys, ficamos impactados. Alguns em choque. Outros, reflexivos. Poucos minutos em uma reportagem bastaram. Bastaram para que, com um gesto genuíno de afeto, fossemos profundamente tocados. Tocados pela história de Susy e pelas palavras finais de Dráuzio: "Que solidão, né minha filha?"

E, neste momento, acho que todos nós, junto com Dráuzio, também abraçamos Susy.

E, como já dizia a música:

“O melhor lugar do mundo É dentro de um abraço [...]”.

Um extenso e fraterno abraço, a todas as Susys.

Vale ressaltar que este texto foi escrito às vésperas do Dia Internacional da Mulher. Embora não tenha sido escrito por uma mulher, fica registrado o reconhecimento e o mais profundo respeito por todas as mulheres deste país, sejam elas Cis ou Trans.


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