os caminhos do pertenc-(s)er-se

Para se fazer caminhos é essencial sentir-se, buscar-se e pertenc-(S)er-se.

Veruska Queiroz

Psicanalista, escritora, consultora de estilo e de moda, consultora de decoração, lifestyle coach, uma apaixonada por pessoas, pela arte do viver, por cultura em todos os seus segmentos e por todas as expressões de artes. Sou muitas de mim e uma aprendiz de infinitos...

Asas e abismos

Começo lembrando Nietzsche em sua belíssima obra "Assim Falou Zaratustra": "É preciso ter asas quando se ama o abismo." O abismo é a nossa profundidade, é a nossa imensidão, é o desconhecido, é o caos primitivo antes da luz...


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O abismo é a parte obscura, sem fundo e mais profundo de nós mesmos. Há quem nunca sequer cogitou a possibilidade de saber sobre seus abismos. E há os que, com muita coragem e ousadia, ficam nas pontas dos pés, dançam, rodopiam, saltam e se atiram. Sim, é preciso mesmo muita coragem, ética, dignidade, determinação e ousadia – diferente de prepotência ou de arrogância, porque, atualmente muitas pessoas andam a confundir essas três questões - para amar os abismos. É preciso querer e desejar - há uma grande diferença entre ambos - conhecer essa imensidão, essa profundidade que são nossos abismos, nossa profundidade. É preciso querer e desejar conhecer e caminhar por nossas trilhas internas, nossas florestas densas, nossos poços, nossas águas turvas. Somente indo ao fundo de nós mesmos, aos nossos abismos é que poderemos contemplar a claridade, olhar olho no olho da luz sem nos cegarmos e sem querermos nos sobrepor a ela. Apenas deixá-la ser parte de nós, de nossa essência, de nossa alma. Impossível aqui não lembrar Rubem Alves, falando de abismos, morangos e sua premissa sempre presente: Carpe Diem, que é tão profundo quanto irmos ao fundo de nós.

Mas, para tamanhas profundidades e imensidão, para amar os abismos, dançar em sua beirada e atirarmo-nos nele é preciso, sobretudo ter asas. E tem asas quem não tem medo de errar, de acertar e de errar de novo e de tentar e tentar até acertar, não importa quando e quantas vezes, com beleza, com luz de dentro, com essência. Tem asas quem olha no olho, quem planta jardins, quem diz sim quando tem vontade - mas sabe que isso significa responsabilidade, maturidade, comprometimento e respeito por si mesmo, pelo outro e por tudo o que é vida - e quem aprendeu a dizer e a ouvir não quando é preciso, aceitando tudo como parte da vida e da condição humana, com maturidade, inteligência, beleza e leveza.

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Tem asas quem aceita-se e aceita o outro e tudo o que é do mundo com a mesma naturalidade com a qual abre os olhos quando acorda - esse aceitar o outro e tudo o que é do mundo não quer dizer concordar com tudo e muito mesmo significa aquela falsa bondade de quem acha que "ser bonzinho" praticando o que o senso comum e a sociedade consideram atos bons garantirá seu lugar no céu. Tem asas quem aprendeu a conviver com as próprias limitações e entende as limitações alheias sem pedir ao outro o que ele ainda também não tem condições de oferecer e quem aprendeu a escolher se quer ficar ou se afastar de situações como essa sem fazer nenhum drama épico por isso. Tem asas quem, mesmo com medo de uma coisa ou outra, vai lá, busca, luta de forma bonita e ética, enfrenta, supera as adversidades com beleza e dignidade e faz o que deseja e quer ou pelo menos tenta com tudo o que lhe é possível.

Tem asas quem aprendeu a desembarcar de si mesmo, a remover as camadas de tinta velha para restaurar-se e quem aprendeu a (re)embarcar em si quantas vezes forem necessárias depois dos muitos desembarques. Tem asas quem aprendeu a se reinventar, a recriar a si mesmo e à vida, mesmo com todas as dores, frustrações, decepções e tropeços inerentes à vivência humana. Tem asas quem entende que, da mesma maneira que existem as dores, existem as alegrias; da mesma maneira que existem as frustrações, existem as superações, da mesma maneira que existem as decepções e os tropeços, existem as surpresas agradáveis da vida e podemos sempre levantarmos de todos os tropeços. Tem asas quem aprendeu que talvez não se possa escolher qual música tocará na vida, mas pode-se escolher sempre como se irá dançar e sabe exatamente quais os passos deseja dar. Tem asas quem transforma experiências ruins - depois de elaborá-las e conseguir melhor lidar com elas - em opções boas de aprendizado e de ações.

Tem asas quem olha nos olhos e sorri com eles, daquela forma sincera e aberta à vida e à arte de viver. Tem asas quem abraça com um abraço inteiro. Tem asas quem é inteiro. Tem asas quem ama de e com alma. Tem asas quem questiona, quem não se acomoda, quem busca algo novo todos os dias - pois todo dia é novo e nós somos novos a cada dia novo que nasce. Tem asas quem sente-se e sente a vida com o corpo e alma inteiros, quem tem ânsia por essa vida sempre a nos trazer milhares de possibilidades. Tem asas quem ama e respeita a si mesmo, quem respeita o outro, quem ama a vida, quem ama viver, quem ama dançar, sorrir, brincar, quem pula, quem salta e entrega-se. Tem asas quem recria-se e renova-se sempre, recriando a vida com toda a sua beleza, magnitude e elegância de ser e estar no mundo. Tem asas quem vai fundo, pula de cabeça e não tem receio de despir-se de si mesmo, a sós consigo mesmo, com coragem para olhar dentro de si mesmo, buscar-se, conhecer-se e descobrir-se, mudar se necessário for, para, com liberdade, maturidade, consciência, responsabilidade e ética fazer suas escolhas e poder ser o dono de suas atitudes, que dirão sempre quem é quem nos abismos da vida e nos voos dos que ousam abrir suas asas e lançá-las ao imprevisto e imprevisível da vida.

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Tem asas quem, depois de buscar-se, de engolir-se, de mergulhar-se, de atravessar-se e de descobri-se, conseguiu um dos maiores atos de coragem e de vida que um ser humano pode ter em relação a si, que é pertence-se a si mesmo. Tem asas quem sabe que só se pode pertencer-se a si mesmo quem aprendeu a ser de dentro para fora, que aprendeu que só se pode construir-se, reconstruir-se, recriar-se, reinventar-se e renovar-se de dentro para fora, pois a magia está dentro e é sempre de dentro para fora. Tem asas quem ama o voo. Tem asas quem sabe voar. Tem asas quem ama o abismo...


Veruska Queiroz

Psicanalista, escritora, consultora de estilo e de moda, consultora de decoração, lifestyle coach, uma apaixonada por pessoas, pela arte do viver, por cultura em todos os seus segmentos e por todas as expressões de artes. Sou muitas de mim e uma aprendiz de infinitos....
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