os caminhos do pertenc-(s)er-se

Para se fazer caminhos é essencial sentir-se, buscar-se e pertenc-(S)er-se.

Veruska Queiroz

Psicanalista, escritora, consultora de estilo e de moda, consultora de decoração, lifestyle coach, uma apaixonada por pessoas, pela arte do viver, por cultura em todos os seus segmentos e por todas as expressões de artes. Sou muitas de mim e uma aprendiz de infinitos...

O sufocante e chatíssimo "politicamente correto"

O discurso e o modo de atuação do "politicamente correto" é o discurso mais aprisionante que já conheci ou tive notícias. O "politicamente correto" é o que há de mais engessado na vivência humana, um retrocesso na liberdade do ser humano – naturalmente, liberdade esta acompanhada de respeito a si mesmo, ao outro e a tudo o que permeia e é inerente à condição humana. O "politicamente correto" nos aprisiona e nos torna a todos coisas. Coisas que tem de ser colocadas em caixas devidamente separadas por "categorias" e etiquetadas. Uma hora alguém arrebenta a caixa por falta de ar. Não se vive sem ar...


bailarina na janela Agnaldo Passos1.jpg

A vivência atual do "politicamente correto" que, penso eu, precisa ser revisto com certa urgência, este - o "politicamente correto" - está deixando as pessoas todas iguais, como manequins de vitrine e soldadinhos de chumbo, onde não podemos mais ser espontâneos, nem falarmos o que sentimos, nem emitirmos uma determinada opinião que reflete apenas uma questão de gosto pessoal ou algo de foro íntimo que temos o direito de sentirmos, de pensarmos e de externamos como sempre foi feito, nem nos expressarmos com autenticidade, nem tampouco discordarmos de alguém ou de alguma coisa do que se criou como "politicamente correto" que logo somos rotulados de esquisitos, prepotentes, arrogantes e tentam desqualificar nossos sentimentos, nossos pensamentos, levando-nos a suspeitarmos que estamos errados. E não, não estamos. Pelo menos se fazemos tudo isso com respeito ao outro e a todas as diferenças existentes na vida tão humana de todos nós. Não estou falando de sermos inadequados, grosseiros ou falarmos o que bem entendermos. Isso é o contrário de civilidade, educação, respeito a si mesmo e ao outro e contrário à elegância de ser e de estar no mundo. Estou falando de podermos ser nós mesmos, podermos nos expressar com naturalidade, podermos ser mais verdadeiros conosco e com o outro, respeitando os limites que sempre houve de convivência, como sempre aconteceu, sem sermos tachados disso ou de aquilo. Está um horror e já passou do ponto essa salada sem graça dos rótulos e do falseamento do tão falado equilíbrio que os politicamente corretos "pregam" e dizem possuir. Com licença poética, já dizia um grande escritor ... "como é admirável o que não conhecemos bem."

Quem diz sobre equilíbrio do "politicamente correto" como se fosse o grande prêmio da vida a ser conquistado deve ter faltado às aulas de física ou o que falta seja a ausência de boas experiências de vida e boas vivências, daquelas com direito a tombos, trombadas, machucados, arranhões e hematomas, pois o "politicamente correto" que faz ecoar aos quatro ventos esse equilíbrio esqueceu-se – ou não sabe mesmo - que não é o equilíbrio que nos mantem vivos. Equilíbrio pressupõe algo inerte, imóvel, estável. O que nos mantem vivos é o movimento, as mudanças, as buscas, o salto, os passos de dança, o coração pulando para fora do corpo, a alma em chamas, os olhos sorrindo brilhantes, os sorrisos valsando no grande salão onde a orquestra afinada espalha melodias ao ar. O equilíbrio é a morte, o fim, o nada além. O desassossego, o movimento, as buscas, as travessias, as imensidões, as asas e os voos, as inquietações, as loucuras sensatas e a insensatez desarvorada e lúcida são o que move um ser além de si mesmo, não cabendo no mundo e tendo o mundo inteiro em si.

de cabeça p baixo copy.jpg

Essa vivência e as experiências dessa "nova modalidade de viver" – penso que seja mais de morrer lentamente e cruelmente - nos leva a refletirmos e a repensarmos os reais limites do correto – e do que realmente pode ser dito como incorreto em uma sociedade a ponto de se criar algo tão limitante e controlador - do exagero deste correto e dos abusos dos limites do "politicamente correto" que, muitas vezes, apresenta-se como um tirano cerceador da liberdade de ser, de estar, de expressão, dos discursos e dos embates enriquecedores - na medida em que ambos os lados do embate coexistam de forma respeitosa, eles podem sair extremamente acrescidos de conteúdos e pensamentos - e talvez de novos olhares e novas perspectivas sobre o próprio embate e sobre ideias – as velhas, as novas e as que, com alguma sorte, entrarão na quarentena das reflexões. Para acabar com qualquer discussão de forma a não oferecer ao outro a mesma liberdade de expressar-se, talvez por receio de uma menor habilidade de argumentação sobre opiniões divergentes, o "politicamente correto" impõe um discurso unilateral onde existe somente ele e ponto final.

