os caminhos do pertenc-(s)er-se

Para se fazer caminhos é essencial sentir-se, buscar-se e pertenc-(S)er-se.

Veruska Queiroz

Psicanalista, escritora, consultora de estilo e de moda, consultora de decoração, lifestyle coach, uma apaixonada por pessoas, pela arte do viver, por cultura em todos os seus segmentos e por todas as expressões de artes. Sou muitas de mim e uma aprendiz de infinitos...

Viver somente, não basta

Qual é a saída para as pessoas que querem ver realizados seus sonhos mais íntimos, que não se limitam, que fogem dos estereótipos, que preferem as febres de uma vida vivida intensamente, mas com responsabilidade, ética, autenticidade, coragem e beleza à uma vida onde a maquiagem e o verniz social e também o pessoal, muitas vezes, são os personagens principais que tomam o lugar e invadem as questões dessa vida inteira, intensa e imensa, onde estão as verdadeiras realizações – muitas vezes adiadas e ou deixadas para lá – mas se escondem atrás da ilusão do comodismo confortável e do falseamento da própria felicidade e da própria vida?


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Todos temos sonhos, projetos, expectativas e perspectivas que, em vários momentos de nossas vidas não podemos realizar – temporariamente - por uma gama infinita de razões. No entanto, os sonhos, os projetos, as expectativas, as perspectivas e o desejo – também o querer – continuam lá e a vontade não murchou como uma velha bola esquecida, apenas espera condições em que poderá ser realmente colocada em campo novamente. Mas diferente disto é não realizarmos nossos sonhos e projetos, não buscarmos mudar algo que nos desagrada, não alterarmos a ordem ou virarmos a mesa, se necessário for, por questões de comodismo, covardia ou medo de sair da zona de conforto na qual estamos e vivemos. A vida é mutável. A vida é pulsante. Há momentos na vida – principalmente se não estamos satisfeitos com o que está a nos acontecer em um ou em diversos âmbitos de nossas vidas - em que precisamos ter coragem, ousadia e até loucura que seja, para mudarmos, para trocarmos de rota de for preciso ou para darmos uma reviravolta. Não dá para maquiarmos a vida para todo o sempre. Depois que as luzes se apagam no "teatro", a vida continua lá fora, com todos os atos, trocas de figurino, monólogos, diálogos, loucuras, medos, sonhos, aspirações, decisões a tomar, novos sonhos a sonhar, novas perspectivas que estão sempre mudando e é preciso que nos reinventemos sempre para enfrentarmos com coragem os imprevistos e mudar de caminho se for preciso com a mesma beleza, com a mesma graça, com a mesma garra, com a mesma ética, com a mesma dignidade de antes – para quem os possui, naturalmente.

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Mas infelizmente a maioria das pessoas querem garantias externas, precisam se aconchegar - mais do que se apegar, mas aconchegar mesmo - à utopia de qualquer forma de segurança, mesmo se esta for um aprisionamento do ser em lugares, situações, coisas e pessoas que não lhe fazem bem e podem até mesmo serem nocivas - como se a vida fosse linear e como se a segurança fosse a garantia de que tudo pode ser como um belo retrato da família feliz na sala de estar. Só que retrato não tem vida, os sorrisos nele são apenas pose e ele fica amarelado com o tempo, assim como essas pessoas que precisam viver na ilusão das garantias caquéticas e da segurança capenga. Até que a vida mostra-se como um sopro e todas as ilusões despencam e caem por terra, muitas vezes sem dar condições nem oferecer opções para essas pessoas saírem de lá - da terra, do chão.

Essas pessoas vivem de coisas e questões externas exatamente porque, para olhar para dentro vai ser preciso muita coragem para ver o que não está bem e fazer as devidas mudanças. Por isso tantas pessoas vivem a mudar quase compulsivamente o exterior. Não que mudar externamente seja um mal em si. Retirando o teor compulsivo, obviamente - e aqui não cabe e vou adentrar-me na conceituação psicanalítica do termo, levando em consideração somente a gramatical, para não estender-me em algo que não é a espinha dorsal do tema em questão - mudança - desde que não seja somente externa - é natural, normal e saudável – em suas conceituações de vida do dia a dia mesmo. Mas o fato recai sobre quem muda o que está externo – muitas vezes de forma exagerada e até compulsiva para não precisar olhar para dentro e mudar o pão bolorento. Ah sim, em maior ou menor grau, todos temos um pouco – ou muito - do pão bolorento dentro de nós. A diferença está entre ter coragem para retirar o bolor ou não e entre ficar se apresentando como a bela viola sem retirar esse bolor de dentro ou não. Essas pessoas que vivem das coisas e questões de fora, vivem a mudar de casa ou fazer reformas na que residem, a mudar os móveis e a decoração constantemente, quase de forma automática, a mudar o carro, a mudar de parceiros freneticamente - possuindo frequentemente também casos extraconjugais - a mudar o cabelo como quem troca de roupa, a mudar o físico com procedimentos estéticos, intervenções cirúrgicas ou até mesmo com anabolizantes, por não darem conta exatamente de mudarem o interior ou, muitas vezes porque o interior está tão degradado, tão feio, tão sujo que o trabalho para a limpeza e mudança seria de proporções estratosféricas e nem todos estão dispostos ou preparados para tal tarefa. Ou porque o interior está vazio e tristemente não há o que mudar, o que renovar. Como mexer em algo que não existe?

