José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida. Escrevi Sob o signo da Fênix pela Canal 6 editora; A tragédia da política em Ricardo III pela Beco do Azougue editora e eventos; A tragédia da política em Ricardo II pelo Beco do Azougue editora e eventos; Sob o signo das Valquírias pela editora MouraSA.

Medusa e Perseu

Em nossas vidas, tão repletas de sonhos e ilusões, há momentos de escolhas, de dilemas torturantes. Nestas situações, podemos ser vítimas de Medusa. Petrificamos. Perdemos oportunidades. Vacilamos. Fazemos escolhas erradas. Afinal, nossa vida é marcada por escolhas. No entanto, escolhas certas ou erradas fazem parte do processo evolutivo do ser humano.


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Na região mais distante da Terra, em meio a águas raramente navegadas, erguia-se a chamada ilha maldita. A humanidade evitava pisar ali – exceto aqueles que buscassem a morte ou tentassem cumprir alguma façanha impossível. E era nesse lugar, no exílio absoluto, que vivia Medusa.

Ninguém ousava contemplar seu rosto – e, contudo, esse rosto é um dos famosos na história da arte universal. Todos a temiam, mas ninguém conhecia sua história. Alguns diziam que ela era filha de uma antiquíssima família de monstros: seus pais eram Cetos e Fórcis, criaturas terríveis que habitavam os mares abissais. Medusa tinha também duas irmãs: Esteno e Euríale. Juntas, eram conhecidas como Górgonas, que significa apavorante. Sobre elas, o dramaturgo grego Ésquilo escreveu: “eram detestadas por toda a humanidade, pois ninguém podia contemplar seus rostos e continuar vivo”.

O poeta romano Ovídio contava uma história diferente – e mais perturbadora – sobre as origens de Medusa. Diz ele que o monstro fora uma mulher de notável beleza – seus cabelos, em especial, eram de graça fabulosa. Todos a cortejavam, mas ela não queria ninguém. Furioso de desejo, Poseidon, o deus dos mares, violentou-a no recinto de um templo.

O local era consagrado a Palas Atenas, a mais sensata e racional das divindades. Naquele dia, contudo, a deusa da sabedoria sentiu nojo. Para expurgar o sacrilégio, puniu a vítima. Os belos e luminosos cabelos de Medusa se contorceram, ganhando vida. As pontas das tranças sibilaram com línguas bifurcadas; gotas de veneno escorreram pela testa. Sua cabeça estava coberta por víboras; presas de animal selvagem distorciam-lhe a boca. Seus olhos soltavam uma luz horrível, que transformava em pedra quem ousasse encará-la. Ao ver sua própria metamorfose, Medusa estampou a expressão de fúria e horror que jamais a abandonaria. Não era mais uma mulher, era uma Górgona.

Certo dia, contudo, um invasor chegou sem fazer barulho – seus pés calçavam sandálias aladas e ele se deslocava pelo ar. Medusa ressonava. Suas feições se refletiam no escudo de bronze que o forasteiro trazia: mirando o reflexo, sem olhar a face fatal, ele preparou o golpe. A espada em forma de foice subiu e baixou, certeira. Quando os olhos de Medusa se arregalaram, num espaço, sua cabeça já fora separada do corpo. Não chegou a ver o rosto de Perseu.

Perseu era um herói, adorado pelos gregos e o único que conseguiu enfrentar Medusa. Destemido, corajoso, astuto e perspicaz.

Paradoxalmente, podemos pensar a partir dos arquétipos de Perseu (coragem) e Medusa (cautela - o ato de petrificar) representam a luz e a sombra que convivem juntas, simbolizando nossa ambiguidade e humanidade. Vale recordar que os arquétipos, segundo Jung, são "formas sem conteúdo, representando meramente a possibilidade de um certo tipo de ação e percepção".

Jung passou a considerar a religião e a mitologia comparadas fontes inigualáveis de informação sobre o inconsciente coletivo, e concluiu que a espiritualidade genuína é parte integrante da psique humana.

Diante disso, recorrendo aos mitos tratados, em qualquer dificuldade, Perseu recorria ao alforje para mostrar Medusa. Os instantes mais dolorosos de nossa vida são aqueles que nos revelam a nós mesmos, as nossas diversas facetas.

Uma curiosidade é que na Piazza dela Signora, em Florença, encontra-se a representação de Perseu e Medusa – um conjunto em bronze forjado por Benvenuto Cellini, em 1545.

Pouca gente percebe, mas os rostos do herói e da Górgona são idênticos.

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José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida. Escrevi Sob o signo da Fênix pela Canal 6 editora; A tragédia da política em Ricardo III pela Beco do Azougue editora e eventos; A tragédia da política em Ricardo II pelo Beco do Azougue editora e eventos; Sob o signo das Valquírias pela editora MouraSA. .
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