Fora do que existe dentro do que se considera "politicamente correto" é levado ao extremo como errado, como aberração, como ofensa, como agressivo e, não raro é atacado. É chatíssima essa postura, pois ela cerceia as escolhas, os gostos pessoais, a liberdade de ser o que se é e de se dizer o que se pensa, desde que, como deve ser na prática da civilidade, o respeito seja uma premissa sempre e não prejudique o outro e também sua liberdade. Sobre liberdade, o tão falado ultimamente discurso de ódio – que, na fala às vezes meio torta de quem o detém, mas não o domina, pois o termo banalizou-se, vulgarizou-se e perdeu sua contextualidade - seria o contrário da liberdade de expressão e surge exatamente no momento que em há esse aprisionamento das pessoas em um molde, em um caixa de papelão que o "politicamente correto" vai sorrateiramente colocando as pessoas. Naturalmente, em relação ao discurso de ódio, falo do que o senso comum cultua e não estou falando aqui da violência urbana e social que o contém e nem das causas das mesmas, pois esse é o campo do saber dos sociólogos e dos especialistas em estudos sociais, políticos e econômicos, já que há uma intrínseca ligação entre essas questões.

politicam incorret3.1.jpg

Sobre esse tal "politicamente correto", de certa forma e em certa medida, há que surgir um posicionamento, se não do seu contrário, pelo menos uma recriação severa do que vem a ser a base desse modelo, pois não há nada mais perversamente limitante do que esse mostro rastejante do "politicamente correto", que faz uma colagem nas pessoas que as tornam todas iguais e eternos reclamadores de tudo o que vai contra ao que se estabeleceu como norma desse "modelo".

Dentro dessa visão, todos passaram a ser vítimas e coitados de acordo com os "códigos de comportamento politicamente correto", pois tudo diferente desses "códigos" ofende, tudo melindra, tudo não pode, tudo é considerado reacionário, sexista, agressivo, separatista, errado e coisas do gênero. Todos que não se "enquadram nas normas" são considerados como possuidores de pré-conceitos que, muitas vezes não existem de fato( e outras vezes sim, como tudo na vida) e estão sendo confundidos frequentemente com opiniões e gostos pessoais que todo ser humano tem o direito de possuir. E o mais cruel e letal, ou seja, tudo isso levado à potência máxima para o lado pessoal, sentido como uma crítica destrutiva e passamos todos, dentro dessa visão do "politicamente correto" a precisarmos medir muito bem as palavras, organizarmos o que pensamos – como se quase tivéssemos de pedir permissão para pensarmos, para falarmos e para emitirmos nossas opiniões - pois, qualquer mínima fala, qualquer mínima opinião normal que todo ser humano tem o direito de emitir, qualquer mínima manifestação de gosto pessoal, pensamento ou manifestação de ideias pessoais, mesmo sem que nenhuma dessas questões prejudiquem ou desqualifiquem nada nem ninguém podem ser considerados "fora do padrão do politicamente correto" e, portanto, considerado agressivo, ofensivo, um ninho de preconceitos, ameaçador e errado.

Ou seja, deixamos de poder ser nós mesmos em essência para sermos quase um nada e passamos a ter de ser, fazer e falar tudo para sermos "politicamente corretos", ou seja, tudo somente para agradarmos, para não destoarmos dos outros, para sermos aceitos, para sermos amados, para ficarmos bonitinhos na foto, mesmo que seja tudo uma grande farsa - o psicanalista Joel Birman fala sobre este tema belíssimamente bem intitulando-o como "Fome de Amor". E aí tem-se que o "politicamente correto" é o que há de mais engessado, hipócrita, chato e enjoadíssimo - pois cria a ilusão de que o ser humano pode "fugir da realidade da vida" com todas vicissitudes próprias da condição humana e do cotidiano de todo ser vivente. E, de fato é o que parece acontecer, ou seja, o "politicamente correto", parece vir justamente para demarcar essa fuga da realidade, onde ela – a realidade - não deixa de existir somente por não ser reconhecida tal como é, mas viabiliza essa saída, quando não se posicionar, não ser sincero, não emitir opiniões – principalmente se forem divergentes de uma certa parcela ou de uma grande maioria - passou a ser visto como algo equilibrado, grandioso e "politicamente correto". Nunca algo foi tão "politicamente INcorreto.

politicam incorreto1.jpg

O "politicamente correto" nessa vida tão "incorreta" no sentido de que a vida não é um bibelô na sala de estar intocável é exatamente a surpresa, o imprevisto, o imprevisível da arte de viver que faz com que nos sintamos vivos com sangue correndo em nossas veias e não como bonecos de cera expostos no museu. A realidade é que a vida não tem manuais para que alguém queira utilizar o quase "auto ajuda" que o ritual do "politicamente correto" prega e coisifica, este que banaliza, que barateia e desqualifica imensa e irremediavelmente o ser humano. O ser humano que é - ou deveria ser - um ser inteiro, um ser que pensa, que fala, que tem opiniões, que tem ideias e pode expressar-se com todas as possibilidades em si para desenvolver-se livre de rótulos e desse cerceamento da liberdade que acomete atualmente a vivência humana com "a era do politicamente correto".

Uma terrível "era" que deixa esse ser humano vazio, fazendo-o um personagem, tentando a todo custo não deixando-o confrontar-se consigo e com o seu viver, não deixando-o questionar-se e nem questionar a vida, aceitando ser o boneco de cera que pensa, fala e age igual a todos, encarcerado em si mesmo, preso na caixa etiquetada, já que o "politicamente correto", sendo imensamente castrador, precisa "deixar tudo como está", não oferecendo riscos nem condições desse ser humano sair da aparentemente bela, mas mofada e feia zona de conforto e nem dando condições a ninguém para trazê-lo para a realidade da vida e para a sua realidade e, com isso, esse monstro que aprisiona e leva o ser humano para a solitária, vai lentamente, como veneno dado em doses homeopáticas, mortificando e dizimando sua liberdade e sua essência.


Veruska Queiroz

Psicanalista, escritora, consultora de estilo e de moda, consultora de decoração, lifestyle coach, uma apaixonada por pessoas, pela arte do viver, por cultura em todos os seus segmentos e por todas as expressões de artes. Sou muitas de mim e uma aprendiz de infinitos....
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Veruska Queiroz