José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida

Nihil perditi

O pensamento de Sêneca (4 a.C?-64 d.C), influenciado pela escola estoica, enfatizava medidas práticas por meio das quais enfrentar os problemas da vida, e também a necessidade de se encarar a própria morte. O grande legado de Sêneca é que dois milênios após a sua morte, as ideias da sua fascinante obra ainda são inspiradoras e atuais.


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“Perscruta a tua memória: quando atingiste um objetivo? Quantas vezes o dia transcorreu como planejado? Quando usaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste uma boa aparência, o espírito tranquilo? Quantas obras fizeste para ti com um tempo tão longo? O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões ávidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu? Compreenderás que morres cedo”. Esse trecho da impactante obra "Sobre a brevidade da vida" de Sêneca é um dos textos mais conhecidos de toda a Antiguidade latina. São cartas dirigidas a Paulino (cuja identidade controversa), nas quais o sábio discorre sobre a natureza finita da vida humana.

De acordo com Nassim Nicholas Taleb, “Lúcio Aneu Sêneca foi um filósofo que era a pessoa mais rica do Império Romano, em parte por sua perspicácia comercial, em parte por ter servido como autor do exuberante imperador Nero, aquele que tentou golpear e (mandou matar) a própria mãe. Sêneca era partidário e proeminente expoente do estoicismo, escola filosófica que propagava certa indiferença ao destino”.

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Sêneca era um homem prático, um homem de ação. Ele se preocupava com o aspecto prático do estoicismo: como lidar com a adversidade e a pobreza, como superar infortúnios e etc.

O entendimento tradicional do estoicismo é o de alguma indiferença ao destino. O sábio romano sobreviveu a um naufrágio em que outros membros de sua família morreram, e escreveu cartas com conselhos mais e menos práticos para seus amigos.

A frase-chave que reverbera na obra de Sêneca é nihil perditi, “não perdi nada”, após um incidente adverso. Conta-se que sua morte foi uma lenta agonia. Ele recebeu a ordem do imperador Nero de suicidar-se. Foi acusado de participar da conjuração de Pisão, em 65 d. C (de tramar a morte do imperador Nero).

Sêneca executou o suicídio com o mesmo ânimo sereno que pregava em sua filosofia. “Abriu as veias do braço, mas o sangue correu muito lentamente, assim, cortou as veias das pernas. Porém, como a morte demorava, pediu a seu médico que lhe desse uma dose de veneno. Como este não surtiu efeito, enquanto ditava um texto a um dos seus discípulos, tomava banho quente para ampliar o sangramento. Por fim, fez com que o transportassem para um banho a vapor e, ali, morreu sufocado”.

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O estoicismo pregado por Sêneca é “pura robustez” – pois alcança um estado de imunidade diante das circunstâncias externas, boas ou más, e uma ausência de fragilidade diante de decisões do destino.

Como diz o polêmico filósofo Taleb, o pensamento estoico é que “eventos aleatórios não nos afetarão de maneira alguma (somos fortes demais para ser derrotados, e nem um pouco gananciosos para desfrutar de vantagens)”.

O estoicismo, portanto, está relacionado à domesticação das emoções. Sêneca propõe um programa completo de treinamento para lidar com a vida e usar adequadamente a emoções. Por exemplo, acalmar-se num momento de fúria para não arrepender-se mais tarde. Já passamos diversas vezes por essas experiências em nossas vidas. E, muitas vezes, não temos controle sobre nosso “deus da guerra”.

Sêneca nos oferece um compêndio de feitos sociais: investir em boas ações.

Como diria o maior sábio romano, “as coisas podem ser tiradas de nós – mas não as boas ações e nem os atos de virtude”.

Por fim, o estoicismo nos ensina a enfrentar as “sutilezas” da vida com elegância e nobreza. A rir e saborear as armadilhas e ciladas do destino.

Eu rio daquele meu "naufrágio" de março de 2018 todos os dias. "Não perdi nada". Eu ganhei.

"Aquilo que foi doloroso suportar torna-se agradável depois de suportado; é natural sentir prazer no final do próprio sofrimento" (Sêneca).


José Silveira

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