José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida. Escrevi Sob o signo da Fênix pela Canal 6 editora; A tragédia da política em Ricardo III pela Beco do Azougue editora e eventos; A tragédia da política em Ricardo II pelo Beco do Azougue editora e eventos; Sob o signo das Valquírias pela editora MouraSA.

Chega de saudade

A saudade é uma porta que nos oferece acesso livre ao que há de mais intenso e marcante no nosso passado.


Saudade. Sentimento paradoxal. Misto de alegria e tristeza. Que causa risos e lágrimas. Que provoca, irrita, inspira e relaxa. Que desperta lembranças. Como é gostoso o cheiro das lembranças. As lembranças têm cheiros. O impacto emocional que um aroma é capaz de provocar pode nos marcar para sempre. Para o escritor francês Marcel Proust, o resgate da lembrança da infância é composto por chá com Madeleine, como confidencia ao recorrer à memória olfativa no primeiro dos setes volumes de Em busca do tempo perdido.

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De fato, algumas lembranças são revividas a partir de nossas percepções olfativas. Basta sentir uma vez mais determinado cheirinho. Os odores têm o curioso poder de despertar sentimentos escondidos, perdidos, esquecidos em algum canto dentro de nós. Cheiro de terra molhada, de mar pela primeira vez, do perfume inebriante da ex-namorada, de livro novo, de churrasco.

A saudade é marcada por lembranças. A saudade nos encanta porque funciona como uma máquina do tempo. Ela nos leva ao encontro de pessoas, mesmo que não possamos mais revê-las, nos transporta a lugares e épocas distantes. Quando ela nos visita, traz consigo abraços, olhares, conversas, carícias, promessas, cenários, cheiros, músicas e sorrisos.

Existe uma tendência humana de repetir vivências prazerosas. Quando isso acontece, reativamos experiências infantis muito primitivas de completude, satisfação e felicidade. O perfume de uma flor pode trazer à tona recordações da casa da infância, do quintal da avó ou até mesmo de um antigo amor. Esses doces e nostálgicos cheiros são inesquecíveis. São cheiros carregados de lembranças.

Talvez ninguém consiga falar da saudade que nos segue por toda a vida com tanta maestria como os poetas e músicos.

A poetisa brasileira, Cecília Meirelles, afirma: "de que são feitos os dias? De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Assim é a saudade. Uma ausência presente".

O poeta Vinicius de Moraes alerta: "sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos".

Por sua vez, o poeta Almeida Garret diz: "Saudade é um suave fumo do fogo do amor que qualquer breve ausência basta para alimentar". Não é por acaso que gostamos de sentir saudade, mesmo que ela nos deixe tristes, com uma ponta de solidão.

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A escritora Martha Medeiros vai mais além: "Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche".

A escritora Clarice Lispector segue na mesma linha de Medeiros: "sinto saudades de quem não me despedi direito, das coisas que deixei passar, de quem não tive mas quis muito ter".

Aceitar a transitoriedade da vida é o segredo para sentir uma saudade boa. Nossa vida é repleta de chegadas e partidas. O ano começa e termina. Os amores vêm e vão. Amigos surgem e desaparecem. Cursos se iniciam e acabam. Festas e viagens têm começo e fim. Deixamos e carregamos dentro de nós tudo o que vivemos, em cada ciclo que fechamos.

Há pessoas que preferem parar em algum lugar desses ciclos, achando que jamais irão viver algo com o mesmo sabor. O que está por trás dessa atitude de querer morar no passado muitas vezes é um grande vazio existencial. Como a imperfeição do presente é desconfortável, preferem a zona do conforto do que já se foi, valorizando o que aconteceu de bom e jogando no lixo o que foi ruim. Assim criam sua própria receita para suportar os aborrecimentos do dia a dia. É exatamente isso o que acontece com os nostálgicos.

De origem grega, a palavra nostalgia deriva de álgos (dor) e nóstos (retorno) e expressa uma tristeza profunda causada pelo afastamento da pátria, do lar. As pessoas se sentem desse jeito, fora do seu lugar. Esse sentimento de nostalgia está bem presente na música Chega de saudade. A bela canção Chega de saudade escrita pelo poeta Vinicius de Moraes (letra) e pelo maestro Antônio Carlos Jobim (música) representa fielmente o sentimento de saudade nostálgica que pode ser encarada como negativa: "Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser, diz lhe numa prece que ela regresse porque eu não posso mais sofrer (...) Chega de saudade, a realidade é que sem ela não há paz, não beleza, é só tristeza e melancolia, que não sai de mim, não sai de mim, não sai".

Como diz a letra, na nostalgia a pessoa revive o passado acentuando os aspectos positivos dele, com a ideia de que perdeu algo que não pode recuperar. Ou seja, o passado foi e continua sendo melhor que o presente, como um momento perfeito ao qual nunca poderá retornar a não ser por lampejos de lembrança.

A nostalgia expressa na letra reflete o angustiante desejo de reviver aquele momento, de estar com a pessoa amada. Assim, a nostalgia reflete um brilho ligado a uma experiência única, intensa, algo relacionado à plenitude, ao sublime, ao divino.

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Mas a lição que aprendemos da saudade saudável é que não devemos e nem podemos desperdiçar o aqui e agora. Por isso, valorizemos cada gesto, cada olhar, cada emoção, cada detalhe das experiências que vivemos hoje. Sentir gratidão por tudo o que vivemos e deixar a vida livre para que ela escreva novas histórias.


José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida. Escrevi Sob o signo da Fênix pela Canal 6 editora; A tragédia da política em Ricardo III pela Beco do Azougue editora e eventos; A tragédia da política em Ricardo II pelo Beco do Azougue editora e eventos; Sob o signo das Valquírias pela editora MouraSA. .
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