os caminhos do pertenc-(s)er-se

Para se fazer caminhos é essencial sentir-se, buscar-se e pertenc-(S)er-se.

Veruska Queiroz

Psicanalista, escritora, consultora de estilo e de moda, consultora de decoração, lifestyle coach, uma apaixonada por pessoas, pela arte do viver, por cultura em todos os seus segmentos e por todas as expressões de artes. Sou muitas de mim e uma aprendiz de infinitos...

A Chama da Transformação

Freud dizia: "Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim". É na subjetividade literária, dramática, densa e, ao mesmo tempo, em levitação e graça que o mistério da condição humana encontra raízes e asas. É ali o lugar onde ele é celebrado. A poesia da vida é o fogo que transforma. A condição humana acontece no enigmático, no obscuro, no indizível, no mistério.


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Dentro da perspectiva da literatura, impossível falar de transformação, da chama dessa transformação, sem lembrar do genial literato e escritor Rubem Alves e seu texto "A Pipoca", segundo o qual, as pessoas seriam mais ou menos como o milho de pipoca, no que tange às transformações. Assim como o milho de pipoca duro que passava pelo fogo – segundo o autor, o fogo é a grande transformação da vida, em vários âmbitos da existência – e transformava-se na pipoca branca e macia, assim também éramos – ou deveríamos ser – nós todos. Deveríamos passar pelo fogo da vida – as adversidades, o autoconhecimento, as nossas buscas, travessias e descobertas internas – para transformamos-nos e termos um novo olhar diante de nós mesmos e do mundo. Também vem à memória imediatamente uma frase de um humanista, filósofo e também escritor, Étienne de La Boétie, em seu "Discurso da Servidão Voluntária", onde ele dizia "Porque o fogo que me faz arder é o mesmo que me ilumina", numa alusão à transformação da tirania em liberdade.

Em literatura, na natureza e em nós mesmos, transformação é uma das molas mestras da vida – ainda que pareça clichê e algo que todos fazem. Sim, a transformação em muitos âmbitos da vida é inerente a todos e faz parte da própria condição humana. Podemos observar as nossas transformações de tamanho, da textura da pele, das feições do rosto e de várias outras questões do mundo que nos cerca. Tudo está em transformação permanente. A vida transforma-se pelos dias e noites, pelas estações do ano, pela natureza e pelo próprio ciclo de renovação da vida. Os problemas podem surgir quando falamos das transformações internas. Transformação é renovação. Quem não se renova, quem não se recria e quem não se reinventa, não pode sair - porque talvez nunca esteve dentro - nem de si mesmo, nem para a vida e não pode transformar nada. Mas é preciso sair e é preciso transformar. Depois de ter estado dentro, é preciso sair. É preciso romper barreiras, quebrar paradigmas, reinventar as regras do jogo. É preciso mover as pedras para não criarem lodo e limo. É preciso sair do cômodo, do confortável, do conhecido. Só assim se cresce e só assim a transformação acontece. O bebê precisa romper a bolsa que o guarda, a semente precisa romper a terra, o broto precisa fazer força para florescer, os animais precisam quebrar a casca para saírem, a Terra precisa sair do lugar, movimentando-se, para o sol chegar a todos os lugares e assim fazer a vida continuar. Sair e transformar são a continuação da vida, ainda que seja preciso estar dentro primeiro para criá-la. Não importam quais caminhos e quais transformações façamos, mas há uma verdade incontestável em todos eles, ou seja, os caminhos nunca são em linha reta. As retas cansam. E não encontram-se com mais nada em sua trajetória. Não há novidades na reta. O que pode haver é alguma estabilidade, mas estabilidade é perder a graça de ter graça na vida. Estabilidade é bom para o concreto, para o metal, para o asfalto. Vida humana não é feita de concreto, nem de metal e nem de asfalto. Vida humana é feita das curvas das transformações.

