os caminhos do pertenc-(s)er-se

Para se fazer caminhos é essencial sentir-se, buscar-se e pertenc-(S)er-se.

Veruska Queiroz

Psicanalista, escritora, consultora de estilo e de moda, consultora de decoração, lifestyle coach, uma apaixonada por pessoas, pela arte do viver, por cultura em todos os seus segmentos e por todas as expressões de artes. Sou muitas de mim e uma aprendiz de infinitos...

A Estética da Existência

A palavra ética é derivada do grego, e significa aquilo que pertence ao caráter. Neste contexto, podemos compreender a ética como um amplo aspecto à serviço das condutas do nosso dia a dia, da postura de vida que cada um adota que irá definir , de certa forma, o lugar que cada pessoa ocupa no espaço social e como de fato é sua dinâmica pessoal, sua essência envolta pelos comportamentos que compõe a formação de seu caráter.


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A ética em sua acepção mais abrangente, a priori, como era conceituada pelos filósofos da antiguidade é o estudo dos princípios que permitem aos seres humanos viver uma boa vida, ou melhor dizendo, uma vida onde algumas normas estabelecidas através dos bons princípios era o cerne da questão. Mais tarde e atualmente dispõe-se a ética, em termos gerais, um fator mais restritivo - mas não completamente na contramão do que já existia - ou seja, o modo como “temos o dever de agir”. Não como um enquadramento, mas como um viés por onde é possível estabelecer convivências sem que entremos em uma torre de babel.

Não há como falar de Ética, sem lembrar de uma citação de Pierre Reverdy: "A ética é a estética de dentro" e, consequentemente, essa questão nos leva também à Michael Foucault, com o qual igualmente concordo: "A ética é, em primeira e última instância, um modo de relacionamento do indivíduo consigo mesmo. É o cuidado de si. A ética é criação de e a partir da liberdade e o indivíduo é uma obra – obra de si mesmo, obra de arte." Quanto mais o indivíduo desenvolver essa ética, mais consciência terá de si mesmo e maior será a sua "estetização", portanto, mais abrangente e melhor será também a concepção desse indivíduo sobre a estética da existência de um modo geral e da vida. Na estética de dentro onde Reverdy situa a ética, que é também a estetização da qual nos fala Foucault, entende-se como tudo aquilo que sentimos, pensamos e todas as nossas atitudes que nascem de uma estética interior de valores, de constituições subjetivas interiores a priori. É uma questão de ser ou não ser. E não há meio termo em ser. Quem não possui a estética de dentro ou quem não constrói essa estética de dentro, não possui e nem consegue construir a ética de fora, pois essa ultima é necessariamente o reflexo da primeira.

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Essa forma de pensar a ética pessoal estaria desvinculada de qualquer tipo de esteticismo da aparência, do físico e do material. Ao contrário, este esteticismo está ligado diretamente à essência, aos valores e padrões internos de cada um, ou seja, a escolha de uma determinada forma de vida baseada na estética da existência. Estética esta que não se produz em meio ao nada ou em meio à "cultura do vale tudo", mas num espaço determinado no qual algumas escolhas são possíveis e outras não são, porque é preciso que estejamos sempre atentos ao amplo leque de posturas e movimentos do tecido social, que passa pelo pessoal em primeiro lugar, senão não seria possível situar-nos em nenhum modo de convivência.

Dessa forma, a estética da existência, caracterizando o cuidado consigo mesmo e com o outro, caracterizando a civilidade e nos levando ao exercício constante da transformação da existência, define as condutas e os critérios estéticos e também éticos do bem viver - pessoais e sociais, sendo que os pessoais são fundamentais, pois quem não constrói dentro, não possuirá fora. Falando em civilidade, o termo vem da palavra "civitas", que quer dizer cidade. Tem civilidade, portanto, aquele que sabe viver "na cidade", em organizações sociais, culturais e humanas onde existem e deveriam prevalecer alguns códigos e valores morais, bem como a educação, o respeito, a elegância de ser e de estar no mundo e a ética, que nada mais são do que aquilo que já temos - ou deveríamos ter - esteticamente internalizados e que formam nossa subjetividade, pela qual perpassará sempre a formação auto referencial do nosso psiquismo.

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Lembrei-me de Costanza Pascolato que, em certa medida, para um olhar mais atento e refinado, corrobora em várias nuances com a estética da existência de Foucault: "... Elegância é, na definição literal, o requinte que distingue a postura correta, o refinamento natural. Elegância é apuro do porte e das maneiras. Tem muito mais a ver com aprimoramento pessoal do que com aparência. Ser elegante é, em última análise, uma questão existencial, de como você pensa sua vida, como se coloca no mundo." Ética é como Estilo e elegância. É uma marca única, pessoal e intransferível. Não se compra, não se vende, não se ganha, não se pede emprestado, não se adquire, não se copia. Ou se tem ou não se tem. Ética é a diferença entre a luz e a sombra, entre o passo e o rastro, entre quem irradia de quem apenas reflete. É o tudo e o todo. Ética é a diferença e a diferenciação no meio de iguais. É a marca do inigualável, do incomparável, do irrefutável, do inesquecível.

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Enfim, a estética de dentro de cada um de nós, o que temos como fundamental em nossa formação como seres humanos, aquilo que é nossa essência, nosso caráter, nossa forma de ser e de estar no mundo, nossos sentimentos, nossos pensamentos e principalmente nossas escolhas e nossas atitudes são nossa ética. É o que somos e possuirmos por dentro e, fatalmente é o que será visto do lado de fora, pois o que possuímos ou não em nossa essência como ética é o que dirá, irrefutavelmente, sobre quem somos, sobre qual é a nossa postura de vida e sobre quais condutas nos alicerçam.


Veruska Queiroz

Psicanalista, escritora, consultora de estilo e de moda, consultora de decoração, lifestyle coach, uma apaixonada por pessoas, pela arte do viver, por cultura em todos os seus segmentos e por todas as expressões de artes. Sou muitas de mim e uma aprendiz de infinitos....
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