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Reflexões e Epifanias: harmonizam com um Malbec, Moca ou Mate.

Thiago Loureiro

Bodas de pérola

Ela chegou de repente. Agressiva. Turbulenta. Até vingativa, às vezes. Não a entendia. Apenas sofria. Sofria e suplicava para que ela me deixasse. Demorei a entender que nossa relação seria duradoura. Para sempre, talvez. Fui reticente. Fui, também, negligente com ela. Até que desisti de lutar contra sua presença. A acolhi. Discutimos nossa relação. Discutimos com frequência. Algumas vezes publicamente. Noutras, ficamos a sós em nossa intimidade. Tenho aprendido muito. E, assim, temos vivido nossos dias juntos. Seja por coincidência, seja pelo destino, ou ainda, por ironia, neste ano completamos Bodas de Pérola. Pois é, já dizia o escritor, "ostra feliz não faz pérola".


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Verão de 1991. Meu primeiro dia em um clube de futebol amador, na pequena cidade interiorana em que nasci. Era um dia especial. Desde que eu jogava futebol de salão, meu pai me acompanhava. Desta vez, seria um teste no campo. Ele gostava de me ver jogar. E eu, bem, eu gostava que ele torcesse por mim. Gostava muito. Sua presença me fortalecia. Me inspirava a fazer o meu melhor. Eu gostava de jogar como meia direita ou como volante. No teste, me escalaram como volante. Estava tão ansioso que meu café da manhã se limitou a um copo de suco de laranja. A partida se iniciaria às 9 da manhã. Não precisaria de nada mais além daquela generosa dose de Vitamina C. Assim que o apito do juiz deu início à partida, senti minha barriga gelar e a garganta secar. Ansiedade. Nada de anormal para um garoto de doze anos que poderia iniciar uma carreira no esporte que mais gostava. Com menos de dez minutos de jogo, consegui desarmar o time adversário duas vezes e fazer um bom lançamento que quase surtiu em um gol do nosso centro avante. Essa boa fase durou até que as nuvens cedessem espaço para o grande astro. Ele estava radiante, imponente. Jogar contra o sol, era muito mais difícil que todos aqueles adversários. Senti minha vista embaralhar. Senti, também, a garganta mais seca e alguns calafrios. Quando a bola chegava até mim, eu não sabia muito bem o que fazer com ela. Parecia haver duas, três bolas. As pernas dos outros jogadores se multiplicavam, como que em um efeito de sobreposições em câmera lenta. O volante, naquela altura, perdera totalmente a direção e já não conseguia conduzir o time. Fui atingido por um carrinho e cai. Ainda deitado, uma forte dor se alojou minha cabeça. Uma dor pulsante. Uma dor que latejava como baquetas que batem na sofrida pele de um surdo mor. Batidas programadas como a de uma fanfarra. Batidas rítmicas. Batidas persistentes. Uma dor que, nada tinha a ver com minha queda. Não conseguia abrir os olhos. Tudo era muito claro. Insuportavelmente claro. Até que senti um gosto ácido em minha garganta, em meu palato. Tentei correr até o vestiário, mas sem sucesso. Soltei todo aquele líquido ácido no campo. Sentia medo. Sentia aflição. Sentia vergonha. Só procurava por meu pai, que desceu da arquibancada ao meu encontro para me levar daquele lugar. O lugar que mudaria minha vida, ainda que sem qualquer relação com o futebol.

