José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida. Escrevi Sob o signo da Fênix pela Canal 6 editora; A tragédia da política em Ricardo III pela Beco do Azougue editora e eventos; A tragédia da política em Ricardo II pelo Beco do Azougue editora e eventos; Sob o signo das Valquírias pela editora MouraSA.

Ciúme: monstro de olhos verdes

“Os textos de William Shakespeare são caracterizados por descrições minuciosas das paixões humanas e da loucura que muitas vezes as acompanha. O dramaturgo inglês apreciava personagens extremados, representações de violência e cenas de morte. A insanidade desenvolvida por Otelo marcou a subjetividade ocidental, por sua precisão e universalidade. É por esse motivo que análises do texto continuam a surgir e a se contradizer reciprocamente e as representações da peça nunca cessaram, desde sua primeira montagem, em 1604”.


“Oh! Cuidado com o ciúme, meu senhor! Ele é um monstro de olhos verdes, que produz o alimento do qual se nutre! Esse chifrudo vive na alegre embriaguez de quem, tendo certeza de sua adversidade, não ama aquela que o trai; mas oh! que malditos minutos ele conta, esse que ama, mas duvida, mas ama perdidamente!”.

Essa conhecida frase da peça Otelo de Shakespeare retrata o cenário da peça. Centrada nas paixões, conflitos e contradições da natureza humana: ciúme e vingança. Não há melhor autor do que Shakespeare para explorar um tema tão comum de todas as épocas e todos os seres humanos: o ciúme.

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É uma das obras primas de Shakespeare. Faz parte das grandes tragédias shakespearianas, como afirma Harold Bloom.

Otelo, o herói da tragédia shakespeariana, é mouro e veneziano. "Como veneziano, deve chefiar a frota; como mouro, não tem a permissão para pedir em casamento nenhuma veneziana. O guerreiro é considerado pelos habitantes da cidade como um igual, mas o amante é visto como um animal negro".

Na peça, Otelo é enredado por Iago. É vítima da vingança de Iago. Um dos grandes vilões shakespearianos. Iago quer se vingar de Otelo e Cássio por ter sido preterido da escolha de Otelo.

De acordo com Szondi: “Iago é um irônico. Seu método é o método socrático. Por isso a imagem do veneno que ele derrama gota a gota no ouvido de Otelo não corresponde à realidade. Iago traz à tona o ciúme de seu senhor. Iago utiliza das seguintes artimanhas: suas perguntas são respostas, suas respostas, perguntas. Seu sim oculta um não, seu não, um sim. E a medida que a trama evolui, a inquietação de Otelo é fruto da tentativa de Iago de tranquilizá-lo, e a dúvida de Otelo é o efeito de sua tentativa de persuadi-lo”.

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Para William Hazlitt: “O personagem de Iago (...) pertence a uma classe, ao mesmo tempo, comum e típica em Shakespeare, a saber: de indivíduos dotados de uma mescla de intensa atividade intelectual e total ausência de princípios morais, e que ganham evidência às custas de terceiros, tentando confundir as fronteiras práticas entre o bem e o mal, baseando em padrões forçados de sofisticação especulativa”. Ele “enfeitiça” o coração de Otelo.

Podemos afirmar que a trama de Otelo é, essencialmente, a trama de Iago, a improvisação deste constitui a alma e o cerne da peça.

Nas palavras da psicóloga Milena Gonçalves: “o ciúme é o tema que constantemente vem à tona quando falamos sobre relacionamento afetivo, isso porque dentre as mais diferenciadas emoções humanas essa é uma emoção extremamente comum. Todos nós cultivamos certo grau de ciúme e alguns dizem que esse sentimento é necessário em todo relacionamento, porque afinal, quem ama cuida”.

Ainda de acordo com Gonçalves: “O sentimento denominado amor geralmente é acompanhado do ciúme. E o ciúme muitas vezes aparece sob o véu do cuidado, do zelo e da preocupação com a pessoa amada. Quem ama o outro sente a necessidade de fazer com que a pessoa se sinta realmente amada, acolhida, querida e respeitada no relacionamento”.

Existe sim o ciúme em nível normal que tem como função cuidar e proteger da pessoa amada e do pedaço de nós que está depositado nela (o nosso amor, as nossas expectativas, os nossos ideais, sonhos e etc.). Logo, todos nós, alguma vez, em maior ou menor grau já o sentimos.

Já no ciúme patológico há o desejo inconsciente da ameaça de um rival, assim como o desejo obsessivo de controle total sobre os sentimentos e comportamentos do outro. Caracteriza-se por se exagerado, sem motivo aparente que o provoque, deixando o ciumento absolutamente inseguro e transformando-o num tremendo controlador, cerceador da liberdade do outro, podador de qualquer atividade que o parceiro queira fazer sem que ele esteja presente.

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Na peça, na opinião de alguns especialistas, Iago nunca precisou forçar a natureza de Otelo para enlouquecê-lo, bastou-lhe revirar o frágil ideal que o outro fazia de si mesmo e da esposa, e sobre o qual assentava todo seu universo (demonstrando assim que Otelo amava Desdêmona pela imagem que construiu dela).

A incapacidade de julgar e controlar as próprias emoções, mesclada à imaturidade emocional e a profundas falhas narcísicas, constitui o cerne do processo psicológico que levará Otelo à perdição. No entanto, especialistas em Shakespeare não são unânimes quanto a esse personagem. Muitos não veem senão uma vítima infeliz de um manipulador sem escrúpulos, e inúmeros estudos o defendem.

Por fim, para Sebastian Diegues: “mesmo depois do drama final, Otelo continua incapaz de encarar a própria responsabilidade naquele ato tresloucado. Em sua defesa, evoca o destino e a influência da lua, assim como seu sentido de honra: “Digam de mim que sou um honorável assassino, se assim preferirem; pois eu nada fiz por ódio, eu tudo fiz por honra”. Esse refrão é conhecido por muitos juízes que tratam de crimes passionais. O especialista em Shakespeare Leo Kirschbaum é bastante crítico com relação aos colegas que não medem esforços para defender Otelo. Ele argumenta não só que o general teria tido diversas oportunidades de frustrar o plano de Iago, mas, sobretudo, que a tolerância leva a uma leitura enganosa do texto, e que tais trabalhos se referem mais às tendências sexistas e românticas dos autores do que à própria obra.

Mas o próprio Shakespeare nos põe de alerta contra uma leitura demasiado benevolente do personagem (Otelo), uma vez mais pela boca de Iago: “Não nos cabe ser isso ou aquilo. Nosso corpo é nosso jardim e nossa vontade é o jardineiro. (...) Se a balança da vida não tivesse o prato da razão como contrapeso para o da sensualidade, nosso temperamento e a baixeza de nossos instintos nos levariam às mais desastrosas consequências. Mas nós temos a razão, para arrefecer nossas paixões furiosas, nossos impulsos carnais, nossos desejos desenfreados”.

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Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida. Escrevi Sob o signo da Fênix pela Canal 6 editora; A tragédia da política em Ricardo III pela Beco do Azougue editora e eventos; A tragédia da política em Ricardo II pelo Beco do Azougue editora e eventos; Sob o signo das Valquírias pela editora MouraSA. .
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