José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida

Tolstói: o idealismo e a harmonia final

"A sabedoria com as coisas da vida não consiste, ao que me parece, em saber o que é preciso fazer, mas em saber o que é preciso fazer antes e o que fazer depois". Leon Tolstói


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Quando eu completei 15 anos, minha mãe me presenteou com alguns livros especiais, entre eles: Guerra e Paz de Tolstói.

A obra de Tolstói teve um enorme e verdadeiro impacto em mim.

Também pesou outros escritores russos, tanto romancistas quanto pensadores sociais, da metade do século XIX.

Esses autores contribuíram muito para a minha formação. Parecia-me, e na verdade ainda me parece, que o objetivo desses escritores não se concentrava em contar de forma realista a relação entre as pessoas, grupos sociais e classes em seus aspectos sociais e psicológicos, ainda que, obviamente, os melhores deles tenham conseguido exatamente isso, e de forma inigualável.

Eu tinha a impressão de que a abordagem deles era essencialmente moral: estavam preocupados com a causa da injustiça, da opressão, da falsidade nas relações humanas, do aprisionamento (seja por muralhas de pedra ou pelo conformismo da submissão dócil ao jugo humano), da cegueira moral, do egoísmo, da crueldade, da humilhação, do servilismo, da pobreza, do desamparo, da indignação, do amargor, do desespero por parte de tantos.

Em suma, eles estavam preocupados com a natureza de todas essas experiências e com suas raízes na condição humana: as condições da Rússia em primeiro lugar, mas, por conseguinte, de toda a humanidade. E, de maneira inversa, eles almejavam saber o que proporcionaria o oposto de tudo isso, ou seja, um reino da verdade, do amor, da honestidade, da justiça, da segurança, das relações baseadas na dignidade humana, na decência, na independência, na liberdade e no bem-estar espiritual.

Tolstói acreditava que esses valores estavam intrinsecamente ligados às pessoas simples, isoladas da civilização e livre das distorções convencionais, as quais se originaram os vícios humanos - cobiça, egoísmo, “cegueira espiritual”.

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Outros autores russos viam a solução no racionalismo científico. E um novo grupo de intelectuais que enxergavam a revolução política e social como a única alternativa viável. Esses entendiam que certos sujeitos “predestinados” eram capazes de mudar os rumos da história.

O denominador comum de todas essas ideias e crenças é que havia soluções para todos os problemas, e que alguém poderia encontrá-las e, com “uma boa dose de virtù e saber lidar com a Fortuna”, poderia realizar essas transformações na terra.

Todos eles acreditavam que a essência do ser humano era poder escolher como viver; sociedades poderiam ser modificadas sob a luz de verdadeiros ideais graças ao esforço e dedicação de todos ou de um líder messiânico.

Hoje, com 41 anos (aumenta meu realismo e pessimismo), vejo que esse idealismo dos escritores russos e seguidores, essa velha e perene crença na possibilidade da “harmonia final” é uma falácia. Pobres sonhadores!!!

Como diz Isaiah Berlin: “O melhor que pode ser feito, como regra geral, é manter um equilíbrio precário, que prevenirá a ocorrência de situações desesperadoras, de escolhas intoleráveis - essa é a primeira exigência para uma sociedade decente; uma pela qual valerá sempre a pena lutar, dado nosso limitado escopo de conhecimento e de nosso entendimento imperfeito dos indivíduos e das sociedades. Certa humildade nesses assuntos é extremamente necessária”.


José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida.
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