Foi assim que fomos apresentados. Foi o modo que ela encontrou para se aproximar. Ela faria parte da minha vida, embora eu não a conhecesse. Levamos tempo para estabelecer um elo de confiança. Muito tempo. Minha mãe apelava para medicações do fígado. Não surtia efeito. Pobres hepatócitos, seriam eles os mártires de tanto sofrimento? Parte de uma infância marcada por crenças de uma mãe aflita. Uma mãe que fervia água com folhas de boldo, quase que em uma experiência de alquimia. Me oferecia aquela infusão, ainda quente. Uma combinação de sabores e temperaturas que me resgata a mais amarga memória gustativa. Outra infusão de ervas, servida com bastante açúcar aliviava aquele terrível retrogosto. Chá doce com biscoitos cream cracker. Era a única combinação que eu aceitava para forrar aquele estômago vazio e cansado. Foram meses assim. Semana sim, semana também, ela aparecia para me fazer uma visita e eu ainda não entendia seus sinais. Eu não a compreendia. Nem meus pais. Tampouco os médicos, que a tratavam como uma dor qualquer. A tratavam como uma dor corriqueira. E ela não permitia ser tratada com tamanho desdém. Mudava a frequência de visitas para que eu lhe dedicasse maior atenção. Tinha vezes que ela se revoltava e me obrigava a ficar tardes inteiras em um leito de hospital. De castigo. Roubava meu lazer. Roubava meu tempo. Era o preço que eu pagava não a acolher. Tão jovem e já conhecia o sabor da ressaca. Uma ressaca amarga, com gosto de bile. Feria minha faringe. Agredia minhas úvulas. Corroía o esmalte dos meus dentes.

Em uma relação conflitiva, me dispus a tentar entendê-la. Confesso, foi um processo paulatino. Aos poucos, começamos a criar alguma intimidade. Ela me ensinou a preferir a escuridão à claridade. Me ensinou a optar pela calmaria à turbulência. Eu diria que era pedagógica. Até que fomos apresentados a um neuropediatra. O primeiro sujeito que interferiu na nossa relação. Fez o meio de campo entre nós. Nos apresentou uma turma de fármacos. Betabloqueadores, antidepressivos tricíclicos, antagonistas dos canais de cálcio, inibidores da recaptação de serotonina e até anticonvulsivantes integrariam a nossa relação nos anos vindouros. Alguns permaneceram. Outros não. Saia de sua sala com receitas afetivas que traziam algum reconforto para aquela adolescência comiserada. Ah, passei também a ser codificado. Agora, por conta da minha companheira, eu tinha um código com letras e números que registravam meus atestados médicos e justificavam minhas ausências escolares. Essa danada já me colocou em alguns apuros. Sobretudo, nas rodovias em que eu transitava diariamente para cursar minha faculdade. Me obrigava a estacionar o carro, mesmo que sob chuva ou sem o auxílio de qualquer acostamento. Com os olhos fechados e a cabeça apoiada no volante, eu esperava o tempo dela. Um tempo que ao menos, me permitisse dirigir alguns quilômetros até minha casa. Os amigos de faculdade que ali residiam, muitas vezes nos acolheram. Ainda assim, eu sentia vergonha. Vergonha por sujar seus banheiros. Banheiros de amigos. Banheiros da faculdade. Banheiros do trabalho. Banheiros do hospital. Às vezes, as enfermeiras do ambulatório não respeitavam a nossa relação. Ela pedia para ficar a sós comigo, para isso, me forçava a trancar as portas dos banheiros nos ambulatórios, as quais as enfermeiras batiam insistentemente para nos interromper. Era um ato de cuidado, mas ela não entendia assim. Imagino, que para ela, isso representasse o mesmo que um coito interrompido. Imagino que sim. Eu não podia livrar os efeitos da minha dor em paz. Não podia. Ela já me fez abandonar cinemas com filmes pela metade. Para atendê-la, já corri de festas e voltava em uma caminhada a pé pelas madrugadas sob sua companhia. Flanávamos pelas ruas. Eu cabisbaixo, evitando olhar para qualquer resquício de luz. Ela, guiando meus passos e me puxando pelas mãos ao encontro de minha cama. Me induzia a prometer que nunca mais iria para uma noitada. E eu me prometia, ainda que sob forjas. Conforme ganhava idade, tentava transmutar nossa relação. Precisávamos de alguma maturidade. Meu pai já não podia mais me acompanhar em jogos de futebol. Nem em competições de natação. Isso, de certo modo, antecipou minha vida adulta. Nasci a fórceps. Assim, também, adentrei a vida adulta. Agora, era somente por mim e por minha mãe. Quando ela aparecia, ainda que com toda a discrição, minha mãe preparava um chá de camomila bem doce com biscoitos cream cracker. Essa era a receita do meu acalento. Acalentava minha dor e minha garganta, já calejada por refluxos. Ela me colocava para pensar também. Não foram poucas as vezes que me colocava em contato comigo mesmo. Uma espécie de autoanálise. Ao invés do divã, minha cama. Suas mensagens faziam as vezes dos postulados de Freud, Lacan, Jung. Mas eu era teimoso. Quando ela me dava uma brecha e ficava muito tempo sem me visitar, eu deixava o meu Id correr solto na pista. Ela, me chamava de volta para o meu Super Ego. Ela me privou de explorar melhor alguns territórios. Cachaça, junk food, excessos e privações de sono, drogas alucinógenas, M&D, café. Como que por um sentimento de compensação, ampliou meu contato com outros. Ioga, spinning, comida natureba, hábitos diurnos. Exaustivamente diurnos para alguém que sempre teve a essência notívaga. Ela permitiu minha descoberta sobre a toxicidade nos alimentos. Sim, muitos são tóxicos e não estou falando de agrotóxicos. Contém uma substância química nociva à saúde, o tal do glutamato monossódico. O chamo carinhosamente de Glu. Ela não lida bem com o Glu. Nem um pouco. E, esse tal de Glu pode estar presente até no misto quente da padoca que você frequenta. E, mal sabe, a maioria das pessoas, os efeitos que o Glu causa a longo prazo. Sou grato a ela por isso, reconheço.

