José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida

Longo pesadelo

O trompetista galã, o “James Dean do Jazz” foi o protagonista de uma história trágica. Às vezes, a vida pode parecer um “longo pesadelo”.


chat.jpg A trama perigosa

Na tragédia, a trama, a perigosa trama que envolve o herói pode ser um acidente ou acaso da circunstância. A tragédia da vida nos informa que no fato da existência humana uma provocação ou paradoxo, ela nos conta que os objetivos dos seres humanos, às vezes correm contra as correntes de forças poderosas e inexplicáveis e tão destrutivas que, são “externas” e embora tão próximas de nós.

Questionamos Deus: “Até quando esperar?”.

Nas antigas tragédias gregas, questionam os deuses porque Édipo teria sido escolhido para a sua agonia?

Na tragédia shakespeariana, porque Macbeth? Era fiel ao rei e ele encontrou as feiticeiras, em seu caminho e foi persuadido também pela esposa, Lady Macbeth, para cometer o “horror, horror, horror”.

Qual a razão? Qual a justificação da noite sem voz? Por que os deuses e Deus nos punem? Não há razão? Por que deveria haver?

Como diria George Steiner: “Se houvesse, estaríamos lidando com sofrimento, justo e injusto, como ocorrem nas parábolas de advertência, não com as tragédias humanas”.

As tragédias humanas e a vida de Chet Baker

As tragédias humanas são terríveis e inspiradoras. A vida de Chet Baker é um exemplo. Foi trágica e foi um longo pesadelo.

Ela se assemelha às tragédias gregas e shakespearianas. Como qualquer vida humana na atualidade.

A vida humana é marcada por escolhas... Sempre são escolhas. Escolhas em encruzilhadas. Escolhas em dilemas torturantes.

Nascimento e crescimento

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Chet Baker nasceu em Yale, uma modesta comunidade agrícola, no estado de Oklahoma. Mais tarde, na vida adulta, Chet Baker diria: “Oklahoma é uma lata de lixo cultural”.

Chesney Baker, o pai, era um músico frustrado. Durante alguns anos conseguiu realizar seu sonho de tocar violão e banjo em bandas de country.

A respeito disso, anos depois. o filho foi cruel e mordaz com o gosto musical do pai e da região: “o mais terrível tipo de música do mundo”.

Na crise de 1929, Chesney foi obrigado a trocar música por trabalhos manuais para a sobrevivência da família.

O dom da música

Chet, até aos 12 anos, não se interessou por música. Suas paixões eram o basquetebol, a natação e correr com os amigos.

Em alguns momentos, o dom da música tocava Chet.

A amada mãe, Vera Baker, gostava de ouvir o filho cantar junto ao rádio.

Achava irresistível. “Uma voz doce e romântica”, dizia a mãe apaixonada pelo filho.

O pai estava de longe de apreciar os vocais infantis e meio femininos do filho.

Por essa razão, de forma impulsiva e agressiva, presenteou o filho com trombone de vara.

Aos 12 anos, Chet Baker não tinha forças para tocar um instrumento tão grande.

O pai ficou decepcionado. Trocou por um trompete.

O trompete e o acidente

Chet era esperto e aplicado.

Logo, conseguiu acompanhar com seu trompete algumas notas musicais na rádio para espanto e admiração de seu pai.

Orgulhoso, imaginava ver o filho brilhar como estrelas no céu. Uma estrela radiante ofuscando outras estrelas. Chet levou a sério esse pensamento paterno durante a vida.

Meses depois, um acidente demonstrou a resiliência de Chet.

Enquanto treinava na rua com seu trompete, um amigo jogou uma pedra em sua direção. Foi atingido.

Gritos. Dor. Sofrimento. E o sangue escorrendo pela boca. O dente frontal estava quebrado.

Não bastasse a dor que sentiu por causa da perda do dente, Chet ainda teve que aguentar desaforos e gritos do pai.

O pai gritava em tom pessimista: “Sem esse dente, você não pode tocar mais”.

Chet ignorou o pai.

"Vou extrair o som do instrumento"

Sem se preocupar com o fato estético da falta do dente frontal e da dificuldade do controle do ar, Chet praticou todos os dias. “Vou encontrar uma nova forma de extrair o som do instrumento”.

Percebeu logo que não conseguia mais extrair as notas agudas. Só as médias.

Para si mesmo admitiu: ”os sons agudos servem apenas para músicos exibicionistas”.

Depois de idas e vindas, o sucesso chegou.

Uma revista conceituada o elegeu como melhor trompetista a frente de Miles Davis e Louis Armstrong, entre outros.

Era uma celebridade. Sua aparência de galã ajudou a extrapolar os círculos musicais.

Era comparado a James Dean pela beleza facial. E recebia convites para estrelar filmes.

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A heroína e o longo pesadelo

A heroína virou uma parceira. Chet perdeu a saúde e a boa aparência. Perdeu amigos e parceiros.

O vício transformou sua vida num ciclo repetitivo. "Estava sempre em detenção, prisão, liberação, mudança de resistência, tentativa de volta e uma nova detenção". Passou longa temporada na Europa vivendo o mesmo ciclo.

O demônio citado por Nietzsche - do Eterno Retorno - perguntava para Chet Baker: - Vamos repetir o ontem?

Num retorno eventual aos Estados Unidos, após um show com músico brasileiro, foi espancado por alguns homens. Teve o lábio superior rompido e mais um dente quebrado. Além disso, foi golpeado no ouvido.

O fim estava próximo.

O documentário de 1987 de Bruce Weber

Em 1987, as últimas imagens de Chet Baker foram angustiantes. Era um documentário. Estava desfigurado e parecendo ter 30 anos a mais. O “James Dean do Jazz” estava acabado.

Nesse mesmo documentário de Bruce Weber, o mais melancólico era a trilha sonora cantada por Chet Baker. Aos sussurros, com um fio de voz anunciava o fim de um longo pesadelo.

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O fim do pesadelo

Em 1988, em Amsterdã, na Holanda, Chet Baker foi encontrado morto, na calçada, embaixo da janela do quarto que se ocupava, no terceiro andar, horas depois de ter se drogado.

Duas décadas depois, o carisma musical de Chet Baker permanece vivo em suas gravações.

O legado

"Expoente da geração do cool jazz (também conhecido como West Coast Jazz), apoiado na típica sonoridade sem vibrato de seu trompete, Baker também conquistou muitos fãs como cantor. Seus vocais suaves e contidos, quase sussurrados, chegaram a influenciar até músicos brasileiros, como os tropicalistas Caetano Veloso e Gal Costa ou vários adeptos da bossa nova".

Fonte: Coleção Clássico Jazz Folha.

Imagem de André Abreu


José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida.
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