Então, as fugas ou as únicas saídas são ficar rodopiando em torno de si mesmo(a) como "João Bobo" e mudar as questões externas, muitas vezes de forma quase ininterrupta. Daí que as mudanças externas trazem a ilusão de transformação - ilusão apenas - pois a real transformação está dentro, é feita por dentro primeiro e é preciso força, coragem, honradez, ética e muita honestidade consigo para realizar um empreendimento tão grandioso – e lembremos que, quem não consegue ter honestidade nem consigo mesmo, fatalmente não conseguirá ter com nenhum outro, embora se consiga fingir e enganar o mundo e a si mesmo(a) por um determinado tempo, que é uma das piores coisas que um ser humano pode fazer a si. Impossível aqui não lembrar da Banda Legião Urbana, sucesso na década de 80, tendo como vocalista Renato Russo que era também compositor, em sua música "Quase sem querer"(1986) - "Como um anjo caído/ Fiz questão de esquecer/ Que mentir pra si mesmo/ É sempre a pior mentira"

Na vida não temos garantias nem segurança. Como nos lembra muito bem Chico Buarque, a vida é uma "roda viva". A roda gigante da vida gira, rodam os peões, o tempo roda num instante, giram os moinhos de vento e os ventos mudam de direção a todo momento. O que temos é um amontoado de expectativas, anseios, desejos, sonhos, idealizações(boas e ruins), alegrias e tristezas, erros e acertos, conceitos capengas, feridas emocionais, carências, imperfeições, algumas cicatrizes mal e outras totalmente bem curadas, ambivalências e lutas – externas e, principalmente internas. E, quem se dispõe a mais do que viver somente e simplesmente, deve – ou deveria - saber que a compra é feita do pacote completo. É claro que há pessoas que nunca farão nada – por falta de coragem e outras tantas questões pessoais e não pessoais - e também há aquelas que farão de tudo e não necessariamente será bom - para o bem e para o mal. Mas, uma coisa é fato: sempre há o que pode ser feito, sempre há alternativas para mudarmos o que não está de acordo com o que queremos e não combina mais conosco, como aquela roupa que compramos no que hoje se chama "fast fashion" apenas porque era uma modinha passageira e depois nunca mais usamos, porque não combina mais com nada, não combina com quem escolhemos ser pelas nossas transformações. Mudar é difícil e pode ser para muitos complicado, para outros um pouco mais tranquilo, mas para todos, necessário. A vida está em constantes mudanças, a natureza muda sempre, o que vivemos – e o que não vivemos – muda todos os dias. A vida é nova todos os dias.

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O caminho que cada um escolhe implica vários fatores, é pessoal e intransferível, mas mudar é e sempre será preciso, principalmente por dentro, de dentro para fora. Sempre há escolhas e atitudes para tomarmos e elas definirão quem somos. Não, não há garantias e nem segurança, mas há sempre possibilidades. Possibilidades de vivências, experiências, aprendizados, crescimento e mudanças, se realmente quisermos fazê-las. Transformar essas possibilidades em potenciais realizações é uma outra questão, que está também ligada ao "quanto" desejamos realmente investir em nós mesmos, nos outros, nas coisas que nos cercam - que nunca são somente coisas - e, principalmente, se queremos mesmo aquilo que desejamos. Mas há um fato imutável, ou seja, mudar é a única questão permanente na vida. A vida é mais, bem mais e muito mais além. E viver somente, não basta.


Veruska Queiroz

Psicanalista, escritora, consultora de estilo e de moda, consultora de decoração, lifestyle coach, uma apaixonada por pessoas, pela arte do viver, por cultura em todos os seus segmentos e por todas as expressões de artes. Sou muitas de mim e uma aprendiz de infinitos....
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