Há quem diga que sua presença tem origem genética. Que mulheres são mais propensas a tê-la por perto. Teria, alguma correlação com o cromossomo X. Ainda, no caso delas, teria associação com as oscilações hormonais. Não sei. Eu nasci homem. Biologicamente, poderia ter desviado de seu encontro. Fui, no entanto, contemplado. Talvez por isso nunca tenha ganhado nenhum sorteio nessa vida. Mega sena, loto fácil, sequer em bingo de quermesse eu já fui felizardo. Ao ver o garoto triste, meus pais acabavam comprando aquelas grandes bolas coloridas que tanto seduzem as crianças nas festas juninas. Compravam, já que tinham prejuízo com jogos de sorte. Há, também, quem diga que ela tem origem comportamental ou ambiental. Que apareça com maior ou menor frequência de acordo com hábitos e estilos de vida. Neste sentido, até o que você come ou bebe pode trazê-la para perto. Melancia, abacaxi, limão, cerveja, queijos, vodca, vinho, café, refrigerante de cola, embutidos, temperos de macarrão instantâneo, chocolate. Chocolate! Já pensou ficar sem chocolate? Que tortura. No meu caso, percebi que ela aparecia quando eu consumia aqueles salgadinhos sabor queijo, bacon ou cebola. Só o sabor, já que não vai nada de natural naquilo. São forrados de Glu. Já fui viciado nesses pequenos pedaços de isopor comestíveis com odores marcantes. Ah, quando eu consumia esses snacks com cheiro de chulé, ela aparecia, sem ser convidada. Muito deselegante. Também percebi isso com alguns tipos de sorvete, especialmente aqueles bem gordurosos de sorveteria barata. Já ouvi dizer que é por conta do emulsificante. Um produto que serve para dar liga a substâncias que naturalmente, não teriam. Se for isso, acredito que também deva emulsificar algo no meu cérebro. Algo que me causa enjoo. Enjoo e alguns formigamentos e dormências. Formigamento na boca, nas mãos, nos pés. E, dor. Ah, muita dor. Causa, também, uma terrível perturbação visual, sensorial ou motora que antecede a dor. Apesar de transitória, essa perturbação parece nunca ter fim. Uma das sensações é semelhante àquela quando utilizam flash para uma fotografia. Daí, minha fobia de flashes. Saio correndo quando vejo um. Ela também deixa os cheiros marcantes. Quando ela está comigo, sinto apenas o cheiro do cloro ao deixar a água escorrer por uma torneira. Chega a parecer estéril, tamanha cloração. Ainda, quando a melhor das fragrâncias de um perfume se torna insuportável. Ela não gosta que tirem o seu charme. Não gosta. A ciência resolveu denominar esse fenômeno de aura. Esse lado obscuro dela. Penso que tenha lá algum teor místico ou angelical nisso. Angelical e paranormal. Já me senti assim até entender um pouco como meu corpo funciona. Ao menos, de acordo com o que nos diz a ciência médica ocidental. O oriente, certamente lida com ela de outra forma. Assim como tribos nativas. Até à genialidade ela já foi associada. Ainda, tem vezes que ela não aparece de sopetão. Prefere ser educada. Costuma avisar horas ou mesmo dias antes que ela apareça. Desejo exagerado de comer doces, bocejos excessivos, aumento da sede e até mesmo dificuldade em se concentrar. E, depois que ela aparece, gosta de deixar algumas lembranças, seja um cansaço anormal, sejam aquelas dores incomodas quando você abaixa. Acho que ela faz isso só pra se certificar de que não quer ser esquecida. Temperamental ela.