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É necessário que as transformações e suas lições entrem em nós, arranhem e acarinhem nossas entranhas e encontrem um ninho. Ninho este, já de muitas formas preparado por nossas vivências e subjetivações, mas que precisa ser rearranjado de tempos em tempos para seu melhor alinhamento e aconchego. Afinal, ninho refere-se à casa, a um lugar de abrigo, de recolhimento, de acolhimento. As transformações e as lições que se fizerem necessárias em nossas vidas precisam encontrar este ninho. E não somente encontrá-lo, mas aprender a sair dele e a retornar, sempre que necessário, quantas vezes forem preciso. Para as transformações é imprescindível também aprendermos a desembarcar de nós mesmos para melhor nos olharmos, olharmos as paisagens, o que nos cerca, quem entra e sai em cada estação, quem está chegando, quem está somente de passagem, quem está indo embora. É preciso desaprender para aprender de novo e aí sim embarcarmos novamente, em um trem renovado, recriado e transformado.

Transformação é vida. Transformar é despir-nos de tudo e de nós mesmos, nos restarmos nús diante de nós mesmos, nos olharmos por dentro. Transformar é penetrarmos em nossas entranhas e ir arrancando nossas vísceras, nosso sangue e irmos até o osso da alma para sentirmos e sabermos - e nunca mais esquecermos - do material do qual somos feitos. Transformar é arrancar a carne, ficar em carne viva, doer, sangrar, deixar cicatrizar, sarar, criar nova pele, renovar a carne para, mais tarde, arrancá-la de novo e de novo e muitas vezes, pois a transformação é a única coisa que não muda na vida. É preciso morrer para nascer. É preciso retirar as ruínas e entulhos para reconstruir. É preciso a noite escura para o amanhecer. É preciso que as folhas caiam para a natureza se renovar e florescer novamente. Uma omelete não pode ser feita sem que os ovos sejam quebrados. Peças maravilhosas em ouro nada seriam se o ouro não precisasse ser derretido e fundido. A borboleta não existiria se sua fase de larva não passasse por uma transformação. Mas transformar é, sobretudo, irmos ao fundo de nós mesmos, nos recônditos mais profundos e indecifráveis de nossa alma e ali ficarmos até descortinarmos todos os véus, até que a alma grite tão alto ou silencie tão encerrada em si mesma que não veremos outra coisa a não ser nosso verdadeiro eu.

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Enfim, lembrando o grande jornalista e escritor, Eduardo Galeano e exaltando sua genialidade e, ao mesmo tempo, sua simplicidade, um sonhador realista que não tinha medo de suas utopias e as faziam bem reais a olhos mais atentos, falar em transformação é falar da chama da vida, da chama que nos mantém vivos. Galeano falava da transformação como a maior grandeza da vida. É preciso que nos coloquemos à disposição dessa grandeza. Não é o grande, mas a grandeza que importa. Não é quantidade, mas a qualidade. Não são os muitos, mas os verdadeiros - em todas as esferas da vida. Não é amontoar-se de coisas externas e viver em função delas - na ilusão de que elas irão preencher a vida. Não irão. Quem muito precisa preencher a vida de coisas externas, sem medidas e sem muito critério, na verdade está tentando preencher o vazio de dentro - e ao que parece, a maioria esmagadora está falhando feio nisso. Por isso não são as coisas grandes e as grandes coisas que importam. É a grandeza. É a capacidade de transformar tudo, embelezar a arte da vida e a grandeza por viver que é essencial. A vida é feita de detalhes. A vida é feita por dentro, onde estão as verdadeiras e primeiras transformações. A vida é feita de transformações que as pessoas podem fazer com suas estórias. A vida é feita de estórias e de pessoas que, transformadas, possuem consciência de si, do outro e da vida que as cercam. A vida é feita de pessoas que possuem luz, fogo e a chama da transformação.


Veruska Queiroz

Psicanalista, escritora, consultora de estilo e de moda, consultora de decoração, lifestyle coach, uma apaixonada por pessoas, pela arte do viver, por cultura em todos os seus segmentos e por todas as expressões de artes. Sou muitas de mim e uma aprendiz de infinitos....
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