Essa companheira insiste em tumultuar a dinâmica dos meus neurotransmissores. E como insiste. Ao invés de reprimi-la, como fazia antigamente, eu a convido para um passeio bem intimista em um quarto escuro no qual nos conhecemos melhor. Com essa aula prática de autoanálise, ela me oportunizou reconhecer a dor e canalizá-la por meio da observação, da leitura ou, ainda da redação. Depois que ela se afasta, evidentemente. Quando estamos juntos, não tenho o que fazer senão aceitá-la. Por ela, hesitei em viajar. Tinha muito medo de passar mal longe de casa. Por ela, também, criei coragem para vencer esses medos. Por ela, acessei a arte. Acessei, inclusive, a partir de alguns amigos em comum. Sim, temos alguns amigos famosos em comum, já que ela não faz distinção entre anônimos e famosos, mulheres e homens, ricos e pobres, caucasianos, negros, índios, orientais. Ela não faz diferença se você come macarrão instantâneo ou faisão. Dizem que foi ela quem inspirou o país das maravilhas de Alice. A ansiedade do coelho, as cores, a sensação de queda de Alice, as distorções de tamanhos e espaços, parece que todos foram orientados por ela. Dizem, também, que foi contemplada em telas de Van Gogh, como em La nuit étoilée (A noite estrelada). E não é que fui até a terra desse camarada para conferir sua potência, pessoalmente. Potência da nossa amiga em comum, quero dizer. Quantas telas, cores, matizes. Quantas texturas e movimentos conduzidos pelo medo, pela dor. Gestos que possibilitam a escuta em um mundo de surdos. Ensejam a visão em um mundo de cegos. Gestos em uma época em que não se ouvia falar em paroxetina, amitriptilina, venlafaxina ou piridoxina. Topiramato e rizatriptana, nem em pensamento. Gestos de uma dor. Gestos de clamor. Gestos de genialidade. Passadas quase três décadas de uma relação de altos e baixos, hoje entramos em um consenso. Um pacto, eu diria. Eu a respeito e ela não é invasiva comigo. Não sou lá muito fã de regras, de normas, de prescrições. Então, sempre que posso, dou lá meu jeitinho de trapacear nosso acordo. Ela que não me ouça. Quando ela descobre, vem com tudo. É rancorosa. Vingativa. Já levou muita gente à morbidade. Apesar dos pesares, estamos em uma fase equilibrada. Procuro ser gentil com ela. Até homenagens já fiz. Sinto que ela me recompensa. Sinto de verdade. Deixo que ela fique distante, sem ignorá-la. Respeito sua ausência, sem desprezá-la. E assim temos consumado nosso acordo, ainda que sujeitos a oscilações e dissidências. Como tudo na vida. Como tudo na vida.

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Juntos, superamos várias crises. E, veja você, neste ano completaremos Bodas de pérola. Um ano muito especial para nós. Estamos felizes. Felizes por chegarmos tão longe juntos, apesar de tudo.


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